Intolerância na rede

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A internet se consagrou por possibilitar a troca de informações e as mais variadas experiências positivas, a exemplo da viabilização de discussões sobre questões sociais, econômicas, políticas e culturais. Mesmo com os inúmeros aspectos benéficos da web, ela também é usada como um espaço para a propagação dos mais variados tipos de preconceitos. E as atitudes criminosas que ferem a dignidade humana têm preocupado até o Governo Federal, que recentemente criou um grupo que terá a função de  monitorar casos de intolerância e de violação dos direitos humanos nas redes sociais.O programa em questão está sob a  responsabilidade da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR).
De acordo com Erisvaldo Souza, que é historiador e mestre em Sociologia, o problema é grave e precisa ser combatido. O educador lembra que a tolerância existe socialmente, mas até o momento que um indivíduo ou grupo não seja um incômodo para outro indivíduo ou grupo no poder. “Há grupos sociais que se colocam como superiores e acabam cometendo essas agressões virtuais, intolerância e preconceitos”. Nesta entrevista concedida ao Escola, Erisvaldo fala sobre este e outros pontos que envolvem a intolerância na internet e defende a necessidade de mais investimentos em educação e acesso aos bens culturais.

Imagens e comentários preconceituosos na internet estão cada vez mais comuns, principalmente em redes sociais. Como o senhor avalia isso?
Estão mais presentes no cotidiano das redes sociais e na internet em geral, pois estas práticas refletem o comportamento dos indivíduos socialmente. Pode-se afirmar que o preconceito social e racial ocorre no espaço da sociedade, mas que também são manifestados em ações de certos indivíduos no interior das chamadas redes sociais. Estas deveriam ter outra função social, que é a de produzir informações para seu público em geral, até mesmo como forma de entretenimento ou de informações que possam gerar conhecimentos. Assim, percebe-se que as redes sociais da forma que são utilizadas hoje, acabam reproduzindo determinados preconceitos que ocorrem cotidianamente na sociedade em sua totalidade, logo, temos que lutar contra essas práticas, produzindo algo distinto e crítico.

Por que as pessoas usam a internet para disseminar o preconceito e a intolerância?
De fato, podemos perceber essas práticas, tanto de ódio como de preconceitos com classes sociais inferiores ou até mesmo com pensamento distintos das demais que cometem esse tipo de conduta na internet e redes sociais em geral. Não há um motivo único para essas ações, tanto individuais como coletivas, mas estas ocorrem justamente pela falta de informação de alguns sobre determinado assunto ou do próprio grupo social, mas também essas práticas ocorrem porque certos grupos sociais se consideram “superiores”, “melhores” etc.
Recentemente no Brasil é possível perceber uma grande quantidade de informações de ódio, intolerância e preconceitos tanto em termos raciais como sociais na internet e redes sociais em geral, basta observarmos a questão dos nordestinos em São Paulo, que historicamente é um problema social, o surgimento e a defesa de grupos neonazistas em várias regiões do país, como a Sul e Sudeste.

Quais os caminhos para superar esses problemas?
Um fato interessante, é que no Brasil, algumas dessas práticas começam a serem inseridas como crime na legislação brasileira. Nestes casos, pode ser uma forma de diminuir essas práticas nas redes sociais. O Estado brasileiro está criando algumas leis nesse sentido.

Esse seria o melhor caminho?
Na minha perspectiva de análise, o problema é mais amplo e necessita de discussões e debates para que possam ser resolvidos, pois uma simples lei não irá resolver tais problemas. A internet  é um meio tecnológico de comunicação recente no Brasil, isto demonstra que o preconceito social e racial já eram praticados no interior desta mesma sociedade, logo, podemos perceber que essas práticas passam a acontecer nas redes sociais em geral. O problema passa também pela questão do acesso a bens culturais e no seu uso, bem como de formas de conhecimento e educação, que poderiam contribuir com a diminuição destas práticas, pois sabemos que cada vez mais está presente o ódio, a intolerância e o preconceito neste espaço de comunicação.

Pensando no espaço democrático, a internet e as redes sociais estão associadas a esse conceito, portanto, não deveriam ser um lugar de tolerância?
Democrático para os que têm acesso, pois sabemos que muitos indivíduos, grupos sociais não tem contato com a internet. Para estes, o meio de comunicação utilizado é a televisão. Esta tem toda uma organização racionalizada, bem como é um meio de comunicação para especialistas, diferentemente das redes sociais que qualquer indivíduo que tenha acesso, pode inserir informações. Na televisão, mas recentemente, vimos programas que também praticam formas de preconceitos, basta observarmos as “piadinhas” sobre negros, homossexuais, nordestinos etc.
Por outro lado, a internet e as redes sociais, deveriam ser um espaço de sociabilidade, mas virtual, pois a partir deste contato, pode-se desenvolver relações sociais na realidade na qual os indivíduos se inserem coletivamente. Esta deveria ser um espaço democrático e de tolerância, mas não é isso que vimos cotidianamente nas redes sociais. Normalmente são ações preconceituosas, as vezes descontextualizada social e historicamente, onde não é possível confiar em certas informações que são difundidas na grande rede.

Algumas dessas atitudes cometidas na “rede” poderiam ser uma forma de contestação?
Não, pois contestação social, política, religiosa, cultural é muito distinta de preconceitos sociais, bem como de práticas racistas. A contestação se insere de outra forma, é quando um indivíduo ou grupo social contesta a ordem social vigente, ou seja, o Estado capitalista e suas instituições, pois isto tem um objetivo, que é propor algo distinto, novo, já essas práticas de ódio, intolerância, preconceitos etc, tem outro objetivo, que é diminuir e inferiorizar outros indivíduos e grupos.

Que caminhos o senhor pode apontar para superar esses problemas?
Como afirmei anteriormente, somente as leis não irão resolver os problemas de intolerância, ações preconceituosas na internet e redes sociais em geral. Pois algumas leis já estão sendo criadas com este objetivo, tanto é que algumas estão sendo inseridas na legislação brasileira. É necessário ir além da simples formulação de leis, pois antes disso, é preciso discutir com a sociedade civil algumas destas questões. Historicamente o Brasil é conhecido por investir menos em educação, ciência, tecnologia e principalmente na produção cultural, vejo que investimentos nesses campos iriam também contribuir com esta questão, pois as leis têm suas limitações.

A internet é um meio de comunicação cercado de interesses, inclusive dos governos…
Na realidade, a internet e as redes sociais no Brasil e no mundo se ampliou consideravelmente, tornando-se um dos principais veículos de comunicação no mundo, juntamente com a televisão que ainda consegue manter sua audiência. Podemos dizer que a internet e demais veículos de comunicação são fruto das necessidades humanas, pois todos nós temos a necessidade de comunicação. Mas qual tipo de comunicação seria a mais adequada? A internet e as redes sociais possibilitam um tipo de comunicação jamais vista no mundo, mas seu uso é que é problemático, pois grande parte dos indivíduos não consegue usar de forma socialmente aceitável. Na verdade todo governo faz uso dos meios de comunicação e a internet é mais um a ser utilizado de forma racional por parte dos governos. Por outro lado, o governo federal tem interesses em fazer uso e controle ao mesmo tempo da internet e das redes sociais. Alguns grupos sociais utilizam esse meio de comunicação de forma crítica, principalmente para contestar as ações do próprio governo, mostrando as formas de corrupção, fraudes que ocorrem no interior deste mesmo governo que se diz do povo, pelo povo e para o povo, sendo que na verdade estão defendendo os interesses da classe dominante. Assim, o governo federal tem interesses, tanto de criar leis para controlar, e ao mesmo tempo fazer uso desse meio de comunicação para divulgar seus projetos, ideias etc.

A respeito das leis, está em análise na câmara projeto de lei que define que quem comete crimes de ódio, intolerância e preconceito poderá pegar pena de até seis anos de prisão. Essa é a saída?
Sabemos que no Brasil há uma grande quantidade de leis, mas que normalmente estas são válidas para alguns grupos sociais e para outros não, principalmente pela questão econômica e acesso ao sistema judiciário, no qual temos que pagar para poder ter acesso. Então, àqueles que podem pagar terão seus privilégios garantidos, outros grupos subalternos, ficarão prejudicados por não ter condições de pagar um advogado, por exemplo.
Neste sentido, esse projeto de lei pode vir a se tornar uma lei efetivamente. Podemos observar que o Estado brasileiro historicamente não consegue dar conta de combater os “crimes reais” e agora aparece mais uma modalidade que são os “crimes virtuais”. É uma questão complexa e que requer um tempo de estudo, discussão para que esta possa ser colocada em prática ou não.

O que você acha que deveria ser feito para tratar melhor esse assunto e chegar a uma possível solução?
Dificilmente esse problema teria uma solução nos limites desta sociedade, que é pautada pela concorrência, competição e principalmente pelo individualismo. Há grupos sociais que se colocam como superiores e acabam cometendo essas agressões virtuais, intolerância e preconceitos. O Estado vem criando projetos de leis e algumas leis, mas que são limitadas, pois não irão dar conta de resolver o problema. A formação de uma mentalidade distinta é formada a partir de valores distintos, que são formados a partir de uma concepção nova de sociedade, educação, cultura etc. Por fim, é preciso uma discussão ampla do problema e investimentos sociais, educacionais e principalmente, a formação de uma nova consciência social e política.

 

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