“Acho que vai haver crescimento, não da forma ideal”

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Tribuna do Planalto – Qual a perspectiva do lojista para os próximos anos, tendo em vista que 2012 e 2013 foram muitos bons para o comércio? O que se espera de 2015?

Geovar Pereira – A expectativa não está boa, há ainda um tom de nebulosidade muito grande por causa da equipe econômica. Se o governo não fizer o dever de casa, que é alavancar o crescimento do setor produtivo, e não fizer novos investimento, a crise será mais séria. Com o problema que houve nas eleições, com a pequena diferença entre os dois candidatos no segundo turno, e em função de todos os anos que a presidente está no comando do Brasil, só sendo doido para não enxugar a máquina estatal e investir no setor produtivo que, em massa, ficou contra ela durante a campanha eleitoral. Eu estou acreditando nessa equipe (econômica). Acho que vai haver crescimento, não da forma ideal, mas de algum modo. O Brasil tem potencial para sair dessa crise, diferentemente de outros países. Eu estou confiante com 2015. Os empresários devem se preparar.

E em termos de Goiás?
Acho que o governador está muito mais atento do que outros. Ele demonstra estar bastante atento e, para mim, começou bem enxugando as secretarias. O estado de Goiás está bem, com relação aos demais. Acredito que vai se sobressair muito nacionalmente, no ano que vem. Além disso, o estado goiano tem o privilégio da localização, por estar no centro do país.

 A que se deve o aumento do endividamento?
No meu ponto de vista, à facilidade do crédito somada à falta de organização financeira. Na hora da compra, as pessoas não planejam as contas e, por isso, acabam acumulando dívidas. Isso é uma contingência do mercado, que é bom e ruim ao mesmo tempo. Mas, isso não é geral. São apenas 3% a 3,5% (de endividados). Para mim isso é normal. A renda aumentou, então é normal que o endividamento também aumente. Se você ganha mais, pode sim fazer mais dívidas, desde que cumpra com os pagamentos. Eu penso até um pouco diferente da maioria.

Não é preocupante que o endividamento aumente?
Não, pois isso é comum ao mundo todo. Se você compra um carro financiado, por exemplo, há a dívida. Agora, se você não consegue arcar, pode vendê-lo e quitar a dívida. Então, não vejo como um problema. O endividamento da família só está acontecendo porque a modernidade exige isso. Olha a tecnologia: todos os dias há novidades. Quem não quer ter um tablet mais moderno hoje?

Mas e o risco da inadimplência?
Esta sim é mais problemática, quando há muita. O pior é que o mercado acaba estimulando, devido às condições de pagamento oferecidas pelos lojistas. Principalmente, aqueles que oferecem parcelamento a longo prazo, isso com certeza aumenta bastante a inadimplência. Quando há um percentual alto de inadimplência, significa que o comércio está parando de vender, o empregado perde o emprego e não pode pagar os seus próprios compromissos e isso acaba tornando-se uma avalanche.

O senhor acredita que falta educação financeira para o planejamento familiar?
Acho que falta quando se trata de família. Para mim é mais uma questão da falta de diálogo eles. Falta a reunião entre os familiares para discutir onde gastar menos, e onde gastar mais. Pais e filhos não se reúnem para prever gastos e se organizar. Tenho uma empregada que, com um salário mínimo, conseguiu construir sua casa mantendo suas contas organizadas. Na hora que houver isso, dificilmente haverá problemas. Pode ter arroxo? Sim, mas se ficar inadimplente em um mês, conserta no seguinte.

Essa facilidade de crédito dificulta essa organização?
Não vou dizer que sim, pois é um hábito brasileiro que já se tornou comum. Mesmo se houver muita facilidade, se a família está organizada e com os gastos planejados, não vai adquirir outros débitos para si. O supérfluo é passível de ser administrado. Eu entendo o crediário como uma forma de democracia financeira. A facilidade de crédito possibilita às pessoas realizarem sonhos de consumo, como a casa própria ou o automóvel. E se a pessoa planeja, organiza e avalia os prós e contras de novos compromissos financeiros, então essa facilidade traz benefícios para ela. Mas, também pode ser negativa quando há uma frequência maior.

De que maneira isso ocorre?
Se a pessoa não estiver organizada, então não consegue aliar os rendimentos e os gastos. Além disso, torna-se trivial pois as pessoas passam a usar de maneira corriqueira. Como é o caso do supermercado a prazo. Tive uma experiência desse jeito, quando possibilitei a meus funcionários que as compras de supermercado fossem descontadas diretamente no salário. Houve casos de pessoas que, no recebimento, não tinham nada para receber. Então, tive que abolir essa política na empresa. Isso mostra a falta de organização financeira e planejamento familiar. Mas, acredito que a maioria saiba lidar com isso.

Mas, o senhor acredita que o endividamento afeta o comportamento do consumidor, principalmente no final de ano, que é um período muito importante para o comércio?
Sai menos e quando sai é a procura de produtos mais baratos, com o dinheiro contado. Enquanto estava acostumado a gastar determinada quantia, hoje o valor é bem menor. Mas, as lojas continuam cheias. As pessoas não deixam de comprar. Escolhem muitas vezes produtos que são comercializados sem nota fiscal e acabam alimentando uma rede que não é legal.

Refere-se aos comerciantes informais?
Eu os vejo como microempresários. A maioria são pessoas que deixaram empregos fixos, para ganhar mais com as vendas informais. O que acho errado é que eles comercializam produtos que não possuem nota, não foram adquiridos de fontes legais e acabam alimentando uma cadeia clandestina de comércio.

O senhor acha que eles deveriam ser retirados das ruas?
Não, não sou a favor disso. E como presidente eleito da CDL vou lutar a seu favor. Pois, para mim são microempresários. A mercadoria é que deve ser legal. A tributação, inclusive, pode e deve ser menor do que aqueles que possuem ponto. Eles devem pagar impostos, mas bem menos. O imposto é necessário para o Governo, para manutenção e tudo o mais. Mas, a entrada do produto e sua comercialização tem que ser legalizadas. Se não, alimentamos ainda mais as práticas clandestinas.

Mas, para isso teríamos que assistir a uma reforma tributária, certo?
Claro! Mas, acredito que se esse comerciante que é informal, começasse a trabalhar formalmente, com produtos legalizados, haveria mais arrecadação de impostos. Assim, seria muito mais fácil haver uma reforma. Se há arrecadação e não há falcatruas, a reforma virá com mais facilidade. É uma corrente que ajuda a todos. Quando acabar os contrabandos e a sociedade modificar seu pensamento, passando a exigir a nota fiscal, mesmo que seja num restaurante. O problema é que as pessoas estão acostumadas com o errado.

Em que sentido?
Assistimos a vários escândalos políticos todos os dias, sobre desvios de verba governamental. A sociedade não faz nada. É algo que já se tornou comum. A falcatrua e o dever político não cumpridos são comuns. É normal que um político gaste R$ 380 milhões em sua campanha? De onde sai esse dinheiro? São coisas que prejudicam e precisam acabar. Não é fácil, mas é necessário.

Isso nos leva de volta à questão da educação, tanto no sentido econômico quanto de formação?
Com certeza. Estou vibrando com isso. Pois, acredito que essa nova geração tem mais informação e, com toda essa tecnologia, não vão trocar o voto por um prato de comida. A sociedade está ficando mais bem apurada. A tendência é a diminuição do analfabetismo e os jovens, mesmos os mais pobres, sabem a importância de estudar. Acho que daqui uns 50 anos a política vai ser bem diferente. Acho que vai haver uma sociedade que exige mais, que se pinta de verde e amarelo e busca a melhoria para o país.

Voltando um pouco à questão do comportamento do consumidor: O lojista preocupa-se com a diminuição do consumo?
O consumo sempre vai existir, então não há preocupação com isso. Quem for mais criativo e estiver mais atento às crises, para superá-las, é que se sobressai e sobrevive. Dentro da empresa é como na família, tem que haver diálogo para que a empresa estude o mercado e se prepare para a situação econômica.

O setor produtivo, em geral, foi prejudicado pela recessão econômica deste ano. Qual sua análise?
A indústria sofre mais. O comércio consegue, por meio de outras alternativas, manter sua estabilidade. Claro que não vai haver um consumo como há dois anos atrás, quando a necessidade era maior. Hoje, a necessidade é menor, então as vendas caem, naturalmente. Nesse sentido, o comérciante tem que ser um malabarista, estar atento ao mercado e suas tendências, sabendo dosar. O comércio tem essa vantagem.

Isso não é um ruim, do ponto de vista da geração de empregos?
É. Realmente, é ruim. Mas, no Brasil há um fenômeno engraçado. Saem 300 do trabalho formal, e entram 300. É uma manutenção. E muitos deixam seus empregos para trabalhar por conta própria.

E no caso das contratações temporárias? Em 2013, o número foi bem maior em relação ao último ano..
Esse temporário é um pouco engodo. O empresário contrata para suprir uma demanda. Quem contrata temporariamente um funcionário é porque tem uma necessidade específica. Eu, por exemplo, nunca contratei ninguém para demiti-lo. A não ser segurança, porque com a movimentação acaba exigindo mais.

Agora, com relação a sua gestão, quais as metas?
A CDL está muito bem organizada e estruturada. Então, o foco vai ser mais o lojista, no sentido de ajudá-lo e beneficiá-lo para que cresça em seus negócios. Também queremos aumentar a participação dos diretores da Câmara e aumentar o número de associados, que é pequeno em relação à quantidade de lojistas que existem.

 

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