Encontros e desencontros de lideranças na base aliada

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Quando é divulgada uma notícia de rusgas, desunião e fogo amigo no noticiário político goiano, logo se imagina que o protagonista é alguma liderança ou partido da oposição. Longe das benesses do Palácio, o ambiente oposicionista é bem mais propício a crises do que o governista. Ainda mais quando na oposição está o PMDB, partido que possui várias frentes, grupos e lideranças disputando o poder interno da maior agremiação do Estado.
Na base aliada do governador Marconi Perillo (PSDB), porém, também há problemas. A diferença é que grande parte deles não são externalizados, ou demoram a vir a público. Este início de ano, porém, devido, principalmente, à redução de espaços na máquina estadual, a insatisfação de aliados do governador passaram a se tornar cada vez mais constantes… e públicas.
Na semana passada, um episódio inesperado foi um grande exemplo desta insatisfação interna. O ex-presidente do PSDB por cinco oportunidades e ex-secretário da Saúde do governo Henrique Santillo e do terceiro governo Marconi, Antônio Faleiros (PSDB), foi a público mostrar toda a sua insatisfação pela falta de diálogo e de espaço dentro do atual governo. A reclamação pública de Faleiros é emblemática por alguns motivos.
O principal dele é o fato de que Faleiros é aliado histórico de Perillo e fundador do PSDB na década de 80. Durante as suas passagens pela presidência do partido em Goiás, Faleiros sempre mostrou grande fidelidade ao governador e ao partido, e promoveu, em diversos mo­mentos, o PSDB no meio da disputa interna com os outros partidos da base. Exemplo maior foi durante o governo Alcides Rodrigues (ex-PP), quando o PSDB, naturalmente, perdeu espaços e Faleiros foi o grande defensor da agremiação.
Por isso tudo, uma revolta pública do ex-secretário foi algo que pegou o mundo político goiano de surpresa. Faleiros reclamou da falta de diálogo do governador, quem, segundo ele, lhe prometeu uma conversa em dezembro e até agora o deixou no vácuo. Fez sua mea culpa em relação a não ter conseguido um desempenho melhor na eleição para deputado federal, mas também chiou por não ter tido mais apoio do partido e do próprio governador. Mais do que isso. Teceu críticas pesadas a Marconi, a quem rotulou de “dono do partido” mais até mesmo do que “Iris Rezende no PMDB, na época em que Iris era governador”. Prometeu estar estudando possibilidades de deixar o PSDB e se filiar a outro partido.
A reclamação pública de Antônio Faleiros cria ressonância com as queixas – também públicas – que o deputado federal Jovair Arantes (PTB) fez ao governador no início de janeiro. Sem um cargo de relevância no primeiro escalão do governo, Jovair reclamou do espaço reduzido do PTB na máquina. Após uma declaração de Marconi, que pode ser interpretada como uma resposta a Arantes, dizendo que “quem quiser formar o governo deveria disputar eleição”, Jovair aumentou os tons das críticas a Perillo. Disse que o governador foi “inábil politicamente” ao tratar a questão.
Assim como Faleiros, Jovair é aliado antigo de Marconi. Foi um dos primeiros apoiadores do governador na base criada em 1998 para as eleições estaduais. Na época, era filiado ao PSDB. Após assumir o PTB, no início dos anos 2000, não recuou de seu apoio a Marconi. Pelo contrário. Afinou cada vez mais os ponteiros com o governador e com a base aliada, a ponto de ser um dos primeiros a lançar Marconi como candidato ao governo em 2010, no meio da grande crise da base aliada durante o governo Alcides.
As insatisfações públicas de Faleiros e Jovair não são isoladas. Há algumas semanas, o ex-deputado federal Carlos Alberto Lereia (PSDB) foi a público também reclamar por não ter conseguido o posto que desejava no governo. Nos bastidores, a informação é que o ex-parlamentar queria o comando do Detran. Foi-lhe oferecido o comando da Agência Brasil Central (ABC), que cuidará dos veículos de comunicação estatais. Em um momento de fúria, Lereia disse que “não precisava de emprego” e rejeitou o cargo. Após alguns dias, refluiu da ideia e deve aceitar o comando da ABC.
Lereia também é forte aliado histórico de Marconi. Legislou ao lado do governador na Assembleia Legislativa, entre 1991 e 1994, quando ambos eram deputados estaduais. Quando Marconi foi eleito governador, Lereia passou a ser um dos principais defensores públicos do tucano. Também teve atuação destacada durante a disputa com o PP no governo Alcides Rodrigues.

Insatisfação nacional
Outra insatisfação pública na semana passada foi a da senadora Lúcia Vânia (PSDB). A motivação, porém, não teve relação direta com o governo Marconi Perillo e sim com a disputa interna do partido pela primeira secretaria do Senado. Lúcia queria o cargo, que já havia sido definido para o PSDB, e tinha apoio do presidente eleito Renan Calheiros (PMDB-AL). O presidente nacional tucano, senador Aécio Neves (PSDB-MG), porém, indicou o senador Paulo Bauer (PSDB-SC). Durante as conversas de bastidores, o impasse não foi resolvido e Lúcia saiu extremamente chateada.
A senadora goiana reclamou de ter sido atropelada por Aécio, além de ter tido a sua fidelidade ao partido questionada pelo senador mineiro. Isso porque, ao mostrar apoio a Lúcia, Renan deixou no ar a possibilidade de um acordo entre os dois e que a goiana poderia ter votado nele na eleição para a presidência. A ação foi completamente negada por Lúcia Vânia, que garantiu ter votado no senador Luiz Henrique (PMDB-SC), que foi a orientação da bancada tucana. Após a celeuma, Lúcia disse que deixará o PSDB.
Apesar de a confusão envolvendo a senadora Lúcia Vânia no Senado não ter tido a política goiana como motivo principal, as consequências desta podem modificar o jogo político em Goiás. Caso Lúcia cumpra a sua promessa de deixar o partido, o PSDB goiano perderá a sua última cadeira no Senado. Vale lembrar que, até o mês passado, o partido contava com dois senadores – além de Lúcia, o senador Cyro Miranda, que teve o seu mandato finalizado em 31 de janeiro.
O descontentamento nacional de Lúcia poderá ser a gota d’água em um copo que já está cheio há tempos por atritos locais. Não foram poucas as vezes que Lúcia Vânia mostrou descontentamento interno com o seu espaço no partido e no governo no Estado. Em 2002, por exemplo, Lúcia reclamou bastante quando ficou na eminência de perder a indicação para o Senado para o ex-presidente do Banco de Boston Henrique Meirelles (na época no PSDB).
Outro atrito forte no PSDB entre Lúcia e as principais lideranças do partido foi em meados do ano 2000, quando o então deputado federal Leonardo Vilela foi eleito presidente regional do PSDB. Na eleição, Lúcia teve espaços diminuídos na executiva do partido, o que levou a críticas por parte da senadora. Leonardo divulgou uma nota de repúdio às críticas da senadora, o que causou ainda mais atrito na relação entre os dois. Sem contar o desentendimento feio entre Lúcia e Marconi na Comissão de Turismo do Senado quando o atual governador era senador.
A celeuma nacional da semana passada não foi a primeira vez que Lúcia Vânia ameaçou deixar o PSDB. Em algumas outras oportunidades, principalmente em momentos de atritos internos com o governador e com lideranças tucanas, a senadora já havia deixado claro que poderia mudar de agremiação. A última foi em 2013, quando Lúcia mostrou que poderia ir para o PPS, partido comandado pelo seu sobrinho, o deputado federal Marcos Abrão Roriz. Desistiu alguns dias depois, quando deu, até mesmo, coletiva de imprensa para dizer que ficaria no PSDB. Será que agora é pra valer?


Presidências tucanas

 

Além de falta da diálogo, outra questão que pode ter influenciado o desabafo de Antônio Faleiros é a discussão sobre o futuro presidente regional do PSDB. Paulo de Jesus, atual presidente,  encerrará o seu mandato nos próximos meses e já há eleição marcada no diretório goiano para abril. Nos bastidores, Faleiros era um dos nomes que estavam sendo especulado para substituir Paulo no comando do partido. Na semana passada, porém, a discussão tomou novos rumos.
Alguns dias antes de Faleiros vir a público criticar a forma como está sendo tratado no partido e na base aliada, ganhou força o nome do ex-senador Cyro Miranda para a presidência do partido. Apesar de não ter um perfil tão combativo e histórico – como tem Faleiros e Paulo de Jesus -, Cyro teria a preferência do governador por ter criado interlocução com lideranças nacionais no período em que esteve no Senado Federal. Este perfil seria desejado, no momento em que Marconi Perillo tenta dar projeção nacional à sua gestão. Hoje, Cyro é o grande favorito para o posto.
Em entrevista para a Rádio 730, onde teceu a grande parte de suas críticas, Faleiros disse que nem mesmo teve espaço para poder dialogar e costurar uma hipotética candidatura à presidência regional do partido. Foi mais um episódio onde o tucano reclamou de ter sido escanteado das discussões do partido.
Se Cyro está perto de ser o novo presidente regional do PSDB, na presidência metropolitana está praticamente certa a candidatura única de Rafael Lousa, ex-superintendente executivo da antiga secretaria de Indústria e Comércio. Lousa é filho de Olier Alves (PSDB), tucano histórico e conhecido pelo seu trabalho junto à militância do partido durante as campanhas eleitorais. Nos bastidores, a informação é que Lousa só espera as eleições de abril para ter o seu nome confirmado.

 

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