Decisão desafiadora

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A conclusão do ensino médio marca o término de um ciclo importante na vida escolar dos jovens, mas também é um momento onde os estudantes se deparam com um grande desafio: escolher uma carreira profissional. Esse período é marcado por muita pressão e ansiedade, pois a escolha da profissão envolve sonhos, gostos e projeto de vida, e por isso o medo de errar é muito grande. E tudo isso é ainda mais potencializado quando o jovem, além de ter que lidar com suas cobranças internas, tem que conviver com a pressão de membros da família, que muitas vezes querem exercer algum tipo de influência negativa sobre a sua decisão.

Apesar de um cenário desafiador em torno da carreira profissional, algumas atitudes podem ajudar na hora da escolha. Pesquisar, investigar e conhecer as possibilidades de formação, por exemplo, pode ajudar a diminuir a dúvida na hora da decisão e a fugir de determinadas “armadilhas”. Momentos assim fizeram parte da vida de Nádilla Alves, 22, desde a conclusão do Ensino Médio. Naquele período, Nádilla se deparou com uma situação bastante comum: escolher o curso que ela gostava ou o que o pai achava que seria melhor para ela cursar.
“Meu pai dizia que eu tinha cara de jornalista, mas eu sempre quis fazer gastronomia, só que na época não tinha o curso em uma universidade pública em Goiânia, e nas instituições particulares era muito caro. Então eu me vi obrigada a ter uma segunda opção”, conta Nádilla. Na época, a segunda opção da estudante era o curso de Design, mas por conta de questões financeiras optou por não fazer a graduação. “Acabei optando pelo curso que meu pai queria que eu fizesse: Jornalismo”, conta.
A escolha feita por Nádilla não foi uma boa saída, no quarto período da graduação em Jornalismo a jovem se sentia totalmente desestimulada e infeliz com a opção. “Eu estava tão infeliz que decidi mudar de curso e fui cursar Relações Públicas, porém eu também não queria aquele curso, e a grade curricular me deu o maior trabalho, até eu resolver parar a graduação”, relata Nádilla.

O papel da família
De acordo com o psicólogo Eriko de Lima, que é presidente da Comissão Especial da Criança e do Adolescente do Conselho Regional de Psicologia de Goiás, pais e familiares têm um peso muito grande na hora da decisão dos filhos e acabam influenciando os jovens no momento da escolha da profissão. Mas é importante ter equilíbrio nessa hora. “Eles (familiares) têm que orientar sempre e promover conversas informais, falar sobre as profissões e respeitar a escolha do jovem, pois muitas vezes acontecem casos em que o filho decide fazer o curso que o pai quer, mas sem ele mesmo querer”, critica Eriko.
Escolhas mal feitas, ou com interferência de alguém, podem acabar desviando o jovem da profissão que ele escolheu seguir, o que toma tempo e gera desgastes. De acordo com o psicólogo Eriko de Lima, a escola pode ajudar durante esse período de dúvidas dos estudantes. “Os professores podem abordar o tema por meio de oficinas, levando uma equipe multidisciplinar, que seja formada por um psicólogo, até a escola para trabalhar essas questões com os alunos. Também levar profissionais de diversas áreas para falar sobre as profissões, tudo isso ajuda”, ensina Eriko.
Uma segunda opção na hora de optar por uma graduação também é sempre bem vinda, avalia Eriko de Lima. Pois, segundo ele, há um momento em que, diante das circunstâncias, é preciso reavaliar e refazer trajetos. “É preciso persistir na profissão que foi escolhida, mas também é interessante ter uma segunda opção. Se identificar com mais de uma profissão”, diz.


Escolha certa

 

Algumas pessoas escolhem a profissão que vão seguir motivadas pelos ganhos, outras pelo ofício em si. No caso de Nádilla Alves, após iniciar duas graduações, escolheu uma área que lhe traria mais prazer e felicidade. A jovem fez um curso de Confeitaria e atualmente trabalha com a produção de bolos. “Faço bolos, sou a pessoa mais feliz e realizada profissionalmente. Não me arrependo de forma alguma em ter passado por outros cursos. Expandi minha visão. Realmente, a gente precisa se encontrar, fazer algo por obrigação não é legal. Eu descobri que a minha escolha estava certa desde o início, pois agora eu vou cursar Gastronomia”, conta Nádilla.
No momento da escolha de uma graduação as dúvidas são ainda maiores diante da grande variedade de cursos que são ofertados, em distintas áreas do saber. Uma forma de diminuir a pressão nesse momento, segundo especialistas, é ter em mente que uma escolha profissional não precisa ser definitiva, para a vida toda. São muitos os exemplos bem sucedidos de pessoas que mudaram de área de atuação e se deram bem, o que pode servir de inspiração para quem anda insatisfeito com as escolhas profissionais.
Como a profissão é um dos componentes de um projeto de vida, é preciso também ter em mente que o mercado muda, as pessoas mudam. Nesse sentido, é necessário estar preparado para reavaliar situações e fazer ajustes, como explica o psicólogo Eriko de Lima: “É preciso ter persistência na­quilo que se deseja buscar, pois no caminho muitas vezes os jovens vão enfrentar u­ma profissão pouco valorizada perante a so­ciedade, mercado de trabalho ruim e bai­xo retorno financeiro, porém é preciso ter autoconfiança para assumir que é preciso mudar e encarar essas situações”, pondera.
Reavaliar escolhas, traçar novas metas e ter coragem para seguir outros caminhos foi exatamente o que fez Nádilla Alves. Após iniciar duas graduações ela foi em busca do que realmente queria fazer, e por isso acredita que a faculdade deve ser encarada como a escolha de uma plataforma, um alicerce para a construção da vida profissional, e não necessariamente algo definitivo. “A­quela história do ‘é para o resto da vida’, é al­go muito pesado. Eu aprendi coisas in­crí­veis até começar a fazer o que gosto. A mu­dança valeu muito a pena, foi uma lição e não foi uma experiência desperdiçada”, diz.
A tomada de decisão de Nádilla deixou muitos amigos e familiares surpresos, mas isso é algo que já está superado. “É claro que foi um baque para todo mundo, mas eu estou realizada e feliz. Eu tenho um projeto na vida, e eu tenho coragem de fazer as coisas que quero.  É uma sensação de liberdade com um gostinho de responsabilidade”, conta a jovem.


Condições favoráveis

 

A cada dia surgem novas profissões e com elas a dúvida: seguir a carreira dos pais ou optar por uma profissão com base em afinidades? Esse é um dilema presente no dia a dia de muitos jovens. Para a psicóloga educacional Alba Cristhiane Santana da Mata, a decisão da profissão vai além do gostar. Alba acredita que a escolha profissional se caracteriza de forma diferenciada para jovens que possuem apoio social e financeiro da família para fazer um curso superior, e para jovens que não possuem esse apoio. “Falar em escolha profissional, sonhos, realização pessoal, implica em falar das condições de vida do jovem. Seus sonhos e suas metas dependem das condições em que vivem e das necessidades que essas condições geram”, explica.  
Ao escolher uma profissão e planejar o futuro, o jovem mobiliza imagens e histórias que adquiriu durante sua vida. Ao pensar em uma profissão específica, ele expressa o conhecimento que tem daquela profissão, adquirido por meio de outras pessoas, baseado em algum modelo visto em algum lugar. Alba conta que, “quanto melhor o jovem compreende essas influências, bem como identifica as suas próprias condições de vida, mais preparado ele estará para fazer escolhas para futuro”.
Criar condições para que o jovem compreenda todos os fatores envolvidos em sua escolha profissional é o ideal. “O jovem precisa identificar as influências que teve ao longo da vida, compreender as condições sociais e financeiras que possui, conhecer as diferentes profissões e as características gerais do mercado de trabalho e ainda compreender a si mesmo”, afirma a psicóloga Alba da Mata, doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano.

 

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