Respeitável Público: Educação em Cena

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Nas últimas décadas, o modelo de educação em todo mundo tem passado por várias transformações e questionamentos. Aspectos como currículo, avaliação e metodologia são pautas das discussões não só na academia, mas também no cotidiano escolar. Várias iniciativas e projetos têm colaborado com as propostas desenvolvidas nas redes públicas de educação em todo país, os quais buscam garantir a aproximação do processo pedagógico com a realidade de determinada comunidade escolar.

Em Goiânia, a Secretaria Mu­ni­cipal de Educação (SME), por meio da Divisão de Estudos e Proje­tos(Diep), desenvolve durante o ano letivo, parcerias que colaboram na consolidação de uma aprendizagem significativa. São ações organizadas de tal forma que as instituições educacionais têm seus educandos engajados em práticas pedagógicas que contemplam a formação integral.
Com esta perspectiva, o projeto denominado “Arte, Circo e Cidadania”, fruto da parceria entre a SME e a Organização Não Governamental Circo Laheto colaboram com a formação dos alunos de escolas municipais da região do Jardim Novo Mundo. O nome Laheto tem origem na cultura nativa Karajá e significa a passagem da infância para a fase adulta.
A parceria, que existe desde 2008, atende anualmente cerca de 150 crianças, adolescentes e jovens, e tem como foco proporcionar aos participantes o acesso a bens culturais, somado ao aprofundamento dos conteúdos escolares. No ano de 2014 a Escola Municipal Bárbara de Souza Morais participou do Projeto, o qual propiciou toda a logística de mobilização dos educandos, como transporte e alimentação.
Dentre os cursos oferecidos destacam-se as Oficinas de Iniciação Circense, Acrobacia de Solo e Aérea, Percussão, Viola Caipira, Teatro e Flauta Doce, visando à formação artística dos alunos. Somado a estas alternativas ocorrem Oficinas Pedagógicas como Leitura e Produção de Textos, bem como de Matemática, que conta com o apoio da Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio da Faculdade de Matemática.

Interdisciplinaridade
Um dos fundamentos da formação oferecida entre a parceria do poder público e o Circo é a junção, de forma interdisciplinar, dos vários conhecimentos produzidos pela humanidade, quebrando a lógica da especialização, que leva a fragmentação não só do saber como também do ser. “É de extrema importância, pois propicia aos educandos uma experiência pedagógica complexa, levando-os a terem uma formação mais ampla e integral”, afirma a educadora Karine Ramaldes Vieira, do Departamento Pedagógico da SME.
O educando, no ambiente circense, é visto como sujeito integral, composto pela sua história de vida, emoção, forma de pensar, corporalidade e conjuntura social. Neste sentido, é primordial que as experiências artísticas e pedagógicas dos alunos sejam fortalecedoras das identidades, assim como facilitadoras da socialização entre os participantes das atividades propostas.
“O fato de ocorrer um avanço na socialização entre os educandos, e, por consequência, na sociedade como um todo, com a criação de um ambiente de convívio solidário, é um ganho que não se pode quantificar”, ressalta a arte-educadora Seluta Rodrigues de Carvalho, coordenadora pedagógica do Laheto.
O Circo Laheto se transformou em ferramenta de inclusão e de transformação de realidades que muitas vezes são caracterizadas pela violência urbana e pelo descaso da sociedade em relação às desigualdades sociais. Assim, a arte circense desempenha uma função formadora do sujeito, que vai além das modalidades artísticas e culturais para alcançar uma função mediadora de conflitos pessoais e sociais.
A ação do projeto já atingiu diretamente cerca de 2.500 crianças e adolescentes e, indiretamente, outras 20 mil, além de professores da rede pública de ensino. E aproximadamente 45 mil pessoas da comunidade da região. Até o final do ano de 2014 mais de 50 jovens que foram educandos neste projeto se tornaram artistas (profissionais e iniciantes) e vivem da arte circense.
Os dados mostram que o projeto, além de atingir os objetivos de educar através da arte e proporcionar o exercício da cidadania e da convivência comunitária, também promove ações integradas e complementares de desenvolvimento cultural, educacional, psicossocial e econômico de crianças e adolescentes, proporcionando assim oportunidades reais de inclusão social.
Outro aspecto fundamental é que o Circo possibilita às crianças/adolescentes a oportunidade de vivenciarem plenamente sua fase fértil de sonho e imaginação, respeitando etapas de desenvolvimento num ambiente marcado pela confiança e alegria.
“É bom participar do Circo porque a gente aprende muita coisa num espaço seguro. Estou aprendendo a ter mais equilíbrio com a prática do monociclo e do diabolô, e outra coisa, hoje, sou mais confiante”, destaca o educando da EM Bárbara de Souza Morais, Leonardo Matos da Silva, 13 anos.


História Circense

Para conclusão das ações formativas no ano de 2014, o Circo Laheto e a SME realizaram no dia 12 de dezembro, o espetáculo “Histórias e Me­mó­rias do Jardim Novo Mundo”. Cerca de 100 educandos da Escola Municipal Bárbara de Souza Morais participaram da apresentação, depois de meses de ensaios.
Composto por vários quadros performáticos que representam o cotidiano dos moradores do setor, o espetáculo buscou, além de fortalecer a identidade da comunidade, contar a história de como foi constituída a ocupação da região. Divididos em pequenos grupos, os educandos fizeram performances específicas de cada parte da obra, sem contudo fragmentar a história.
No picadeiro narrou-se o dra­ma que a população mi­grante passou, no decorrer do processo de ocupação do Jar­dim Novo Mundo. A chegada dos moradores, dificuldade em lidar com estrada de ferro, cultura popular, futebol de várzea, violência e o baile dançante denominado Forró das Velhas, compuseram a estrutura do espetáculo. “Tem algum tempo que moro na região, e o que assisti ilustra bem nossa realidade. Fiquei emocionado em perceber que nossa história pode ser contada por meio da arte e de maneira tão criativa”, afirmou o morador do Novo Mundo, Lorivaldo Barbosa.
As famílias dos alunos artistas compareceram em bom número ao espetáculo, permanecendo no local ao término dele, com objetivo de confraternizar tanto com os arte-educadores quanto com as outras famílias. Este fato deixou evidente a importância que o projeto tem para a comunidade da região do Novo Mundo.
“Os meninos, ao participarem do Circo, foram mudando para melhor. Antes eles tinham algumas dificuldades para relacionar com outras crianças e isso mudou. Outra coisa que chamou atenção minha e do meu marido, é que nossos filhos estão mais criativos e motivados para fazerem as coisas”, afirmou Charlene Figueiredo, mãe de três educandos que fazem parte da escola de circo.


Novidades em 2015

Para o ano de 2015 está programado, após reunião de avaliação e planejamento realizadas ainda no final de 2014, a continuidade do projeto, agora com a proposta de maior aproximação entre o Circo e a Escola Municipal Bárbara de Souza Morais.
As atividades do Circo acompanharão o calendário escolar da Rede Municipal de Educação e dentro das ações previstas para o início do ano letivo, está a reapresentação do espetáculo “Histórias e Memórias do Jardim Novo Mundo”, que ocorrerá na primeira semana de março em ambiente escolar.

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