“Kátia Abreu não é um bom nome para a agricultura familiar”

0
706

Tribuna do Planalto – A senadora Katia Abreu assumiu, a convite da presidente Dilma Rousseff, a pasta do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Qual a sua avaliação sobre a indicação?

Altair Luiz – Para a agricultura familiar, para os trabalhadores rurais  não é um bom nome. Kátia Abreu defende que o campo seja só para produção e que o campo não necessariamente precise ter gente do campo. Se o campo produzir, no entendimento dela, está bom.  Na nossa avaliação pessoas com esse perfil não contribuem com o desenvolvimento do país porque a terra precisa cumprir sua função social, que não é só de produzir, mas também garantir moradia, qualidade de vida, um ambiente saudável e que a terra seja para agora, mas também para o futuro.  Ela (ministra) não se preocupa se daqui a 10, 15 anos vai haver terra para produção. Nós nos preocupamos. Queremos explorar a terra, produzir nela, produzir alimentos pra dentro do país para sustentar a nação, mas queremos que outras gerações também venham produzir alimentos e sobreviver da terra, e não somente produzir para exportar como é agora.

Mas a ministra prometeu um ministério sem qualquer tipo de segregação. O senhor não acredita que isso é possível?
Não acredito porque ela já começou a dizer em seus discursos que no Brasil não existe latifúndios, mas existe. Tanto é que na posse do ministro do Desenvolvimento Agrário (Patrus Ananias) ele reafirmou que é preciso acabar com o latifúndio, que é preciso derrubar a cerca do latifúndio, é preciso derrubar a cerca do preconceito. Sou muito mais para essa tese. É preciso fazer que o campo tenha gente, tenha qualidade de vida e tenha um país desenvolvendo, não só pensando na exportação, em trazer divisas econômicas, recursos financeiros para o Brasil, mas também que dê qualidade de vida para os nossos brasileiros.

A ex-senadora tem enfrentado algumas resistências por parte de movimentos sociais, como o MST. Como os pequenos produtores agrícolas goianos receberam essa notícia da nomeação?
Da parte da agricultura familiar nós estamos vendo com muita insatisfação. Nós esperávamos que o governo brasileiro, que de 2003 pra cá vem evoluindo e melhorando o campo, desse continuidade a esse melhoramento. Com Kátia Abreu no Ministério da agricultura é um passo para trás. Estamos vendo com muita tristeza. É claro que tem gente aplaudindo. O agronegócio está aplaudindo, mas para a agricultura familiar é uma perda.

Tem havido um temor por parte dos agricultores familiares?
Sim. Nós temos trabalhado nos últimos 12 anos buscando valorizar a agricultura familiar através do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que continua. Mas como a Kátia Abreu fala em nome de um coletivo bem maior que os ministros anteriores, pode ser um retrocesso, por isso traz um grande temor pra gente.

Mesmo diante da falta de atuação da pasta na gestão anterior, que era até considerado por muitos uma extensão do Ministério da Fazenda, o senhor considera um retrocesso?
É considerado um retrocesso porque a gestão anterior, apesar de ter essa consideração de ser extensão do Ministério da Fazenda ou que não evoluiu, era menos política. A Kátia vai fazer uma gestão muito mais política de pisar na agricultura familiar e valorizar o agronegócio mais que os anteriores. Isso eu acredito. Para o agronegócio a Kátia Abreu vai ser excelente, mas para agricultura familiar – considerado os médios e pequenos produtores – vai ser um atraso porque ela vai fazer a política da perseguição, ela diz que não vai fazer segregação, mas eu acredito que ela não tem cacife para fazer uma administração do jeito que ela tem falado, de inclusive, fortalecer a agricultura familiar. Ela não entende nada de agricultura familiar. A história dela no Tocantins é muito ruim, principalmente para os pequenos proprietários de terra e não é porque ela estará no ministério que vai fazer uma boa administração.

Em entrevista recente, a ministra disse que seu plano para os pequenos agricultores é dar uma assistência técnica e contínua. Isso basta?
Não basta. Assistência técnica barata, financiamento barato sem garantia de mercado não adianta. O que precisa ser pensado é o financiamento, a assistência e a garantia de mercado. Apesar de que nos últimos anos a agricultura familiar tem contado com o desenvolvimento de mercado no PENAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) e PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), mas não é suficiente, é preciso fazer uma política que coloque a produção com facilidade para a população consumidora.

O que o setor está precisando com mais urgência?
O financiamento para o setor da agricultura familiar ainda é uma falácia. R$ 23 ou R$ 24 bilhões de reais para o Brasil é pouco. Além disso, o banco não libera os financiamentos nem desses R$ 23/24 bilhões de reais. Precisa de financiamento e de assistência técnica, que não existe, e precisamos fazer com que esses produtos cheguem ao mercado com maior facilidade. O que acontece hoje é que o governo brasileiro está importando alho! E ao importar qualquer produto ele desvaloriza nossa produção. Nós precisamos de financiamentos mais baratos, assistência técnica continuada, mas que nossos produtos sejam valorizados, não no sentido de chegar mais caros na mesa dos consumidores, e sim que ele (produtor) tenha liberdade para poder comercializar seus produtos.

Por que importar esses produtos? O que falta?
Não tem estimulo à produção. O alho, o arroz, o leite não são produzidos tudo no Brasil. Nós precisamos ter estimulo para produzir e o estimulo é a garantia de que tem financiamento para produção e a garantia de comércio.

O senhor acredita que Kátia Abreu conseguirá reverter esse quadro?
Vai depender muito da vontade política do governo. Nós fizemos muito para que a Dilma fosse reeleita, porém com as nomeações que ela está fazendo para os ministérios está causando um desanimo na gente. Se o governo pegar firme e fizer a política que o ex-presidente Lula fez em seu primeiro ano de governo, tem possibilidade de elevar o nível de confiança no Brasil nessa questão da pontuação, produtividade, dentre outros.

A organização nacional representante do setor foi consultada sobre a  nomeação da Kátia Abreu?
Em nenhum momento nossa organização nacional, que é a Contag, em Brasília, foi ouvida. Não digo que as federações devessem ser ouvidas, porque senão seria necessário escutar as 27 federações, mas a nossa confederação precisava, não só em relação a nomeação da Kátia, mas também de outros ministérios.

O senhor acredita que esse orçamento mais apertado possa prejudicar o trabalho da Kátia Abreu a frente do ministério?
Acredito que ela não terá problemas financeiros, o orçamento vai garantir que ela faça um bom trabalho. O Ministério da Agricultura sempre tem um bom volume de recursos. O MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) é que tem menor orçamento. Nosso medo é ela destinar todo esse recurso para agricultura de agronegócio, aí enfraqueceria mais ainda a agricultura familiar.

Tem algum nome que seria mais interessante que o de Kátia Abreu para ficar a frente do Ministério da Agricultura?
Tem muita gente boa no país e também dentro do próprio quadro do PT, nomes melhores que o da Kátia Abreu. Se fosse dar sugestão eu daria do deputado federal Vicentinho, de São Paulo, que é um cara que conhece as necessidades do meio rural, do agronegócio e da agricultura familiar. Esse é um nome que, em minha opinião, faria melhor trabalho.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here