Saúde mental

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Não é segredo que nos últimos anos o uso de medicamentos psicofármacos vem aume­n­tando. O último Boletim do Sistema Nacional de Geren­ciamento de Produtos Con­trolados, elaborado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em 2012, demonstrou que desde 2007 os ansiolíticos feitos a partir de substâncias como o clonazepam, bromazepam e alprazolam são os mais consumidos. Reco­mendados para o tratamento de casos diagnosticados de ansiedade, depressão e bipolaridade, os ansiolíticos e antidepressivos estão entre os remédios conhecidos pela “tarja preta”.

Para Marcelo Trindade Júnior, psiquiatra e professor da UFG (Universidade Federal de Goiás), o aumento é preocupante, mas antes de se entrar em pânico, deve-se levar em consideração que o número de diagnósticos também aumentou. “Acabamos esbarrando no problema da falta de profissionais especializados em Psiquiatria. Por essa razão, é comum o cardiologista passar um antidepressivo, às vezes. O ginecologista e o neurologista acabam receitando, também”, aponta.
De acordo com Natali Paes Costa, psicóloga, o aumento deve-se em parte à cultura imediatista na qual a sociedade está inserida hoje. “Nosso estilo de vida imediatista, em busca de resultados sempre rápidos, sem ter uma avaliação adequada, é o grande responsável por esse aumento. A medicação tem que ser levada a sério. Ela não é recomendada para aliviar as tensões do cotidiano. Toda medicação tem impacto orgânico e quando mal administrada, pode trazer prejuízos ao paciente”, alerta.
Chamada de mal do século, a depressão acomete cerca de 5% da população, atualmente. Os dados são da OMS (Organização Mundial da Saúde) e foram divulgados em 2013, indicando que mais de 350 milhões de pessoas no planeta têm depressão. Já no caso da ansiedade, o percentual sobe bastante, chegando a 25% de todo o globo, de acordo com a pesquisa conduzida pelo Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade São Paulo). Ambos os transtornos associam-se ao ritmo acelerado e a modificação das relações sociais.
O que não foi o caso de Maria das Graças de Oliveira, 59, servidora pública, que após uma crise há mais de 10 anos, buscou ajuda com um psiquiatra. “Eu tomo Olcadil 1 mg, que é um ansiolítico. Tomo porque sou uma pessoa ansiosa, desde a época que tive o primeiro sintoma de depressão. Eu não fico sem ele, porque qualquer situação mais delicada me dá taquicardia e respiração ofegante. Ele regula esses sintomas e me mantém mais tranquila durante o dia”, conta.

Bem estar
Os medicamentos psicofármacos atuam diretamente sobre os sintomas e, por essa razão, proporcionam uma sensação de bem estar que é o que motiva muitos pacientes a dar continuidade ao tratamento, como é o caso de Carla Pereira Damasceno, 20 anos, estagiária em Marketing. “Acho que me sinto muito melhor tomando a medicação. Dependendo da época, quando fico mais ansiosa, ele me tira o sono, mas mesmo assim não paro de tomar porque meu humor fica mil vezes melhor com o uso do medicamento”, explica.
O psiquiatra Marcelo Trindade atribui à popularização dos sintomas pela mídia, um dos principais estimuladores para que mais pessoas busquem tratamento psicoterápico sem necessidade. “E essa popularização é o grande problema do que se entende de mídia. Existe uma gama de pessoas que, por conversarem ou ver na televisão, veem em si sintomas que são senso comum, como irritabilidade, insônia, tristeza, cansaço. São sintomas comuns à rotina atual. Para um profissional que não é especialista, isso pode passar como depressão”, observa.
A psicóloga Natali Paes também vê com ressalvas o uso de psicofármacos. “Muitos dos meus pacientes que fazem uso desses medicamentos, não tiveram uma avaliação adequada, realizada por um psiquiatra, mas conseguiram por outras vias essa medicação; seja por um profissional que não é especializado na área, ou com alguma vizinha. Isso faz parte da cultura da medicação. Temos o costume de buscar a medicação como primeira alternativa”, relata.

Avaliação e diagnóstico
A solução para a prescrição de medicamentos a pacientes que não têm necessidade é a avaliação psiquiátrica. De acordo com a psicóloga Natali Paes, cabe ao profissional que recebe o paciente pela primeira vez, a orientação. “Quando chegam à terapia, muitos pacientes demonstram interesse em usar medicação. Mas, é realizada uma avaliação e nesta nós conseguimos pontuar se há necessidade do uso desses psicofármacos ou se o paciente pode lidar com a queixa apenas com a terapia”, explica.
Esse foi o caso de Hen­rique Daniel Lopes, 28 anos, jornalista. O jovem começou a sentir os primeiros sintomas há dois anos e buscou primeiro a ajuda de um clínico geral. “Eu acordava no meio da noite com taquicardia e respiração ofegante. Fui a um clínico, que me encaminhou a um cardiologista. Mas, após fazer todos os exames, não encontramos nada de errado no meu coração. Foi aí que me estimularam a procurar ajuda psiquiátrica. Hoje, eu poderia estar tomando remédio para o coração, sendo que não era esse o problema”.
A avaliação é importante para que médico e paciente compreendam a extensão dos sintomas e também suas origens. “Em alguns casos, a psicoterapia ajuda a promover uma mudança significativa nos comportamentos e cognições que vai melhorar a qualidade de vida dessa pessoa sem medicação. Mas, tem também alguns casos que sinalizam a necessidade dessa medicação, por conta da severidade dos sintomas. Então, é necessário que a esse paciente, especificamente, seja indicada uma avaliação com um psiquiatra”, corrobora Natali Paes.


Efeitos colaterais trazem desconforto

 

Um dos maiores problemas apontados no uso de psicofármacos são os efeitos colaterais causados pelos mesmos. Desde ganho de peso, até disfunções sexuais são problemas que podem acometer os pacientes. Cristhyane Camargo Machado, 38 anos, secretária, conta que já passou por algumas situações desagradáveis. “Até encontrar a medicação certa, você passa por várias. Umas dão sono, outras te deixam irritada, e algumas te deixam boba. Uma vez cai e cortei a testa, dormi por 2 dias seguidos”, lembra.
Os efeitos são variados e específicos a cada medicamento. Flávia Pereira, por exemplo, não sente tanto os efeitos do medicamento em seu organismo, pois o Bupropriona é um medicamento, consideravelmente, leve, em suas palavras. “Misturado com álcool, por exemplo, perde seu efeito, mas não me causa nenhum risco. Além disso, não muda minha percepção das coisas, o que para mim é essencial!”, assegura.
Patrícia Ricellys Bacheller, 31 anos, servidora pública, conta que seu psiquiatra foi muito honesto no início do tratamento, há um ano e três meses, aproximadamente. “Logo de cara, eu soube do efeito que o medicamento teria nas primeiras semanas, que seria o aumento dos sintomas. No caso, se você está depressivo, nas primeiras semanas você fica mais ainda. Todos os sintomas que você já têm, se agravam. E foi o que aconteceu comigo. Mas, logo depois melhorou”, expõe.
O tratamento não é fácil para todos, no entanto. O jornalista Henrique Lopes sofre com vários efeitos colaterais e, por essa razão, deseja que o tratamento termine logo. “Ainda sinto muita dor de cabeça e, às vezes, insônia e falta de apetite, mas já estou conseguindo me acostumar. Eu sinto dores, também. Se não fosse por eles, sei que não estaria na situação que estou que é de maior controle das crises. Mas, o que eu mais queria era deixar de tomar os comprimidos, por causa dos efeitos colaterais”, afirma.


Tempo determinado

 

 

Em geral, os psicofármacos são administrados por tempo determinado. A psicóloga Natali Paes aponta que é responsabilidade do psiquiatra determinar o período de tratamento. “Quem determina por quanto tempo e como deve ser feito o uso da medicação é o psiquiatra, portanto quando o paciente demonstra interesse em dar continuidade ao tratamento ou modificar a quantidade administrada, é o psiquiatra o responsável por acompanhar de perto”, explica.
Mas, a relação médico/pa­ciente conta muito na hora de suspender os medicamentos. Maria das Graças conta que sua médica já orientou o fim do tratamento, mas ela mesma decidiu não parar. “É uma relação de bem estar, me sinto mais controlada. Até poderia ficar sem, mas tenho um pouco de receio. A médica já falou que pode parar e eu até já fiquei sem e não aconteceu nada. Não tenho efeitos colaterais, mas ainda não acho que é o momento de parar de tomar”, comenta a servidora pública.
A mesma justificativa é usada por Carla Damasceno. “Não fico sem, sou dependente! Um dia eu pretendo parar, pois não é nada agradável imaginar que eu vou ter que usar para sempre, mas não me imagino sem eles.” Cristhyane Camargo argumenta que depende tanto da medicação, quanto um diabético de insulina. “São 14 anos! Existem pessoas diabéticas que tomam insulina para sempre. Eu sou ansiosa e tenho problemas com humor, por isso tenho que me tratar. Não pretendo parar com a medicação nunca, somente quando decidir engravidar”, alega.

Diálogo é importante
A determinação do tempo de tratamento é algo que, de acordo com o psiquiatra Marcelo Trindade Júnior, deve ser feito antes do uso da medicação. Assim, com o término do período o paciente se sentirá mais seguro para deixar os comprimidos de lado. “O problema não é o tratamento, em si, mas a forma como o médico apresenta isso ao paciente. Se é apresentado ao paciente desde o começo com segurança, e informando o tempo de tratamento e tudo o mais, então quando o período terminar, a transição será muito mais fácil para o paciente”, certifica.
Quanto à dependência, o psiquiatra explica que os medicamentos que a causam são os ansiolíticos. “Os antidepressivos não causam dependência ao paciente, pois são neuroprotetores. Já os ansiolíticos pertencem a outra classe de medicamentos que está ligada aos benzodiazepínicos. Esses sim podem causar dependência, além de prejuízos a memória e outros problemas. Não que não sejam indicados, mas devem ser administrados por tempo determinado”, instrui Marcelo.


Sobra preconceito e desinformação

 

De acordo com Marcelo Trindade Júnior, psiquiatra, os maiores desafios para profissionais e pacientes da psiquiatria são o preconceito e a falta de informação. “Tem-se muito preconceito com quem tem qualquer tipo de sintoma psicopatológico. Isso provém da sociedade, da classe médica e de outros setores de atenção à saúde, e até do próprio paciente que acaba procurando outro profissional, quando os primeiros sintomas surgem”, explica.
Para o médico, a desinformação oferecida pela mídia à sociedade e a falta de investimento em campanhas informativas, acabam estimulando ainda mais o preconceito. “O que dá base a isso é a falta de informação e as campanhas contra a psiquiatria. A Associação Brasileira de Psiquiatria tem se esforçado para promover maior informação sobre os transtornos psiquiátricos, por meio das mídias sociais, principalmente”,.
A estudante Flavia Pereira Vale, 26 anos, corrobora a versão do psiquiatra e conta que, antes de recorrer à medicação, também tinha várias ressalvas quanto a isso. “Infelizmente, quem usa medicamentos psicofármacos não é bem visto na sociedade. As pessoas nos veem como fracas da cabeça. Era desse preconceito que eu partilhava antes. Quando menciono o uso, faço de forma descontraída, pois já me criticaram muito. Somente quem tem necessidade de usar um calmante entende de verdade”, lamenta.
Patrícia Ricellys Bacheller, também teve dificuldades em aceitar o medicamento no início. “No momento em que eu fui ao psiquiatra, eu tinha muita resistência. Eu não queria tomar esse tipo de remédio. Mas, depois de um certo tempo, eu já fui aceitando. E outra coisa que me ajudou bastante foi interagir com outras pessoas que estavam passando pelo mesmo problema que eu”, lembra.


Alternativa

 

Devido a extensão de prejuízos que os psicofármacos, principalmente os ansiolíticos, podem trazer à saúde, a psicóloga Natali Paes acredita que é importante que as pessoas busquem soluções alternativas. “Num consultório de psicologia, muitos pacientes chegam fazendo uso de medicação ou com interesse de consultar com um psiquiatra, para iniciar o tratamento com psicofármacos. E muito disso se deve à necessidade de lidar de forma rápida com a queixa”, analisa.
O psiquiatra Marcelo Trin­dade Júnior expressa opinião semelhante. “Não adianta alguém com depressão grave procurar apenas um psicólogo, pois é uma doença neuropsiquiátrica. Mas, primeiro temos que avaliar o diagnóstico, e depois identificar se é de fato uma depressão, um problema neurobiológico, ou se é apenas um sentimento de tristeza, que é oriundo de um trauma ou situação. Se é um problema psicossocial, então deve ser encaminhado para a psicoterapia”, pontua.
Mas, a conciliação de ambos os tratamentos também é aconselhada. Para Patrícia Ricellys, foi o combinado dos dois que fez a diferença em sua recuperação. “Embora eu recomende o uso de medicamentos psicofármacos para quem tem problemas como eu, também recomendo o tratamento psicológico. Algo que me ajudou muito, foi minha religião. Sou cristã-evangélica e buscar a reconciliação com meu Deus me ajudou bastante”, conta Patrícia.
Para a psicóloga Natali Paes, é necessário informar a população sobre essas formas alternativas de tratamento, como a psicoterapia, por exemplo. “A medicação não é a única forma, o único jeito de buscar conforto. A informação, aqui é a maior aliada, para que a população compreenda que os psicofármacos são medicações sérias que necessitam de uma indicação de um psiquiatra e que não são a única alternativa. E que na maioria dos casos, não é nem mesmo a forma mais eficaz de tratamento”, conclui.

 

 

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