Tempo de recomeçar, tempo de aprender

0
613

O caderno e o lápis são iguais aos de todos os alunos, mas as mãos que escrevem são bordadas pelo tempo. As marcas da idade revelam que a busca pelo aprendizado é acompanhada pela velhice. A descrição encaixa-se a centenas de alunos que ingressaram na rede municipal de educação de Goiânia após os 60 anos. O atendimento prestado em turmas dedicadas aos idosos é exemplo de como a vida pode ser transformada à qualquer época.
É o que ocorre com 22 alunos atendidos na Associação de Idosos do Jardim Balneário Meia Ponte em turmas no turno vespertino. Com educandos na faixa etária entre 60 e 83 anos, a parceria com a Prefeitura de Goiânia oferece acesso ao ensino e possibilita a continuidade dos estudos a moradores da região que, por motivos diversos, não foram alfabetizados e não tiveram sucesso na escolarização.
A proposta da extensão é que o professor vá aonde o aluno está, explica a pedagoga responsável pela turma, Maria Auxiliadora Dias da Silva. A professora da rede municipal está à frente do trabalho com idosos no bairro desde 2008. O programa voltado para leitura, escrita e expressão oral, tem obtido resultados significativos. “Alguns de nossos alunos concluíram o ensino médio e até prestaram vestibular”, explica.
Para a professora o diferencial do atendimento na Associação de Idosos é o bem-estar do aluno. “Eles gostam de vir para cá. Estar aqui é viver aquilo que muitas vezes não viveram na idade convencional”, ressalta. A educadora popular analisa o progresso de cada educando. “A gente se surpreende a cada dia. Uns escrevem textos, outros escrevem uma linha, mas uma linha é o aluno se superando”, avalia.
“A sala de aula é o melhor trabalho já realizado pela Associação em 28 anos de existência”, conclui a presidente da Associação de Idosos, Gilka Ferreira. De acordo com ela, o espaço foi adaptado para receber a turma de extensão devido a demanda existente. “A maioria dos idosos eram analfabetos. Hoje todos sabem ler e escrever. Isso é muito gratificante”, defende. Atualmente, 34 pessoas são atendidas no local. Além dos idosos, uma turma no noturno também recebe outros públicos, incluindo jovens em busca de qualificação para ingressar no mercado de trabalho.
Aos 67 anos, José Ribeiro dos Santos, é um dos idosos que viu sua realidade ganhar novo significado ao aprender a ler e escrever. “Muita coisa mudou, aprendi muito”. Há seis anos frequentando a turma de extensão, a socialização também é um ganho apontado pelo idoso. “A professora é muito boa. As amigas e os amigos são pessoas muito boas.” O aluno, que é poeta, passou a registrar os poemas, antes apenas declamados. “Essas poesias eu faço na hora, mas agora ficou melhor. Eu falo e já escrevo ”, conta satisfeito com a possibilidade de um dia publicar um livro.

Educação em extensão
Viabilizar acesso e continuidade aos estudos a pessoas idosas e adultos em geral é o foco do atendimento em turmas de extensão prestado pela Secretaria Municipal de Educação de Goiânia (SME). A proposta oferece alfabetização e escolarização no primeiro segmento do ensino fundamental, que compreende de 1ª a 4ª série.
Neste ano, são 32 turmas instaladas em ambientes alternativos como associações, centros comunitários, empresas e igrejas. Nestes locais, aproximadamente 600 pessoas são atendidas.
As turmas de extensão tem estrutura diferenciada para contribuir com a permanência do educando. Possuem em média 15 alunos cujo atendimento é feito por um pedagogo e um professor de educação física. A iniciativa é uma das frentes de organização da Educação de Adolescentes, Jovens e Adultos (Eaja), modalidade que oferece possibilidade de estudo para pessoas que, por diversos motivos, não tiveram acesso ou sucesso no processo de escolarização.

Matrículas abertas

As vagas para a Educação de Adolescentes, Jovens e Adultos (Eaja) estão disponíveis durante todo o ano. Além das turmas de extensão, a Prefeitura de Goiânia oferece outras três formas de atendimento ao público acima de 15 anos.
O primeiro segmento do ensino fundamental, 1ª a 4ª série, também é oferecido em escolas municipais prioritariamente no turno noturno. O segundo segmento, de 5ª a 8ª série, é oferecido somente em escolas municipais, sendo que em dez instituições é conciliado à iniciação profissional. A terceira via é o Programa AJA-Expansão/Brasil Alfabetizado que também é desenvolvido em locais alternativos, em parceria com a sociedade civil, e, mediante o trabalho de educadores populares, atua para alfabetização.
No ano de 2014, a rede municipal teve cerca de 13 mil alunos matriculados na Eaja. Os educandos recebem uniformes, material didático e, para os que são atendidos nas escolas, é servido jantar completo logo ao início do turno, visto que muitos seguem diretamente do trabalho.
A aluna Hilda Nogueira de Sousa, da Escola Municipal Pedro Ciríaco de Oliveira, ressalta a importância do atendimento oferecido pela Prefeitura de Goiânia. “Eu e meu marido não sabíamos nada antes de voltar a estudar. Meu marido aprendeu a ler. Hoje sonha em tirar a habilitação dele. Se você conhece alguém que quer voltar a estudar convide ele para a Eaja!”.
“Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), Goiânia apresenta registros de cerca de 250 mil pessoas que ainda não concluíram o Ensino Fundamental e outras 34 mil não foram alfabetizadas. A rede municipal de Educação está aberta a receber essas pessoas “, ressalta Márcia Pereira Melo, chefe da Divisão de Ensino Fundamental de Adolescentes, Jovens e Adultos (DEF-AJA).
Os interessados em voltar a estudar podem buscar informações na escola mais próxima de sua residência ou solicitar a vaga pelo Telematrícula (156) ou Portal da Prefeitura (www.goiania.go.gov.br). (Roseneide Ramalho)

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here