“A presidente errou na dose”

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Tribuna do Planalto – Desde a campanha eleitoral já sabíamos que 2015 seria difícil, independentemente de quem ganhasse. Qual o grau da dificuldade?

Edilson Aguiais – Desde 2013 os economistas já vinham alertando sobre essa situação. Não havia uma política de governo que pudesse perpassar um partido político, que não fosse uma política de partido, a fim de beneficiar o desenvolvimento do país. E 2014 foi um ano perdido. Todos sabem que o país só começa a funcionar após o Carnaval. E no ano passado, emendou o Carnaval com a Copa do Mundo e com as Eleições e o Natal, as comemorações de final de ano. Então, o ano de 2014 não foi o culpado pelo preço que vamos pagar em 2015, foi simplesmente um ano perdido. A indústria, desde 2013, já mostrava sinais de arrefecimento. E se a indústria não vai bem, os outros setores também não crescem. Isso porque a indústria tem o que chamamos na Economia de efeito de arraste ou encadeamento, isto é, quando há uma indústria instalada em um local, dinamiza as demais atividades como comércio e serviços.

Diante dessa perspectiva, quais são os principais desafios, então?
O maior é nivelar a inflação. Com a alta inflação, eu não consigo incentivar a indústria e não consigo criar empregos. A única saída é aumentar a tributação, para tentar frear o consumo. Deveria também incentivar as empresas agora. Só que a política do ministro Joaquim Levy não dá mostras que vá para esse lado do estímulo à indústria.

Como o senhor vê o cenário dos juros?
Vão continuar crescendo, mas em um nível menor. Deve parar nos 12%, antes dos 13%.

Nos primeiros meses de mandato, a presidente ofereceu vários incentivos ao setor produtivo, esperando o investimento dos empresários, em contrapartida. O investimento não veio. A que se deve o fracasso dessa política de incentivo?
Essa política era, em outras palavras, uma espécie de “eu te ajudo, e você não demite”. O ambiente é pouco propício para o crescimento da atividade empresarial, pois temos uma carga tributária imensa e uma burocracia terrível. No ranking da competitividade, o Brasil só fica a frente da Argentina, o que mostra o quanto nosso país é travado. Então, o empresário passa a pensar que só é interessante para ele continuar produzindo aqui, pois o preço dos itens aqui é muito maior do que em outros países. Mas, o custo-Brasil, que é o risco, está ficando muito alto. Então, as empresas estão aproveitando os incentivos do Estado, mas continuam reduzindo a produção para se proteger.

Essa não poderia ser considerada uma atitude um pouco egoísta?
O objetivo principal das empresas é o lucro, não dá para esperar o bem-estar do país. Então, num ambiente de incertezas, é óbvio que ela vai tentar se proteger. E, principalmente, pelo Governo ser considerado de esquerda. Quando se pega as contas públicas, verifica-se um aumento dos gastos sociais de uma forma quase que bolivariana. E isso assusta a iniciativa privada, porque enquanto a política de direita seria no sentido de privatização, quando levada ao extremo, a política de esquerda, no mesmo caso, começa a estatizar. Qualquer aproximação do governo com a esquerda, o empresário vai se precaver e tentar proteger os seus lucros. É natural.

É nesse sentido, que surge o rentismo? Que é a busca pelo lucro financeiro, por meio da aplicação de capitais. Existe alguma estratégia econômica que possa neutralizar esse processo?
Não, não existe (risos). Essa pergunta me lembrou a de uma aluna que questionou se quando conhecemos as leis de economias, conseguimos burlá-las. A resposta é a mesma. Esses movimentos precisam ser objeto de estudo e conhecimento para nós, para que possamos saber os danos que vão causar. Mas, não somos capazes de escapar dos efeitos perversos dele. Principalmente, porque muitas pessoas ainda preferem investir nos Estados Unidos, por exemplo, por causa da segurança. Aí, vemos ainda o crescimento do PIB do Brasil, que é de 0,2%, e o dos Estados Unidos, que foi de 5% no ano passado. A economia dos Estados Unidos já é consolidada e gigantesca, um crescimento de 5% no ano representa quase que uma revolução dentro do país.

Pois o maior crescimento é esperado das economias em desenvolvimento, como do Brasil e da China…
Exatamente! Então, o empresário olha para a economia brasileira com alto risco e alta carga tributária, com problema de um governo que está aumentando gasto com benefício social e não está controlando suas contas, e com um resultado de crescimento de 0,2%. O que acontece? O dinheiro que poderia fomentar a atividade econômica vai embora. O que fica aqui é aquele que busca ganho apenas no mercado financeiro. Para resolver esse problema do rentismo, só reformando a estrutura econômica do país, o que seriam estratégias de médio a longo prazo.

Como o senhor vê a escolha do Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, tendo em vista a tentativa de equilíbrio da presidente Dilma, com a nomeação do Nelson Barbosa para o Planejamento?
Na verdade, ela tentou ter duas pessoas as quais pudesse controlar de forma fácil. Pois, se ela colocasse o Henrique Meirelles, como foi cogitado, como ministro da fazenda, ela teria muito mais dificuldades e precisaria respeitar a posição e opinião dele, pois ele já foi presidente do Banco Central e tem uma inserção na economia muito mais forte. Não seria autônomo, mas teria voz. Já a escolha do Levy e do Barbosa reflete a vontade da presidente de continuar gerindo as situações que surgem de maneira rápida. Isso é perigoso, pois nem sempre uma mudança feita embaixo da pressão dos grandes grupos empresarias, que financiam as campanhas, são eficazes para resolver os problemas, podendo causar efeitos ainda piores a médio e longo prazo. Então, na minha visão, ela escolheu ambos como uma forma de manipular essas variáveis de maneira mais efetiva e mais próxima.

O que espera do ajuste fiscal que já começou a ser implantado?
Precisava ser feito. O problema é que esperávamos um governo de direita, com a ascensão do então candidato Aécio Neves, que é menos populista e faria essas medidas de ajuste fiscal que eram necessárias. Mas, a presidente errou na dose. Eu acredito que o erro dessas metas foi atingir grupos que não podem se defender, como aposentados e pensionistas. Agora, a mudança na questão do seguro-desemprego já era algo que vinha sendo cotado há muito tempo, até porque a situação estava insustentável. Esse golpe no seguro-desemprego é a coisa mais recorrente que existe no mundo. O que foi feito tinha que ser feito agora no início do novo mandato. Pois é quando as pessoas têm mais confiança e os problemas sociais são menos latentes, por isso a população tende a aceitar mudanças mais bruscas no início do governo. Se ela não tivesse ganhado a eleição, o outro faria da mesma forma.

De que forma o Governo poderia se alcançar um equilíbrio?
Essa história do equilíbrio fiscal que é buscada pelo Estado é assim: eu tenho receitas e despesas, se tenho despesas altas, preciso de receitas altas, e se reduzo as despesas, posso diminuir a receita. O problema é que a gente vem há um tempo não conseguindo aumentar a receita, pois a carga tributária já é altíssima, e com a melhoria de vida das pessoas, a demanda por novos direitos aumenta. Antigamente, por exemplo, asfalto era considerado um luxo, hoje é uma questão de primeira necessidade, tanto é que loteamentos são liberados apenas com asfalto. Além disso, tem que prover água, energia, rede de esgoto. O contexto social mudou. Fazia-se escolas de placa. Hoje, isso não é nem cogitado mais. E para se construir uma escola de placa é muito mais fácil do que uma de alvenaria, que ainda tem que ter biblioteca, sala de informática, quadra poliesportiva. A demanda das pessoas por bens aumentou, e o Estado tem que prover isso.

Qual seria a alternativa?
O caminho alternativo, então, seria a contenção de despesas, o que inclui os subsídios dados a alguns segmentos que, historicamente, não tem conseguido aumentar a capacidade de ganho das pessoas. Não é interessante incentivar segmentos que criam empregos de salário mínimo e que não promovem qualificação da mão de obra. Só para se ter ideia, se o subsídio que é oferecido ao setor elétrico fosse cortado, a capacidade do programa Minha Casa, Minha Vida seria dobrada. Ou seja, o Governo gasta muito mais com subsídios para esses segmentos.

Por que o Governo não corta esses gastos?
O Governo sempre busca o caminho mais fácil. Em geral, são esses setores que financiam as campanhas e é por isso que se torna mais fácil aumentar tributos indiretos, que são aqueles que as pessoas não veem, pois estão embutidos no preço dos produtos. Com o aumento dos preços, no entanto, surge outro problema que é a inflação. Quando a inflação sobe, tem-se duas saídas: que é mudar a estrutura produtiva ou aumentar a taxa de juros. Mais uma vez, opta-se pela saída mais fácil e com o aumento da taxa de juros, o setor produtivo para de investir. Para solucionar isso, mais duas alternativas: mudar a estrutura tributária ou oferecer subsídio aos setores, que é a opção mais fácil. É quase como fazer reforma picada. O pedreiro estraga a instalação elétrica, o eletricista a pintura, o pintor estraga o piso, e aí vai (risos).

É um problema puxando o outro.
Exatamente.

Diante do que o senhor estava explicando sobre a falta de investimento na indústria, acredita nessa tese de que o Brasil estaria num processo de desindustrialização ou “reprimarização” da economia?
Se eu acredito? Isso salta aos olhos! Graças a Deus, nós voltamos a ser um país do futuro (risos).

Como assim?
Assim como nos 1970, nós éramos o país do futuro, nós voltamos a esse status. Ou seja, nós voltamos a 1970 (risos). Só que em 1970, tinha algumas saídas. As pessoas estavam no ambiente rural, e se podia trazê-las para a cidade e incluí-las socialmente. Hoje, essas pessoas já estão na cidade e os bolsões de pobreza já estão formados. Então, as alternativas hoje são piores do que as anteriores. O grau de privatização da economia está tão grande, que parece que estamos reconstruindo as coisas. Aqui em Goiás, temos o caso do couro. No Estado, a produção de carne bovina é altíssima e, por consequência, tem-se muito couro. Mas, aqui não tem indústria porque é mais barato vender para fora do país, do que manufaturar esse produto aqui dentro, pois volta mais barato do que ficaria se fosse curtido e trabalhado aqui. Nossa estrutura está construída para dar continuidade à “primarização”. Uma coisa absurda é termos uma bancada ruralista no Congresso Federal, porque eles vão querer e apoiar justamente essa “primarização” da economia. Então, basta olhar a balança comercial para ver o que está saindo do país, e são produtos primários. E agora com o problema da China, que não está importando mais o ferro da Vale do Rio Doce, e a empresa está quase quebrando.

A reprimarização é algo alarmante?
Não, não é como nos anos 1930, que foi aquela briga do presidente Getúlio Vargas. Era pior, pois não tinha indústria. Eu fiz um estudo olhando para os estados de Goiás e São Paulo e alguns outros economistas estudaram os demais estados, numa rede de pesquisa sobre estudo industrial. O que descobrimos foi que as indústrias de alta intensidade tecnológica, que são as que pagam maiores salários e que criam inovação, estão saindo de São Paulo, pois existem várias deseconomias de aglomeração; isto é, trânsito, preços de imóveis altos; valores altos de mão de obra. São problemas que não são mais interessantes. Aí, a pergunta que surgiu foi: para onde elas estão indo? Então, estudamos a estrutura de cada estado e descobrimos que elas não estão indo para nenhum deles. Ora, se elas saem de São Paulo e não vão para nenhum outro estado, para onde vão?

Para o exterior.
Isso! E é mais um indício de reprimarização da economia. Outro exemplo, dentre vários. Isso acontece exatamente por não haver uma política de desenvolvimento. Faz-se o que é necessário naquele momento, não importando os efeitos dessas medidas a longo prazo.

 

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