Carro ou ônibus?

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Na resolução dos problemas de tráfego comum às grandes metrópoles os meios de transporte coletivo são uma das grandes apostas. Em Goiânia, com o aumento crescente da frota de veículos e também populacional, é natural que intervenções neste sentido comecem. Desta forma, a implantação de corredores preferenciais ou exclusivos surge como uma das melhores alternativas, já que possibilita o aumento da velocidade dos veículos, a redução das emissões de poluentes, a maior eficiência e menor ociosidade do sistema de transporte.

De acordo com Benjamim Jorge, professor do curso de Engenharia da PUC-GO (Po­n­tifícia Universidade Católica de Goiás), a priorização do transporte coletivo é a tendência nas principais metrópoles. “Uma das maneiras de resolver o problema da mobilidade é exatamente construir corredores preferenciais e exclusivos, que são mais eficazes. É claro que, para as pessoas migrarem do transporte individual para o coletivo, tem-se que melhorar a qualidade do transporte”, assegura.
O professor da Escola de Engenharia Civil da Universidade Federal de Goiás (UFG) e especialista em trânsito, Cristiano Farias Almeida, destaca que o transporte coletivo necessita receber uma atenção que faça com que o usuário sinta vontade de usar. “O usuário não quer gastar tempo no ônibus. Quer eficiência, cordialidade, pontualidade. Uma das formas de se obter isso é a implantação de sistemas de transporte eficiente, tais como existe em São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. As pessoas têm que ter a mesma preferência e qualidade, seja pobre ou rico. Precisamos aceitar isso, para que a gente tenha uma cidade mais justa”, infere.
Dois corredores preferenciais já funcionam na capital goianiense, nas Avenidas Universitária e T-63. Além disso, as obras para implantação de um terceiro na Avenida 85 já começaram. Há ainda outros quatro que já possuem o projeto básico de tráfego, sendo estes nas Avenidas T-7, T-9, 24 de Outubro e Independência. Segundo a CMTC, com esses corredores, Goiânia terá 40,5 km destinados à circulação dos ônibus, promovendo a integração de 60 linhas e beneficiando mais de 500 mil usuários do transporte coletivo por dia.
De acordo com o projeto, o corredor da Av. 85 vai interligar 66 linhas do transporte coletivo, atendendo diariamente mais de 600 mil usuários. As obras receberão investimentos do Pro­grama de Aceleração do Cres­cimento (PAC) – Pacto pela Mobilidade, do Governo Fe­deral e do Tesouro Mu­nicipal, chegando a mais de R$ 145 milhões. As obras estão sendo realizadas por meio da Semob (Se­­cretaria Municipal de O­bras), da SMT (Secretaria Mu­nicipal de Trânsito, Tran­s­portes e Mobi­lidade), e da CMTC (Com­panhia Metro­politana de Transportes Coletivo).

Melhorias a longo prazo
O engenheiro Cristiano Farias acredita que esse tipo de intervenção seja uma solução a longo prazo para o tráfego em Goiânia. “Desde que esse sistema funcione com a eficiência necessária, acredito que seja eficaz. Para isso, então, tem que ter a velocidade rápida, sincronização semafórica nos cruzamentos para agilizar o processo, ônibus rebaixado para que os usuários estejam no mesmo nível dos pontos e terminais, os automóveis precisam ser limpos e novos, e deve haver pontualidade nos pontos de parada”, pontua.
De acordo com a Pre­feitura de Goiânia, a iniciativa tem como objetivo priorizar o transporte público para garantir a mobilidade urbana na cidade. Neste sentido, a CMTC informou que o tempo de viagem dos ônibus será reduzido para menos de seis minutos pela parte da manhã. A média cai em 13 minutos, no fim da tarde. Boas notícias para o usuário do transporte coletivo. Mas, nem tanto para quem prefere o conforto do automóvel individual.
Lívea Junqueira Vilarinho, psicóloga, 25 anos, é uma de­las. Para ela, a intervenção na Ave­nida 85 só trará transtornos. “Eu diria que a construção desse corredor vai transformar o trânsito da região em um caos, como é o caso da Avenida Anhanguera. Tem pouquíssimo espaço para a gente transitar e um alto índice de acidentes. Acre­dito que não vai ajudar e também não vai estimular as pessoas a usarem o transporte coletivo a longo prazo, da mes­ma forma que o Eixo-Anhan­guera não o fez”, assegura.
Para Sandoval Neto, vendedor, 40 anos, a valorização do transporte individual, em detrimento do coletivo, acaba piorando a situação. “Acho que a despeito dos hábitos atuais do goianiense, o uso diário do carro particular para o trabalho está fadado a acabar mais cedo ou mais tarde. Mas, esse objetivo só será alcançado a duras penas. A classe média ainda é muito relutante a essas mudanças. Já as classes D e E não têm muita escolha, é o ônibus mesmo”, afirma.
Obras necessárias
Na opinião de Rogério Peixoto da Silva, engenheiro eletricista, 44 anos, as obras são sim necessárias, mas deve-se dar atenção à questão ambiental. “Acho importante que mudanças aconteçam em benefício da população sem prejuízo ao meio ambiente. A retirada das palmeiras descaracterizará por completo a avenida, além de ser ilegal segundo as Leis de Proteção Ambiental. Pode ser que a Lei de Mobilidade Urbana de 2012 dê respaldo a esse tipo de intervenção. Não sei”, pondera.
A retirada das palmeiras do canteiro central da Avenida 85 foi mesmo motivo de controvérsias. Em relatório elaborado em dezembro de 2014, a AMMA (Agência Municipal do Meio Ambiente) autorizou a retirada, alegando que a remoção faz-se necessária, pois as árvores interferem diretamente nas obras. “O espaço restante no canteiro central não é suficiente para o plantio de exemplares arbóreos e a compensação ambiental será feita nas calçadas”, alega no documento.


Aumento do tráfego preocupa condutores

Muitos condutores questionaram a mudança, devido ao aumento do tráfego na região que, com a destinação de uma faixa ao transporte coletivo, implicaria no aumento da densidade de veículos nas demais faixas. O processo seria ainda mais agravado nas áreas dos viadutos João Alves de Queiroz, no cruzamento com a Avenida T-63, e Latif Sebba, no encontro com a Avenida D e a Rua 87, por haver apenas duas faixas em cada sentido na pista.
Em nota, a SMT esclareceu que o projeto elaborado pela CMTC tem o objetivo de proporcionar maior fluidez ao fluxo do transporte coletivo, que normalmente é o mais prejudicado dentro do ambiente urbano. “Trata-se, portanto, de um projeto que privilegia o transporte coletivo e não o individual. A SMT acredita também que após os motoristas se habituarem aos novos trajetos, não haverá agravamento de congestionamento”, afirma a nota.
De acordo com a assessoria de imprensa da secretaria, a SMT eliminou o terceiro tempo do semáforo da 85 com a Mutirão, o que irá contribuir para a fluidez dos ônibus nesse trecho. “Outra importante medida que será adotada em breve é a eliminação do terceiro tempo em outros cruzamentos, da T-13 com a S-1, da S-1 com a Laudelino Gomes e da T-4 com a Avenida Rui Barbosa”, informa.


Escolha do meio

Ir de carro ou ônibus? Parece uma questão fácil de responder, principalmente devido à ineficiência do transporte coletivo. Mas, em tempos de congestionamento e corredor preferencial, a segunda opção começa a se tornar uma possibilidade maior. Para o professor do curso de Engenharia da PUC-GO, Benjamim Jorge, a dificuldade do goianienses em deixar o carro em casa e optar pelo transporte coletivo, deve-se muito à cultura. “Vejo que temos a cultura de valorizamos muito o automóvel. É uma febre. Daqui a pouco, vamos ter que mudar pro mato e deixar os automóveis na cidade”, analisa.
Para o professor universitário, isso se deve à falta de planejamento nessa área. “Em Goiânia não temos esse planejamento. Então, quando começa a haver movimentos que priorizem a mobilidade, as pessoas reclamam, pois estão habituadas ao transporte individual. Nos países desenvolvidos a prioridade é o transporte coletivo. Você vai na Europa e vê executivos andando de paletó e bicicleta”, argumenta Benjamim.
Cristiano Farias acredita que é uma questão de tempo. “Se eu estou no meu carro às 18h, a minha faixa está parada e quando olho para o lado o ônibus está passando, isso vai me fazer refletir e me estimular a fazer a troca”, explica. “Esse processo pelo qual estamos passando, já foi vivenciado por vários outros, como Japão, França, Inglaterra, Holanda, Espanha e Alemanha. Lá, eles verificaram que para se ter uma cidade mais harmônica é preciso investir no transporte público”, relata Cristiano.
Rogério Peixoto da Silva, engenheiro eletricista, afirma que deixaria, sim, o carro em casa, se tivesse acesso a um transporte coletivo de qualidade. De acordo com ele, para que o objetivo seja alcançado muita coisa tem que ser mudada, principalmente a cabeça e comportamento do usuário, a fim de se conquistar mais adeptos a esse meio de transporte. “Eu deixaria o carro em casa para andar de ônibus ou bicicleta se tivesse condições para isso, ou seja, pontualidade, disponibilidade, segurança e proximidades à minha residência e trabalho, com trajeto eficiente”, garante.
O vendedor Sandoval Neto já faz isso. O carro fica em casa, enquanto o percurso para o trabalho é feito por meio do transporte coletivo, por essa razão, ele se diz beneficiado pelas obras, pois acredita que o tempo de percurso e também de espera vai diminuir. “Eu já deixo de usar o carro para ir ao trabalho de ônibus e só não uso bicicleta por conta da grande distância de onde moro para o trabalho. Me sinto muito beneficiado e acho que essas obras deveriam ter sido feitas há muito mais tempo”.
O engenheiro Benjamim Jorge acredita que o uso do transporte coletivo deveria ser mais incentivado, mas para isso deveria haver também a contrapartida da qualidade e eficiência. “As pessoas que vão trabalhar às 8h da manhã e voltam somente à 18h poderiam usar o sistema de transporte coletivo. Não usam porque é de péssima qualidade. A velocidade média em todo o percurso aceitável para um ônibus é de 20km/h, mas na Avenida 24 de Outubro a velocidade chega a 8km/h”, observa Benjamim.
Para o engenheiro Cristiano Farias, especialista em trânsito, a questão social pesa muito na hora da escolha. “Porque o cidadão de classe alta não utiliza o transporte pública e quando vai para Nova York, ou outra metrópole internacional, utiliza? Há um pensamento equivocado no Brasil em achar que o transporte público é para classe de renda baixa. É preciso entender que a solução para os deslocamentos sustentáveis e eficientes é o transporte coletivo. Não existe uma solução em que o transporte individual seja eficaz na resposta à mobilidade urbana”, conclui.


Estudo técnico

 

Um levantamento apresentado no XXVIII Con­gresso Nacional de Pes­quisa e Ensino em Tran­s­porte da Anpet (Asso­ciação Nacional de Pes­qui­sa e Ensino em Trans­portes) demonstra que os corredores preferenciais instalados nas Avenidas T-63 e Universitária têm sido eficazes. A pesquisa intitulada “Percepção dos usuários com relação aos corredores preferenciais de transporte coletivo urbano: Um estudo para a cidade de Goiânia” foi realizada em 2014 pela Escola de Engenharia Civil da UFG e entrevistou 293 pessoas.
Os dados apurados demonstram que 85,2% dos entrevistados na Avenida T-63 e 87% dos entrevistados na Avenida Universitária acreditam que o sistema de corredores traz benefícios para a população e que seria importante sua implantação em outras vias. Em contrapartida, em média, 60% dos entrevistados em ambos os pontos de estudo acreditam que não houve melhoria com relação à pontualidade dos ônibus após a segregação do tráfego, apesar de os usuários do transporte coletivo constatarem o aumento da velocidade nos trajetos.

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