“Hoje os estudantes têm pouquíssima leitura”

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Etapa decisiva para a aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o resultado da prova de redação da última edição do processo seletivo provocou espanto. Aproximadamente 9% dos estudantes foram reprovados, pois, obtiveram nota zero na redação. Ou seja: 529 mil candidatos zeraram a prova. Em 2013, foram 106 mil nesta situação.

Segundo informações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), a nota da redação é zerada quando há informações desconexas no texto; quando ela está em branco; quando o candidato escreve menos de sete linhas; quando o participante desrespeita os Direitos Humanos; e quando não segue o tipo de texto exigido na prova.
Apesar do tema sugerido este ano  ter causado estranheza entre muitos candidatos, especialistas acreditam que o alto índice de reprovação não tenha ocorrido por esse motivo. A prova, que teve como tema gerador “Publicidade infantil em questão no Brasil”, trazia em seu enunciado um conjunto de informação sobre o assunto. Segundo especialistas, o texto de apoio contribui para direcionar os candidatos para o desenvolvimento correto do texto. No entanto, não foi isso que aconteceu com um grande número deles.
 A pedagoga Carmem Silvia Neves Carvalho,que é mestre em Educação, Linguagem e Tecnologias, concedeu entrevistada ao Escola e falou um pouco a respeito do desempenho dos estudantes na redação do último Enem. Segundo a educadora, esse resultado é apenas um reflexo da educação oferecida hoje nas escolas e da falta de reconhecimento do docente pelas instituições e governos. De acordo com Carmem, muita coisa deve ser transformada na educação para que ela seja reconhecida como ideal e de efeito significativo. Algo que para ela passa por um novo olhar sobre as políticas públicas educacionais. Confira a entrevista.

Qual a sua opinião em relação ao alto índice de reprovação na redação do último Exame Nacional do Ensino Médio?
Acredito que o índice de reprovação na redação do Enem 2014 reflete uma realidade vivenciada há tempos. Temos um profundo descompasso entre o que os alunos “comprovam” saber, mediante a conclusão das etapas de ensino e o que realmente sabem. Nosso processo de alfabetização é sofrível. Hoje os estudantes têm pouquíssima leitura, conhecimento de mundo e autonomia moral e intelectual. Além disso, temos excelentes professores, mas também temos profissionais com pouca experiência epistemológica e desestimulados e que estão em sala de aula com esse processo de troca de aprendizado.

Acredita que a escolha do tema central tenha sido influenciador para que esse número fosse alto?
O tema colocado esse ano tem uma vertente muito interessante, que abre espaço para reflexões sobre o cotidiano e as ferramentas de comunicação. Todavia, é um tema que exige um mínimo de conhecimento de mundo, criticidade e autonomia intelectual. Sem leitura, sem desenvolvermos criticidade em nossas aulas, qualquer tema que fuja do óbvio trará resultados como este do Enem.

Faltou preparo dos professores e alunos sobre essas questões atuais?
Não digo fala de preparo, mas acredito que enquanto não pensarmos num processo de valorização do profissional, de formação continuada e de um ambiente favorável pra o trabalho docente, teremos poucas chances de avançarmos na qualidade real de nossa educação.

A senhora acha que alguém pode ser culpado em relação a esses resultados? Governo? Alunos? Professores?
Não creio que devemos procurar culpados. Necessitamos de fato e de direito assumirmos responsabilidade no processo. Pais, alunos, sociedade, governo e professores, ou seja, todos os atores educativos são responsáveis. Ter uma vaga para estudar não é suficiente! Precisamos de escolas que realmente tragam aos alunos condições de desenvolvimento amplo. Precisamos da assunção da família neste processo, de acompanhamento, incentivo e responsabilização dos filhos sobre suas atividades escolares e sociais, precisamos de professores estimulados, comprometidos e com capacidade didática e científica para atuar com a utilização de metodologias e práticas pedagógicas eficazes. Necessitamos de um novo olhar sobre as políticas públicas educacionais, passando pela valorização dos profissionais da Educação, do redesenho dos currículos da formação de professores nas Universidades e, de uma proposta curricular para a Educação básica que seja constituída na autonomia e criticidade.

O que os educadores podem faze para que isso não volte a acontecer?
Este é um processo de responsabilização não apenas dos professores. Mas algo fundamental é que os professores se envolvam de fato em processos de formação. A profissionalização docente é algo fundamental neste movimento.

Há um despreparo dos alunos para realizarem provas como a do Enem?
Sim. Se não desenvolvem o raciocínio crítico-reflexivo não serão capazes de fazer uma análise de questões que envolvam o consumismo e a publicidade voltada para a infância, não conseguirão fazer um elo entre os direitos das crianças e o uso da mídia, não serão capazes de sustentar uma argumentação sem antes construírem esquemas de pensamentos a partir de uma atitude reflexiva e autônoma.

Como você enxerga o nível dessas avaliações aplicadas?  É uma prova de fato bem elaborada?
Algumas questões são bem elaboradas. Outras são dúbias. Todavia, reitero, precisamos modificar nossa metodologia em sala de aula, estimulando mais o desenvolvimento das competências gerais.


Quem é e o que faz?

 

Carmem Silvia Neves Carvalho é mestre em Educação, Linguagem e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Pós-Graduada em Docência Universitária pela UNIVERSO. Especialista em Educação a Distância. Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual de Goiás (2003). Atualmente é Coordenadora de Educação a Distância do IPOG, professora e orientadora do IPOG. Já trabalhou como Professora Responsável pelas orientações dos trabalhos de conclusão de curso de Pós-Graduação da Faculdade Ávila. Professora de Metodologia Científica. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: fazer pedagógico, cidadania, criticidade, reflexão e novas tecnologias. Também atua como consultora, palestrante, escritora e gestora coach. Coach. Especialista em Inteligência Emocional com ênfase em desenvolvimento humano e de práticas sistêmicas.

 

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