Teatro para a vida

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Em cima de um palco montado no ambiente escolar, ainda que sem grandes produções, os pequenos artistas exploram um mundo de possibilidades. Eles revivem personalidades importantes em histórias reais ou contos. Choram, sorriem, se doam em cena e causam no público um sentimento único. O estudante André Luiz, 10 anos, se lembra com orgulho de quando viveu Chaves, o personagem do seriado que ele mais gostava. “Já participei de cerca de 10 peças teatrais, mas essa foi a que eu mais gostei, foi a mais legal”.

Seus pais, Tânia Cardoso e Aires Masson, lembram da dedicação de André Luiz para participar de uma apresentação que aconteceria na escola em menos de 24 horas. “Ele estava trabalhando em uma ideia que eu sugeri, mas não deu certo e ele ficaria de fora da apresentação porque a professora exigia que tivesse ensaiado. Expliquei a ele os riscos de apresentar no dia seguinte porque podia não dar certo e ele ser vaiado, mas ele aceitou o desafio”, lembra Tânia.
André resolveu que não ficaria de fora do espetáculo, mas para isso ele precisava enfrentar outras barreiras: Criar a peça, encontrar uma fantasia e ensaiar. Na tentativa de auxiliar para que ele fizesse bonito em cena, seus pais ficaram até meia-noite ajudando no ensaio. “Ele que pensou todo processo. Isso aponta que ele leu, elaborou, montou um plano e ensaiou. Tudo foi organizado com minha ajuda e da mãe”, contou Aires. No dia seguinte, ele se caracterizou de Gingante Léo e deu show para os colegas, sendo escolhido para ocupar o 2º lugar no quadro de preferência dos alunos.
Teatro faz bem!
A denominação de “teatro” vem do grego “ver, exergar”, um modo de ver o mundo, se ver no mundo, se perceber e perceber o outro e sua relação com as pessoas. Especialistas apontam que o teatro tem a função de mostrar o comportamento social e moral, por meio do aprendizado de valores e no bom relacionamento com as pessoas.
Desde os tempos de Platão, o teatro é usado com a intenção de educar. Historicamente, as atividades de expressão dramática eram estudadas e centradas em valores didáticos, ou seja, o teatro era tido como formador da personalidade humana. A arte sempre foi um instrumento educacional importante porque a medida que difundia o conhecimento, também representava para o povo o universo literário disponível na época de Platão e Aristóteles.
Seja no aspecto pedagógico ou artístico, o teatro auxilia a criança no crescimento cultural e na formação enquanto indivíduo. A escola é um espaço de conhecimento e aprendizagem, por isso que as artes passam a ser fundamentais no perceptivo da criança. Além disso, o fato de instruir se divertindo, proporciona uma sensação de alegria e algo essencialmente agradável. Outra grande vantagem é a possibilidade de colocar o aluno no lugar do outro e experimentar algumas novidade do mundo estando em segurança.
Para a psicopedagoga Marina Alves, inserir o teatro no universo escolar colabora com o desenvolvimento artístico e com a desenvoltura pessoal. “Qualquer professor pode aplicar técnicas teatrais durante o conteúdo interdisciplinar. O único requisito é fazer um planejamento antes para utilizar a tática com os alunos”, explica.


Um pouco de história

 

O teatro sempre esteve presente na história da humanidade como forma do homem expressar sentimentos, contar histórias e louvar seus deuses. Registros apontam que essa forma de arte surgiu no século IV A.C na Grécia Antiga quando peças eram encenadas por homens (mulheres eram proibidas de atuar por não serem consideradas cidadãs), em consagração a Dionísio, deus da alegria, do vinho, entusiasmo e  fertilidade.
As peças teatrais trágicas representavam temas ligados à justiça, leis e destino e, normalmente, elas encerravam com a morte do herói. Já o teatro cômico representava de forma engraçada o dia a dia da sociedade em forma de sátiras.
Os romanos importaram o teatro da cultura grega, contudo possuíam estilo próprio, com espetáculos circenses violentos baseados em competições entre romanos e cristãos, que eram sacrificados em público. O caráter presente nas apresentações era diversão e prazer, a comédia tomou o lugar da tragédia.
Já no século XX o teatro evoluiu a partir do realismo e naturalismo, se transformando em um instrumento de discussão e crítica da sociedade, mesmo com a falta de preocupação com figurinos e cenários para a encenação.
No Brasil o teatro foi trazido pelos padres Jesuítas que utilizaram a literatura e as artes cênicas como instrumentos pedagógicos para a educação religiosa. Os métodos teatrais, somado à cultura indígena, eram interessantes no processo de civilização, principalmente para a catequização, visto ao fascínio dos índios pelas imagens representativas, pois eram mais eficazes que a simples leitura de passagens bíblicas.
Atemporal
O teatro teve muitas influências, talvez por isso seja uma arte tão rica. Quando o cinema surgiu, há mais de um século, especulavam o fim do teatro, mas isso não aconteceu, pelo contrário, esse é um tipo de arte que continua atraindo público de todas as idades e trazendo benefícios tanto para quem atua quanto para quem assiste a espetáculo.


Professoras artistas

 

Com perucas coloridas, maquiagem e roupas despojadas, as professoras Valquíria Duarte e Ivone Maria atraem os olhares dos alunos da rede municipal de ensino ao se transformarem nos personagens Omelete e Chiquelete, uma dupla de contação de história para crianças. Elas compõem o projeto “Contadores de História”, que faz parte do programa Arte em Movimento, promovido há um ano pela Secretaria Municipal de Educação de Goiânia (SME) com intuito de incentivar a vivência da arte entre os estudantes.
Durante as apresentações, os alunos se envolvem nas histórias, participam e ficam atentos a mensagem passada. “Esse projeto contribui no incentivo à leitura e também na formação do ser humano, colaborando para despertar diferentes emoções e aguçar o senso critico e criativo”, explicou a educadora Valquíria Duarte.
A dupla de professoras sempre é convidada a fazer apresentações em eventos educacionais, principalmente voltado para crianças. Além de dar vida às personagens, Valquíria e Ivone são formadas em Artes Cênicas e trabalham no apoio técnico do departamento de Divisão de Estudos e Projetos (Diep) da SME.


Em busca de um sonho

 

Com Caderno e lápis na mão, ex-estudantes do Colégio Estadual Liceu de Goiânia têm escrito espetáculos na história do teatro. Quando o sonho do grupo se tornou realidade, há 18 anos, ganhou o nome de Ritual Produções Artísticas, mas com o tempo se transformou em Grupo Sonhus Teatro Ritual, formado por componentes que “têm a arte como ofício e buscam relação sincera com o público”, conforme descrevem.
“Pensamos em criar um grupo de teatro para levar a diversão como algo verdadeiramente sério em nossas vidas, pois sem arte não poderíamos mais viver, para nós ela é vital. Fazê-la é o que mais nos preenche a alma. Por isso ela nos diverte tanto e não se pode viver sem diversão. Isso é muito sério” poetiza Nando Rocha, um dos idealizadores do grupo.
No passado, os ensaios do grupo aconteciam em lugares emprestados:  salão de festas de prédios, também em parques, salões paroquiais de igrejas e no auditório do Liceu. Local onde o grupo fez a primeira apresentação, em 1996. Naquela época, apresentaram o teatro-dança “Conta-Me-Na-Ação”, que narrava a trajetória do vírus HIV no interior do corpo humano. Sem recursos materiais ou financeiros, os garotos buscavam o improviso e o apoio dos professores e familiares para levar o grupo adiante.
Encabeçados por Nando Rocha, Pablo Angelino, Jô de Oliveira, Ilka Portela, além de uma equipe de apoio, e grupo se profissionalizou e agora desenvolve um projeto pioneiro de residência artística em Goiânia, que é voltado para alunos e comunidade em geral. Além disso, eles também fundaram o Espaço Sonhus, um ambiente cultural com teatro para 150 pessoas, cinema alternativo, uma tenda de circo e estúdio musical. Tudo isso organizado pelos estudantes que antes eram meninos e meninas em busca de um sonho e hoje são homens e mulheres que fazem da arte um instrumento para aproximar escola e comunidade.


Benefícios do teatro

 

 

Colabora com o desenvolvimento e formação da criança

Melhora a dicção

Contribui com o desenvolvimento da atenção e concentração

É um estímulo a memória

Combate a timidez e estimula a desinibição

Melhora a autoestima

Favorece o autoconhecimento

Contribui com o autocontrole

Ensina a criança a trabalhar em grupo e a se relacionar socialmente

Melhora a coordenação motora e desperta a consciência corporal

Motiva o exercício do pensamento

Incentiva o interesse pela literatura

 

 

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