Falta água, sobra desperdício

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Se o mês de dezembro assustou muitos goianos por conta da chu­va escassa, janeiro não ficou para trás. O primeiro mês de 2015 bateu recorde no baixo registro dos índices pluviométricos. A seca que é característica dos meses entre junho e outubro, pode ter sofrido um deslocamento. De acordo com Ro­si­da­lva Lopes Feitosa da Paz, superintendente de Po­líticas e Programas do Sistema de Me­te­o­rologia e Hidrologia (Simeh­go), ainda é cedo para fazer tal afirmação, pois não foram coletados dados suficientes para um diagnóstico desse tipo.

O fato é que o tempo de se­quidão no cerrado já provocou muitos problemas em todo o estado de Goiás, começando pela redução no nível dos reservatórios das hidrelétricas, até a lavoura que, segundo a FAEG (Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás), sofreu um prejuízo de mais de R$ 1,25 bilhão, devido às lavouras de soja e milho afetadas. “Nós estamos com um déficit hídrico há dois anos, temos muitas variações dos índices pluviométricos. O mês que mais chove geralmente é dezembro e janeiro. E esse ano janeiro ficou bem distante dos anos anteriores”, explica Rosidalva Lopes.
Em fevereiro, contudo, a seca parece estar dando uma trégua. O problema, segundo a superintendente, é que as precipitações estão vindo na hora errada. “Fevereiro deve, também, ficar abaixo do esperado. Mas, ainda assim não ficará tão aquém quanto o mês de janeiro. O problema é que só está chovendo agora. E o agricultor não está precisando de chuva agora, porque está colhendo. Precisou nos meses de outubro, novembro e dezembro, quando houve o plantio. É essa a dificuldade: a chuva não vem no tempo certo, nem na hora certa”, comenta.
Para Paulo Roriz, engenheiro civil e professor de Hidrologia da PUC-GO (Pontifícia Uni­versidade Católica de Goiás), o problema da estiagem torna-se mais sério devido ao assoreamento dos rios. “Goi­â­nia é um exemplo claro das modificações que ocorreram ao longo do tempo. Há alguns anos, tínhamos na cidade cerca de 60 córregos e nascentes. Mas, hoje, devido à urbanização, muitos foram destruídos pela pavimentação e a impermeabilização do solo”, observa. De acordo com o docente, são essas intervenções que impedem o reabastecimento das nascentes, que acabam se extinguindo.
O abastecimento da cidade e do estado, todavia, não deve ser afetado. Luiz Novo, superintendente de Comunicação e Marketing da Saneago, informa que até o momento os mananciais encontram-se em situação de normalidade. Os reservatórios de água tratada estão, em média, com nível de água controlado e os de água bruta (sem tratamento) também têm boas condições para abastecer o estado. “Estamos conseguindo captar toda a água necessária. Temos a barragem do João Leite, que nos oferece uma certa tranquilidade, pois ainda está permitindo a vazão do rio”, esclarece.

Crise hídrica
Com todo o problema enfrentado pelos paulistas em seu estado, os goianos ficaram temerosos com a seca e as especulações sobre a possibilidade de uma crise hídrica brotaram em todos os cantos. A Saneago, porém, afirma que Goiás não passará por situação semelhante. “Nós não trabalhamos com essa hipótese, pois fizemos os investimentos previstos. Inclusive o Governo do Estado já trabalha para acelerar a implantação do sistema produtor Mauro Borges, que vai produzir 4 mil L/s. Para se ter uma ideia, hoje nós abastecemos a capital com 4,5 mil”, argumenta Luiz Novo.
Para Luziano Carvalho, titular da DEMA (Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente) em Goiânia, a realidade não é tão clara assim. De acordo com levantamento da delegacia, o assoreamento de rios em Goiás pode ameaçar o abastecimento de água no estado. “O desmatamento para criação de gado, expansão da agricultura, a criação de loteamentos em áreas próximas a nascentes de rios e a construção de casas em área de preservação são os principais causadores de assoreamento de rios em Goiás”, justifica o delegado.
Não é preciso ir tão longe para verificar os efeitos do processo descrito por Luziano Carvalho. O professor Paulo Roriz relembra que a nascente do Córrego da Onça, localizada na Vila Santa Isabel, próximo à Praça da Bíblia, está aterrada, o que é um crime ambiental. “Há uma ação junto ao Ministério Público, mas ainda não foi feito nada com relação a isso”, comenta. O pior é que este não é o primeiro caso. Na opinião do docente, a raiz está na especulação imobiliária. “Eu acho natural que a cidade tenda a crescer, mas não acho que se deva lotear áreas de preservação ambiental. Sou radicalmente contra”, assevera.
Paulo Roriz ainda não se convenceu de que Goiás possa passar por uma crise hídrica. “Eu acredito que não chegaremos ao nível em que São Paulo está. Temos tido chuva suficiente, e o Poder Público tem tido condições de manter firmes as medidas de preservação do meio ambiente. Na condição de Goiás, que eu julgo ser privilegiada, se mantivermos firmes as condições de preservação, então não teremos problemas com racionamento como os paulistas”, assegura o engenheiro.


Intervenção Federal

 

 

Em reunião realizada no dia 5 de fevereiro, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, as ministras da Agricultura e Pecuária e do Meio Ambiente reuniram-se com os secretários estaduais para discutir uma série de questões que envolvem ambas as partes. Um dos temas da pauta foi a água. De acordo com a ministra Kátia Abreu (Agri­cultura), um termo de cooperação será firmado entre os dois ministérios para ampliar o Programa Produtor de Água, da ANA (Agência Nacional de Águas), cujo objetivo é a redução da erosão e assoreamento dos mananciais nas áreas rurais.
A ministra também informou que Embrapa e ANA estão trabalhando juntas na realização de um estudo que vai verificar o impacto da seca na agricultura por meio de um mapeamento do solo através de satélites. “Nossa intenção é fazer uma previsão das áreas que podem sofrer com a seca e das áreas que têm recursos hídricos disponíveis para estudarmos a possibilidade de um rearranjo”, explicou.  
Kátia Abreu levantou ainda a questão da desburocratização do licenciamento ambiental. De acordo com ela, hoje, muitos produtores têm tido dificuldade, por conta da demora para a liberação do licenciamento devido ao contingente limitado de fiscais. “Nossa proposta é dispensar quem já está cadastrado no CAR (Cadastro Ambiental Rural) da licença ambiental, com a LOA (Licença Ambiental Única). Mas, claro, alguns licenciamentos específicos devem ser mantidos, como para o desmatamento e a fiscalização, que devem ocorrer sempre”, afirmou.

Má educação
A falta de conscientização, nesse caso, é o que mais atrapalha. Para Paulo Roriz, engenheiro e professor de Hi­dro­logia, o problema gira em torna da falta de educação da população e da ineficiência do Poder Público. “As pessoas e muitas indústrias continuam despejando carga indevida de esgoto em mananciais. Tem indústria de jeans jogando dejetos livremente em córregos da capital. E o cidadão passa, sente o mau-cheiro, mas não faz nada. O Governo não faz nada. Não sei até que ponto vão continuar permitindo esses crimes ambientais”, questiona.
Com a diminuição do volume de água nos córregos, a rede fluvial não consegue diluir a grande quantidade de esgoto lançada nos mesmos. Daí, a razão do mau cheiro. Exem­plos não faltam: todas as extensões do Meia Ponte, do Anicuns e do Cascavel estão lá para serem observadas. “Se houvesse medidas de proteção aos mananciais, teríamos uma situação diferente. Seca tanto a água por baixo do solo, que as águas vão minguando. Mas, não se faz nada. Ninguém faz nada”, lamenta Paulo Roriz.
Luziano Carvalho também acredita que se as pessoas tivessem educação ambiental a situação seria bem diferente. “Eu vejo que ao longo do tempo o que se tem realmente faltado é o respeito à cultura da conscientização, da educação. Nós temos a cultura da destruição, do desmatamento, da ignorância. Não se respeitam estudos técnicos e científicos que apontam para graves problemas ambientais. E isso está diretamente relacionado à perda da vida, inclusive humana”, alerta o delegado.
Na opinião de Cynthia Fernandes Leite, 34 anos, secretária executiva e professora do PRONATEC, essa falta de educação é cultural. “A população tem péssimos hábitos. As pessoas, muitas vezes, não se preocupam sequer com o descarte correto do lixo. Da mesma forma ocorre com a água. E se eles não cuidam de questões básicas, o desperdício de água é sua última preocupação”, observa. Para ela, nem mesmo o Governo se interessa em promover a conscientização. “O nosso Governo não tem o interesse de fazer campanhas de conscientização nas escolas”, alega.


Medidas preventivas

 

 

Embora todos assegurem que a crise hídrica não deva chegar ao estado de Goiás, o Governo Estadual já manifestou que ficará atento ao problema. Em seu discurso de posse da Secima (Secretaria do Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos), no último dia 2 de fevereiro, Vilmar Rocha afirmou que o tema terá atenção especial durante sua gestão e revelou que vai solicitar à Saneago um levantamento das áreas potencialmente críticas no Estado, a fim de colher informações que subsidiem um planejamento para impedir que problemas eventuais surjam.
Uma medida eficaz que poderia ser incentivada nas lavouras é a irrigação noturna. “Temos visto muito desperdício, especialmente nas fazendas. Uma que visitamos, por exemplo, tem cinco pivôs centrais. Veja que apenas um consome o que poderia abastecer ¼ da população de Goiânia. O pior é que, com as altas temperaturas, a maior parte da água que é aspergida evapora antes mesmo de tocar o solo”, explica Luziano Carvalho, titular da DEMA. “Tem que ter essa responsabilidade, para que não haja desperdício. As pessoas precisam entender que acabou o momento de água em abundância”.
No campo, esse não é o único problema. De acordo com o delegado, muitos pecuaristas ainda insistem em fazer a dessedentação do gado nos mananciais. “A constante passagem do gado no mesmo local, provoca uma curva de nível, ou seja, vai fazendo o trieiro e vai só abrindo o solo, cria-se uma erosão. Quase todas as voçorocas de Goiás tiveram essa origem”, conta. Para Luziano, a solução é deixar o gado matar a sede longe do veio d’água. “A gente sugere que se faça um bebedor no meio do pasto. Em muitas regiões, usa-se uma mangueira que leva esse recurso hídrico e controla o abastecimento”, explica.

Uso racional é importante
Cynthia Fernandes é exemplo de cidadã que faz uso adequado e racionalizado da água potável. De acordo com ela, a educação ambiental vem de berço. “Colocamos baldes para aproveitar a água da chuva, e usamos para lavar a garagem e a casa. Usamos até mesmo como forma de descarga. Tenho a preocupação na hora de usar a pia, para lavar vasilha. Ensaboo tudo, antes de enxaguar. Além disso, faço um processo anterior em que tiro o maior volume possível de sujeita, para diminuir a quantidade de detergente, pois atrapalha no processo de tratamento do esgoto depois”, conta.
Para Paulo Roriz, atitudes como essas são essenciais, pois contribuem com o Poder Público e demonstram responsabilidade social. “Não pode desperdiçar água, tem que reutilizar. Não pode jogar resíduos sólidos nas águas pluviais, nem nos sistemas de esgoto. Não pode impermeabilizar solo. O saneamento básico envolve tudo, desde o abastecimento, até a drenagem e as campanhas de saúde pública. Isso tem que ser desenvolvido de maneira conjunta entre Governo e população”, indica o docente de Engenharia Civil.
No interior do Estado, algumas cidades já começam a desenvolver programas para melhorar essa questão. A Prefeitura de Catalão, por exemplo, está acelerando um projeto para construção de uma barragem, com capacidade de armazenamento de 3,5 bilhões de litros de água. Além do investimento, os moradores são orientados sobre o uso racional da água. Neste sentido, um projeto de lei foi aprovado para tornar passível de multa quem persistir com o desperdício. A aplicação das multas deve começar ainda neste mês de fevereiro.
Luiz Novo, superintendente de Marketing da Saneago, explica que a empresa tem se preocupado em desenvolver ações de conscientização nesse sentido. “Nós sempre temos colocado que para termos a manutenção dessa situação confortável, precisamos mudar nossos hábitos de consumo. Isso não quer dizer fazer sacrifícios, mas cultivar pequenas atitudes, como um banho com tempo reduzido”, pontua. Para ele, é dessa forma que se contribui com a sociedade. “O mundo está passando por mudanças e isso é extremamente importante no sentido de evitar uma crise maior”, alega.
O professor de Hidrologia, Paulo Roriz, acredita que é preciso disseminar campanhas educativas. “É necessário que se tenha uma postura técnica com bastante engenharia e lucidez tecnológica e educação para preservar o que se tem hoje”, afirma. Mas, na opinião do docente, a humanidade já provou que prefere aprender com os erros. “A experiência humana mostra que a sociedade prefere destruir primeiro, para depois reconstruir. Temos muitos exemplos. Eu só espero que, em Goiás, a gente consiga evitar o mal antes que ele se instale, de fato”, enfatiza.

 

 

 

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