“A comunicação é uma questão de sobrevivência”

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Tribuna do Planalto – De onde surgiu a ideia de ensinar as pessoas a se comunicarem bem?
Tathiane Deândhela – Eu comecei a estudar comunicação, justamente porque eu era extremamente tímida. Eu comecei pra mim, de que forma eu poderia me desenvolver, de que forma eu poderia ser mais autoconfiante e segura. Então, depois que eu comecei a fazer isso para mim, eu passei a ter tanta técnica e a gostar tanto do assunto, que decidi expandir e ensinar as pessoas sobre isso.

A sua formação é nessa área?
Eu formei em Administração e Turismo e depois fui para um MBA em Gestão e Marketing, pela FGV. Foi onde eu entrei de cabeça. Hoje, eu atuo muito na área comercial e de marketing. E fui me especializando na área de liderança, concluindo um Mestrado em Liderança pela Universidade de Atlanta e um curso de Liderança, pela Franklin Covey Brasil, que é uma referência nessa área.

A que tem sido voltado seu trabalho, hoje?
Eu diria que para desenvolver o potencial humano das pessoas, seja por meio do coaching, treinamentos ou consultorias. Até o dia 31 de janeiro, por exemplo, fizemos um evento de treinamento de Apresentações Inspiradoras, no Auditório do Sebrae. Esse curso traz técnicas de comunicação utilizadas por personalidades como Steve Jobs e Barack Obama.

Como você usa essas personalidades em suas palestras?
No curso que mencionei, nós fizemos um mapeamento do Barack Obama e trouxemos cinco segredos da comunicação do presidente norte-americano. Esses segredos são os detalhes. Tem uma frase que eu adoro que diz “As pessoas esquecerão o que você disse e esquecerão o que você fez, mas nunca esquecerão o que você as fez sentir”. Quando Barack Obama fala, além de escolher palavras que mexem com os sentimentos e as emoções das pessoas, ele usa muito o recurso do storytelling, que está muito em voga, ultimamente. Ele fala, mas não só explicando, fazendo discursos técnicos. Ele conta histórias. E quem não gosta de ouvir uma boa história? Desde uma criança, até um senhorzinho, todo mundo adora ouvir uma história quando ela é bem contada.

Bom, o que é se comunicar bem e o que esse processo de comunicação eficaz envolve?
O comunicar bem envolve escolher palavras. Mas, aí alguém pode questionar: “então, basta escolher a palavra certa e falar bonito?”. Não, a escolha de palavras representa apenas 7% da comunicação. Quando a gente fala de falar bem, isso não quer dizer que sejam palavras difíceis. Às vezes, a pessoa pensa que pode usar umas palavras poderosas, difíceis. Mas, não é isso. É falar de forma com que a pessoa consiga entender claramente aquilo que está sendo dito.

Quais são os elementos chave para uma boa comunicação?
Então, eu trabalho e acredito que façam parte disso o contar histórias, o usar analogias, para tornar a comunicação mais clara, mais fácil de ser compreendida. E usar palavras fáceis que atendam ao estilo do ouvinte. Se é um ouvinte mais técnico, bacana! Eu posso usar uma linguagem mais técnica. Agora, se é um ouvinte mais simples, eu preciso chegar e falar uma linguagem adequada. Por que o Lula teve tanto sucesso e tem até hoje? Devido à comunicação. No caso do Barack Obama foi algo muito interessante. Pois durante sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos, ele conseguiu conquistar o respeito e a admiração e ser eleito no país. E ele conquistou não só os Estados Unidos, mas o mundo inteiro. . E uma coisa que ele faz e valoriza bem é o que a gente chama de rapport, que é uma técnica usada para criar uma ligação de sintonia e empatia com outra pessoa, e eu ensino nos meus treinamentos.

Poderia dar um exemplo da técnica citada?
Certa vez, em um de seus discursos ele contou a história de seu pai, que foi para os Estados Unidos para estudar e enfrentou muitas dificuldades, por vir de família mais simples, mas que com toda garra e determinação, ele conseguiu se estabelecer ali. Obama, fez notar ainda a importância de seu pai ter escolhido os EUA dizendo “ainda bem que ele escolheu um dos melhores países, ainda bem que ele teve a feliz escolha de vir para os Estados Unidos”. Com um discurso como esse, ele conseguiu de imediato ganhar o público norte-americano.

Se a escolha de palavras representa apenas 7% da comunicação, o que mais contribui para sua eficácia?
É outro aspecto que eu trabalho que é a questão da tonalidade, que representa 38% da comunicação. Isso também inclui o ritmo da fala, pois tem momentos que preciso falar mais devagar, em outros acelero. Alguns mais alto, outros mais baixo. E o interessante disso é entender que se eu só falar baixo o tempo todo, é óbvio que fica uma comunicação apática, monótona e que não chama a atenção do público. Nisso tudo, Barack Obama é referência. Na hora que ele quer passar algo, de forma a prender a atenção das pessoas, ou algo sério e forte, ele abaixa o tom de voz.

Não deveria ser o inverso?
A gente acaba pensando que sim. Quando a gente quer dar ênfase e destaque a alguma coisa, o que fazemos? Aumentamos o tom de voz, acelera o ritmo. Mas, não. Às vezes, quando você quer falar algo incisivo, abaixe o tom de voz e fale pausadamente, pois é algo que você quer que marque a outra parte.

É um talento nato das pessoas?
A pessoa pode, sim, nascer com uma pré-disposição para ter uma comunicação muito boa. Mas, se ela já tem essa capacidade e treina, como o Barack Obama faz, aí ela terá uma comunicação excepcional e vai destacar-se muito no seu meio. Steve Jobs foi conhecido como um dos melhores comunicadores do mundo. Ele conseguiu vender o conceito da Apple e fazer a empresa chegar onde está, muito devido a sua comunicação e a sua forma de persuasão. Mas, as biografias contam que ele passava horas e horas, dias e dias treinando para fazer uma apresentação. Para que ele pudesse fazer, de fato, um show, um espetáculo. Então, essa é a ideia. Sou bom comunicador? Sim, mas se eu me contentar somente com isso e não treinar, não me preparar, a comunicação não será tão poderosa como a do Steve Jobs foi.

Então, o treino conta muito, também?
Tem uma frase do Bernardinho, que eu uso muito nos meus treinamentos, que diz “A preparação e a vontade de treinar tem que ser mais intensas e fortes, do que o momento do jogo”. A preparação é o que vai dizer se o jogo vai ser ganho ou não. E na comunicação é a mesma coisa. As pessoas pensam que para se comunicar bem, não precisam treinar. Mas, para jogar precisa, para tocar um instrumento precisa também. E por que para fazer um discurso ou para se comunicar, a gente chega no improviso? Todas as pessoas que são talentosas e investem nisso, tornam-se extraordinárias e referência na comunicação, pois já têm em si esse ponto forte e vão apenas potencializar esse talento.

E quem não tem esse talento?
Seja bem vindo à maioria (rs)! Saiu uma pesquisa que questionou às pessoas o que elas mais têm medo na vida. E a resposta de 41% dos entrevistados foi que tem mais medo de falar em público, do que de morrer. Tem o ‘case’ do presidente da Amil, Edson Bueno, que era extremamente tímido e tinha dificuldade, inclusive para falar com seus próprios funcionários. Por isso, ele sempre nomeava o diretor administrativo para ser seu porta-voz. Certa vez, ele foi convidado para ir ao programa da Hebe Camargo e tinha que ser ele, não podia ser o outro. E ele ficou desconcertado lá. Não sabia se cruzava a perna ou não, ou onde colocava as mãos. E ele disse, em entrevista, que quando assistiu ao vídeo, ficou muito triste com a própria performance. Foi a partir daí que ele decidiu mudar. Fez inúmeros cursos nas áreas de oratória e falar em público. Ele se desenvolveu e hoje é um grande palestrante e conferencista, tendo agora a facilidade que ele não tinha antes para falar naturalmente. Então, até mesmo quem tem um bloqueio, que se acha muito tímido e tem essa dificuldade, pode ser desenvolvido com muita prática, treinamento e, acima de tudo, força de vontade. É o querer mudar e não aceitar essa realidade para sua vida.

Qual a importância de se comunicar bem?
Quem se comunica bem atrai para si grandes oportunidades. No caso de quem trabalha em um empresa, para ser promovido, para ser lembrado pelas pessoas, não basta apenas ser competente no que faz. Mas, deve mostrar, de uma maneira sutil, diplomática e com uma comunicação eficaz, que é bom naquela função ou trabalho que desempenha. Tem profissionais na área da saúde, que geralmente são mais reservadas e introspectivas, que realizam procedimentos fantásticos e poderiam ter seus nomes estampados nos jornais ou revistas.

Na sua opinião, qual a vantagem de quem se comunica bem?
Os ganhos para quem se comunica bem são atrair novas oportunidades, aproveitar aquilo que bate à sua porta e conseguir vender o seu produto/imagem, como Steve Jobs fez. Eu duvido muito que ele conseguiria fazer da Apple o que ele fez, ser conhecido no mundo inteiro e deixar um legado e marca tão fortes, se ele não tivesse uma boa comunicação. As pessoas que têm uma boa comunicação como Steve Jobs, Barack Obama e Martin Luther King, deixam um legado. Eles são atemporais. Morrem, mas sua presença permanece na História.

Bem, escolha de palavras e entonação, somam apenas 45% da comunicação. E os outros 55%?
Na linguagem corporal. Essa grande parte vem pelos gestos, ou seja, a comunicação não verbal, representando 55% da comunicação. Tem um seriado muito interessante chamado ‘Lie to Me’ que mostra muito a questão das expressões verbais. Tem um momento em que o protagonista está entrevistando um presidiário, e este fala que não dirá nada. Então, o entrevistador diz a ele que não é necessário, pois as palavras mentem muito, e que ele irá apenas observar as suas expressões faciais. Nesse momento, o protagonista começa a fazer uma série de afirmações, e a partir da leitura das reações faciais do presidiário, ele chega ao veredicto. O corpo fala muito. Por que no pôquer muitos jogadores usam óculos de sol? Porque, por mais que se treine para que gestos e expressões não demonstrem tudo, não dá pra ser perfeito.

De que forma você trabalha isso?
Nos treinamentos e nos cursos a gente trabalha o sincronismo da fala com os gestos.

Por quê?
Não adianta eu falar bonito, com entonação e de maneira clara, se os meus gestos não emolduram e reforçam aquilo que está sendo dito. Tem pessoas que acabam fazendo gestos repetidos e esses gestos acabam tomando mais atenção do que o próprio conteúdo que está sendo passado. Então, tem que trabalhar o equilíbrio. Tem gestos demais? Tem gestos de menos? Porque isso também torna a apresentação chata de assistir, ainda mais se for mais longa. E será que esses meus gestos estão reforçando aquilo que estou dizendo ou contrariando. Tem pessoas que às vezes falam alguma coisa balançando a cabeça em sinal negativo. Então, ela está negando aquilo que está dizendo. É nesse sentido que a gente avalia se os seus gestos estão coerentes e se reforçam aquilo que está sendo dito.

No treinamento, essa orientação é feita de forma individual ou coletiva?
O curso é teórico-prático. Eu vou demonstrando para as pessoas algumas técnicas que podem ser usadas. Uso alguns dos exemplos que o livro “O Corpo Fala” (Pierre Weil) traz, explicando a questão da postura, que quando muito ereta pode demonstrar arrogância, ou arqueada baixa autoestima. Também mostro a questão das mãos, pois tem muita gente que fica em dúvida e pergunta: “onde coloco as mãos?”.

Eu tenho essa dúvida!
Olha, há duas formas. Pra ser natural, eu posso ficar parada e gesticular dentro do quadrante, que vai da cintura a altura dos olhos. No momento que os braços repousam, para quem fica muito tenso não transparecer isso, tem uma técnica chamada saboneteira, que consiste em repousar uma mão sobre a outra com a palma voltada para dentro, na altura da cintura. Isso é um apoio, pois fica bonito esteticamente para câmeras ou numa palestra e aí fica até mais fácil de se trabalhar os gestos nesse quadrante, ou apoiar num momento de silêncio ou que não houver gestos. Agora os cuidados: não pode ficar com as mãos nem muito para cima, nem muito para baixo, e nem ficar travado.

Como funciona na prática nos cursos?
Nós fazemos experiências práticas em frente ao espelho, um em frente ao outro. Aí existe a parte grupal, que é esse momento quando eu ensino as técnicas, e também existe a parte individual, que cada um vai se assistir juntamente com a nossa assessoria. Nesse ponto, a própria pessoa já se percebe e começa a dar feedbacks sobre si e anotando para traçar planos de melhoria. E eu entro fazendo algumas observações, também, sobre vícios de linguagem, entre outras coisas que as pessoas não percebem em si.

Por que a comunicação é tão valorizada, hoje?
Eu acredito que por alguns motivos. Eu presto consultorias em empresas, também. E a principal queixa é a questão da comunicação. Há muitos ruídos. Um fala, o outro entende errado e acaba gerando um conflito ou crise. Então, o primeiro motivo que eu coloco é a necessidade. As grandes empresas investem muito em treinamentos e mesmo assim enfrentam desafios com a comunicação. O segundo ponto, que é o básico, é que a comunicação é uma questão de sobrevivência. Um bebê que não sabe falar, já se comunica. Seja por meio do choro ou da expressão facial… Ele já passa uma mensagem. É questão de sobrevivência para viver em sociedade. E o terceiro motivo é que quem se comunica bem, consegue fortalecer a sua marca pessoal e deixar o seu legado.

 

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