Geração digital

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Quem nunca entregou um smartphone ou um tablet na mão do filho para distrai-lo que atire a primeira pedra. O acesso a informação e o desenvolvimento tecnológico dinamizaram não só o mundo e o mercado, mas modificaram também as relações e o comportamento social. Por essa razão, não é difícil ver uma criança de 3 ou 4 anos de idade com um aparelho eletrônico na mão.

Ainda mais porque os pequenos parecem já ter nascido sabendo como manipular toda essa tecnologia. Mas, há idade certa para apresentar o videogame para uma criança? Lorena Loren Vieira, 24 anos, mãe de Arthur (5) e Ana Clara (2), não vê o uso como prejudicial. “Isso vai da educação e exemplo de casa, nesse mundo virtual sabemos que existe muita coisa ruim, mas vemos que há muita coisa que pode ser aproveitada”, afirma.
Lorena acredita que desde que tenha hora, não tem problema. “Creio que não seja tão negativo como muitos dizem, acho que tudo tem sua hora. Meus filhos, por exemplo, deixo sempre usarem o tablet, PC, celulares. Eles são conscientes do horário, do tempo que podem permanecer ali mexendo”, expõe. “Também sempre tiro deles como castigo justamente esses aparelhos, pois sei que é a forma mais eficaz e tem dado certo”, observa.
Já para Magda Aires Santos, 49 anos, vendedora, o uso excessivo de aparelhos eletrônicos tem sido um problema em sua casa. “Enquanto pais tentamos controlar o uso de uma forma que não vá deixar a criança com raiva, mas acaba tendo que ser de uma maneira enérgica”, conta. “Hoje em dia, parece que o celular virou a segunda pele deles. Os adolescentes vivem e respiram em função disso. E a influência é grande e negativa”.
A filha Barbarah Aires Santos, 13 anos, conta que quando os pais proíbem o uso da internet ela fica bastante ansiosa. “Eu fico um pouco deprê, principalmente quando eles tiram durante as férias, pois meus amigos são da escola”, explica. A pré-adolescente, no entanto, entende o lado dos pais. “Eu tento regrar, mas é muito tentador quando ouço o barulho do WhatsApp. Acho que me prejudica um pouco, pois acabo ficando na internet e não converso com ninguém”, diz.

Regras definidas
Na casa de Marcelo Fonseca Giani, 47 anos, há regras para o filho Luigi, 8 anos. “Tudo que é excessivo e tem uso desequilibrado provoca bastante transtorno, tanto na pessoa, como no ambiente. Por isso, aqui em casa o Luigi tem horário e nós estamos sempre perto também, acompanhando. Além disso, incentivamos ele a brincar com outras coisas. Ele gosta muito de futebol e jogo de damas”, assegura. Em seu ambiente de trabalho, uma escola que atende desde educação infantil até o ensino médio, Giani observa um grande problema.
“Na escola, percebemos que os pais, por usarem muita tecnologia, deixam também os filhos expostos, permitindo com que as crianças usem os eletrônicos de forma totalmente desajustada”, complementa Giani. Para o especialista em Info­Educacional e Novas Tecno­logias, isso é um problema social. “As pessoas perderam a noção e tratam a tecnologia como se fosse o fim e não o meio. E isso pode causar uma série de problemas, podendo se tornar um vício ou até acarretar doenças”, alerta Giani.
O risco de doenças psicossomáticas é real. Kelley Marques, neuro-psicopedagoga, explica que essa overdose de informação tem ocasionado doenças coletivas dentro da família. “É preciso que a gente tenha esse cuidado de filtrar quais as informações que são importantes para mim e para a minha família. Com o ritmo acelerado da tecnologia, nem sempre as famílias estão disponíveis. E eu preciso ajudá-los a refletir nesse momento o que é importante”, explana.

Malefícios do uso excessivo
Um estudo norte-americano conduzido por Jim Taylor, PhD em Psicologia, demonstrou que a relação criança x tecnologia quando excessiva pode acarretar uma série de prejuízos ao pequeno em seus primeiros anos de vida. Lembra daquelas pessoas que falavam sobre o esfriamento das relações, devido à tecnologia? Bem, é verdade. Uma das constatações do médico é de que a geração atual de crianças está menos altruísta e também estão deixando de desenvolver empatia, ingrediente fundamental para a construção de amizades e confiança.
Autor do livro “Your Children Are Under Attack: How Popular Culture Is Destroying Your Kid’s Values, and How You Can Protect Them” (“Seus filhos estão sob ataque: Como a cultura popular tem destruído os valores de suas crianças e Como você pode protegê-los”, na tradução livre), Taylor alerta que a tecnologia pode estar minando o desenvolvimento das crianças. “É nítido que o surgimento de novas mídias e o maior alcance junto à cultura popular trouxeram prejuízos”, afirmou em entrevista ao The Hunffigton Post.


Bom senso e equilíbrio ajudam a evitar muitos problemas

 

 

No Canadá, a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadense de Pediatria estabeleceram limites para a exposição das crianças a todo tipo de mídia (TV, games, dispositivos móveis. A recomendação é de que crianças de 0 a 2 anos não tenham nenhum tipo de exposição à tecnologia. Para a faixa etária de 3 a 5 anos o limite é de uma hora diária. Entre crianças de 6 anos e jovens de 18, o tempo sobe para duas horas por dia.
Em artigo publicado no site Huffington Post, Cris Rowan, terapeuta ocupacional pediátrica, listou 10 razões que justificariam a proibição de aparelhos móveis para crianças de até 12 anos. “A tecnologia priva a criança do envolvimento com esses fatores. E, em algumas delas, isso tem retardado o desenvolvimento cerebral e físico”, escreveu. É óbvio que pais e professores não estão interessados em seguir as orientações de especialistas pediátricos. O que mais fazer a não ser pressionar por uma proibição?”, questiona.
No Brasil, não há regras para isso. Em sua dissertação de mestrado “O uso do aparelho celular dos estudantes na escola”, Estevon Nagumo investigou o uso do aparelho celular nas escolas, com questionários direcionados a alunos de 13 estados. Nagumo observou que há normas de uso dos aparelhos em todas as escolas, mas acaba sendo o professor quem define as regras na sala de aula.
“Muitos acabam por liberar o uso após o termino de uma atividade para que o aluno se distraia e não atrapalhe os demais”, escreve. Mas, mesmo assim, os estudantes ainda acabam por quebrar as regras. De acordo com o Nagumo, as principais motivações para o uso são o tédio, o tempo livre, a comunicação, as redes sociais, e a transgressão per si. Para a pesquisa, além de questionários, Nagumo usou a plataforma Twitter para interagir com os alunos.

O segredo é o equilíbrio
Para Kelley Marques, neuropsicopedagoga, é preciso compreender que essa geração veio para ficar. “Esse é um processo natural em que as nossas crianças estão a pleno vapor. Eu costumo dizer que nós somos maria fumaça, mas as nossas crianças e adolescentes fazem parte de um QI genético diferenciado, eles são sim trem bala”, afirma. “Eu acredito que o melhor caminho seja o treino de habilidades, que entra dentro de uma construção de talentos que formam hábitos”, explica.
Marques argumenta que uma família cujo foco é a compulsão, seja por alimentos ou bens materiais, acaba condicionando seus filhos a hábitos indesejados. “Eu posso estar insatisfeito e acabar conduzindo meu filho para um videogame ou um computador, coisas que ele vai fazer individualmente”, discorre. “Sendo assim, eu condiciono meu filho à compreensão de que é mais interessante estar no computador, do que comigo invadindo a minha privacidade”.
Kelley Marques acredita que a solução seja o respeito a individualidade de cada um. “Se o meu filho está no computador fazendo pesquisa, é uma situação. Se está no videogame é outra situação. Agora, se ele está produzindo algo, eu preciso valorizar isso e aprender com ele”, expõe. “As famílias precisam acordar para esse caráter empreendedor. Não dá mais para a família conduzir esse processo de maneira simplista. É preciso compreender que eles fazem parte de uma evolução, com um caráter de inovação e empreendedorismo únicos”, conclui.


Dados preocupam

 

Várias pesquisas têm sido conduzidas para compreender mais essa relação do contato com a tecnologia na infância. Um estudo realizado pela Universidade Alberta, no Canadá, mostrou que crianças que têm acesso a 1 (um) gadget (aparelho eletrônico )nos primeiros anos de vida possuem 14,7% vezes mais chances de se tornar obesas no futuro. Este número aumenta para 27,4% se a criança em questão tem acesso aos três principais dispositivos (tablete, notebook e smartphone).
Já a agência de saúde pública britânica mostrou em pesquisa que quando as crianças passam muito tempo na internet elas podem desenvolver problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e agressividade. Também são apontados o torcicolo, causado por horas excessivas digitando no smartphone; inchaço, dor e dormência nos dedos causados por digitação repetitiva; e dores nos ombros e nas costas por utilização excessiva de tablets.

Caso de saúde

Torcicolo de SMS: lesão provocada pelas horas que os usuários passam debruçados sobre seus smartphones, digitando.
Dedão de Blackberry: causada pelo ato de digitar com os polegares, causando uma lesão por esforço repetitivo.
Ombros de iPad: muitas horas inclinado sobre o aparelho levam a dores nas costas e por ser segurado com as duas mãos, os ombros ficam ainda mais curvados do que no uso de celulares.


Hábitos e consequências

 

A AVG Technologies realizou uma série de pesquisas chamada Digital Diaries para conhecer os hábitos de uso da internet entre as crianças, entrevistando 6 mil mães em 10 países, incluindo o Brasil. O estudo revelou que entre crianças de 3 a 5 anos: 66% conseguem operar jogos de computador, mas 50% não sabe voltar para casa. Já entre as crianças de 6 a 9 anos, 89% usam a internet e 16% está no Facebook (a idade mínima, teoricamente, é de 13 anos).
No Brasil, os números sobem um pouquinho, sendo que 97% das crianças entre 6 e 9 anos usam a internet, e 54% fazem parte do Facebook. E as mamães não só apoiam como estimulam o uso. Isso porque 47% delas acreditam que o uso da tecnologia é altamente benéfico para o desenvolvimento dos filhos. Quando questionadas sobre o controle, 64% responderam que usam ferramentas de controle parental, enquanto 33% não tem nenhum controle sobre o que os filhos acessam.
Além dos riscos à saúde, há ainda os perigos de outras demandas, como o cyberbullying, e também de assédio. Para Mariano Sumrell, diretor de marketing da AVG Brasil, os pais devem acompanhar as atividades dos filhos online. “Os pais precisam estar mais atentos aos perigos. O conselho de que não se deve conversar com estranhos na rua deve ser seguido mais ainda na internet. A criança não sabe quem está do outro lado”, sinaliza.

Uso da internet por crianças no Brasil

 

Entre 6 e 9 anos:
62% participam do mundo digital (Ex: Club Penguin, Webkinz etc.)
54% estão no Facebook, mesmo que a idade mínima seja de 13 anos
15% se comunicam por meio de mensagens instantâneas
21% usam e-mail
27% já sofreu cyberbullying

Entre 3 e 5 anos:
76% sabem ligar um computador ou tablet
73% jogam on-line
42% sabem abrir um navegador
42% sabem usar um smartphone
43% conseguem escrever o próprio nome
31% sabem o endereço de casa
15% sabem nadar

Para as mães
64% usam ferramentas de Controle Parental
33% não tem nenhum controle
47% acreditam que uso é benéfico


Bom senso e equilíbrio ajudam a evitar muitos problemas

 

 

No Canadá, a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadense de Pediatria estabeleceram limites para a exposição das crianças a todo tipo de mídia (TV, games, dispositivos móveis. A recomendação é de que crianças de 0 a 2 anos não tenham nenhum tipo de exposição à tecnologia. Para a faixa etária de 3 a 5 anos o limite é de uma hora diária. Entre crianças de 6 anos e jovens de 18, o tempo sobe para duas horas por dia.
Em artigo publicado no site Huffington Post, Cris Rowan, terapeuta ocupacional pediátrica, listou 10 razões que justificariam a proibição de aparelhos móveis para crianças de até 12 anos. “A tecnologia priva a criança do envolvimento com esses fatores. E, em algumas delas, isso tem retardado o desenvolvimento cerebral e físico”, escreveu. É óbvio que pais e professores não estão interessados em seguir as orientações de especialistas pediátricos. O que mais fazer a não ser pressionar por uma proibição?”, questiona.
No Brasil, não há regras para isso. Em sua dissertação de mestrado “O uso do aparelho celular dos estudantes na escola”, Estevon Nagumo investigou o uso do aparelho celular nas escolas, com questionários direcionados a alunos de 13 estados. Nagumo observou que há normas de uso dos aparelhos em todas as escolas, mas acaba sendo o professor quem define as regras na sala de aula.
“Muitos acabam por liberar o uso após o termino de uma atividade para que o aluno se distraia e não atrapalhe os demais”, escreve. Mas, mesmo assim, os estudantes ainda acabam por quebrar as regras. De acordo com o Nagumo, as principais motivações para o uso são o tédio, o tempo livre, a comunicação, as redes sociais, e a transgressão per si. Para a pesquisa, além de questionários, Nagumo usou a plataforma Twitter para interagir com os alunos.

O segredo é o equilíbrio
Para Kelley Marques, neuropsicopedagoga, é preciso compreender que essa geração veio para ficar. “Esse é um processo natural em que as nossas crianças estão a pleno vapor. Eu costumo dizer que nós somos maria fumaça, mas as nossas crianças e adolescentes fazem parte de um QI genético diferenciado, eles são sim trem bala”, afirma. “Eu acredito que o melhor caminho seja o treino de habilidades, que entra dentro de uma construção de talentos que formam hábitos”, explica.
Marques argumenta que uma família cujo foco é a compulsão, seja por alimentos ou bens materiais, acaba condicionando seus filhos a hábitos indesejados. “Eu posso estar insatisfeito e acabar conduzindo meu filho para um videogame ou um computador, coisas que ele vai fazer individualmente”, discorre. “Sendo assim, eu condiciono meu filho à compreensão de que é mais interessante estar no computador, do que comigo invadindo a minha privacidade”.
Kelley Marques acredita que a solução seja o respeito a individualidade de cada um. “Se o meu filho está no computador fazendo pesquisa, é uma situação. Se está no videogame é outra situação. Agora, se ele está produzindo algo, eu preciso valorizar isso e aprender com ele”, expõe. “As famílias precisam acordar para esse caráter empreendedor. Não dá mais para a família conduzir esse processo de maneira simplista. É preciso compreender que eles fazem parte de uma evolução, com um caráter de inovação e empreendedorismo únicos”, conclui.

 

 

 

 

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