Literatura infantil

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Professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), o linguista Alexandre Costa lançou recentemente o livro “Um Pônei Chamado Cavalo”. Fruto da convivência entre o autor e seu filho, a obra tem como ponto central uma circunstância aparentemente comum, mas que de uma maneira lúdica reflete a construção de sentidos do universo infantil, sempre repleto de imaginação e carregado de significados e valores. “A criança é um dispositivo de produção de sentido para o mundo. Elas nascem preparadas para dar sentido ao mundo”, destaca o linguista. Publicado pela Cânone Editorial, Um Pônei Chamado Cavalo é mais uma boa opção de leitura para pais e filhos. Sobre a obra, o processo de produção, e também a respeito da importância e o significado da literatura para crianças, Alexandre Costa falou nesta entrevista ao Escola.

Como o livro Um Pônei Chamado Cavalo é estruturado?
São dois eixos centrais. Um eixo é uma espécie de representação da construção de uma relação de pai para filho. Outro eixo é o cacoete profissional meu de linguista, que é justamente a constituição da linguagem como mediação dessas relações, a linguagem que o filho constrói com a relação com o pai. Então, se você olhar para o título “Um Pônei Chamado Cavalo”, no universo adulto não faz muito sentido. Mas, o que é isso? Cavalo é um hiperônimo de pônei, um nome que abrange o pônei. E eu expliquei isso a ele (filho), pois ele viu o pônei e disse que achou o cavalo muito pequeno, daí escolheu o nome cavalo para dar ao pônei.

E como foi o processo de escrita da obra?
Horrível! (risos). Pensa numa pessoa que teve contato com a literatura infantil e viu como isso é bacana. Quando eu me dispus a escrever essa história, os personagens ganham vida própria e você tem que lidar com eles e ver que rumo tomam. Eu achava que isso era um charme que os escritores contavam, mas é verdade.

Quando você teve contato com o universo da literatura infantil?
Tomei contato com as histórias infantis quando a então secretária estadual de Educação, Raquel Teixeira, convidou professores da Faculdade (de Letras) para trabalhar com o Projeto Cantinho da Leitura (de incentivo à leitura). Na época, coube a mim trabalhar com leitura e interdisciplinaridade. Para que nós fizéssemos isso, tivemos que ler centenas de livros de história infantil e discutir as relações de intertextualidade, contextualização, leitura, percepção. E aquilo entrou na minha cabeça, e então eu via um fato e pensava: isso pode virar uma história infantil. Mas isso sempre com a cabeça de professor. Pensar numa história para trabalhar alguma coisa, digamos que seria uma metaliteratura, a leitura com um pretexto.

E quando começou a escrever histórias infantis?
Eu não me considero um escritor de histórias infantis, mas quando meu filho nasceu, essa coisa do conhecimento do universo infantil literário começou a aparecer na minha vida. Eu inventava brincadeiras com ele. Ele gostava muito de brincar de cavalo, eu rezava a oração de São Jorge para ele… Tudo tem uma relação. Até que um dia eu fui levá-lo para ver cavalos. E ele achou os cavalos muito pequenos, mas andou neles e quando chegou em casa começou a andar em uma almofada, e eu tinha que andar na almofada também. Como eu sou linguista, trabalho com aquisição da linguagem, eu perguntei para ele: Isso é um cavalo ou um pônei? E ele respondeu: “Um pônei”. Eu  perguntei: Qual o nome desse pônei? Ele disse: “Cavalo”. E o meu, perguntei para ele? “O seu é um pônei”. Qual o nome do meu pônei? “Cavalo Pai”. Como a gente tem o mesmo nome, ele sempre teve isso de ‘do pai e o do filho’.Depois disso, comecei a escrever, não resisti.

Como surge a sua inspiração para escrever?
Eu escrevo a partir de histórias que fico sabendo. Sempre conversando com alguém, as pessoas vão contando uma história e eu vou escrevendo. Eu sou professor na UFG, e na copiadora localizada no prédio onde dou aulas, um dia fiquei sabendo da história dos macacos que atacam os calouros. A partir daí eu escrevi ‘A história dos macacos!…Uma amiga me contou como a sua avó a comunicou que iria casar, então eu escrevi ‘Vovó vai se casar’. Eu digo que sou um ‘ladrão’, você me conta um fato e eu o transformo em história. Estou escrevendo agora ‘Ainda bem que já está no ano novo’.

Qual o público do seu livro?
Quando eu escrevi o livro, pensei que seria para um público de cinco anos, que está aprendendo a ler. Mas, parece que não. O público chave é de 12 anos.  Descobri  isso com o lançamento do livro, que teve muita repercussão. Comecei a ter retorno dos pais e das mães de crianças de 10 a 12 anos, mas há também da faixa etária de 4 anos.

Tem alguma forma especial de escrever, começar a produção dos seus textos?
Eu tenho que sentar no meu escritório e relaxar, desligar, tomar um chimarrão, um chá. E preciso tirar aquela ideia da minha cabeça, aí eu escrevo, escrevo, escrevo e mando para uma amiga avaliar… Eu começo a escrever e escrevo tudo de uma vez só.

Falamos um pouco da produção textual, agora fale um pouco sobre a importância da leitura no processo de formação da criança?
A leitura do livro infantil é muito importante. Porque a leitura começa antes da aprendizagem da escrita, quanto a criança começa a escutar a história, ainda não sabe ler, mas escuta a leitura e fica muita ligada em figuras. A criança é um dispositivo de produção de sentido para o mundo. Eles nascem preparados para dar sentido ao mundo, mas os meios culturais vão envolvendo esses mecanismos de forma diferente. Então, se você começa a relacionar a leitura em diversos espaços, em casa, na escola, leitura coletiva, você começa a oferecer meios diferentes da criança reconhecer a si mesmo. A criança sozinha vai conseguir se relacionar com a leitura. Um autor muito importante, Wanderley Geraldi costuma dizer que a leitura é importante para a criança sempre quando ela começa mudar qualitativamente a vida da criança, quando não é uma coisa mecânica, que está relacionado ao que Paulo Freire fala de leitura de mundo. Mas é difícil de praticar. Tem que ter um grupo de alunos, tem que diagnosticar a leitura para ver a reação. Nesse processo todo a aquisição da escrita vai se tornando algo muito simples. Quando a leitura tem sentido para a criança, quando o professor consegue trazer isso para a sala de aula e consegue trabalhar naquele ambiente, a escrita passa a se tornar necessária para a criança. A leitura e a escrita têm que se tornar um objeto de interesse cognitivo e instrumento para a criança aprender a ler e a escrever. A criança tem que ter motivos para aprender a ler e escrever.

Como a escola pode ajudar a despertar esses motivos nas crianças, para  desenvolver a leitura e a escrita?
Primeiro lugar: a escola tem que entender que as atividades de escrita e leitura precede o ensino do código. Teatro, música, canto, brincadeira, tudo isso precede do ensino mecânico das letras e dos sons. Muitas escolas ensinam na primeira série substantivo, adjunto adnominal e advérbio, coisas que nem os adultos sabem direito. Isso é uma reflexão muito complexa. Então, as atividades linguísticas têm que ser a maior parte do trabalho; ler, escrever, ouvir e falar. As crianças leem pouco na sala de aula, falam pouco, escutam pouco. Aprender a ouvir o colega é importante. Depois disso, é um processo de reflexão sobre a leitura e sobre a escrita, pois uma letra representa mais de um som, como é o caso do ‘S’. A professora pode criar, por exemplo, uma reescrita do livro infantil depois de uma leitura. Vai se criar uma discussão e as crianças vão construir aquilo como um objeto de reflexão. A escola tem que ler muito, usar muito texto, relacionar a leitura com universo das crianças. Só vale trabalhar a leitura, se você vai utilizar a leitura. A gramática só entra quando as crianças já têm necessidade e capacidade de concentrar nesse contexto.


Quem é e o que faz?

Alexandre Costa é graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), possui mestrado em Linguística pela Universidade de Brasília (UNB) e doutorado em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). É professor da Universidade Federal de Goiás desde 1998 e atua na formação de professores. Atualmente, suas pesquisas e orientações concentram-se em dois temas: A nova ordem de discurso da educação nacional e as práticas religiosas brasileiras da modernidade tardia.

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