Não é brincadeira!

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Bullying e Cyberbullying são palavras que estão cada vez mais em destaque no ambiente escolar. O termo bullying não possui uma tradução para o português, mas é definida como uma forma de violência, agressão, perseguição. “É uma ação repetitiva, intencional, que acontece dentro de um ambiente escolar. Normalmente, parte de um aluno contra o outro, ou de um grupo de amigos contra outro. É uma prática que causa muita dor e sofrimento para a vítima”, explica o mestre e doutorando em Sociologia, Alexandre Malmann, idealizador do projeto Terra sem Bullying.

O bullying tem o poder de provocar grandes transtornos na vida de quem é agredido. E quando essas agressões vão para o espaço virtual, se torna mais difícil de exercer o controle sobre o problema. Segundo Alexandre, com o advento das tecnologias de comunicação, houve um crescimento dos casos de cyberbullying, que é o bullying na internet. “No ambiente virtual é pior, pois isso é elevado a uma potência muito grande. Com o anonimato de quem está agredindo, as consequências são ainda mais graves em relação ao bullying em si”, explica.
O número crescente de acesso por parte dos jovens a aparelhos como os smartphones, por exemplo, contribui para potencializar a prática de cyberbullying em redes sociais como whatsApp e Facebook. “O whatsapp é um dos aplicativos de troca de mensagens e imagens que é mais acessado do Brasil. E nesse tipo de plataforma existem grupos que são criados para denegrir ou acabar com a imagem de algum professor ou aluno. É o que mais se vê”, conta Alexandre.
No meio virtual, mensagens com imagens e comentários pejorativos se alastram rapidamente e tornam o cyberbullying ainda mais perverso. A partir de então, o efeito de uma agressão é ampliado inúmeras vezes e a vítima passa a se sentir ainda mais acuada, conforme explica Alexandre. “No cyberbullying, o terror continua o tempo todo, é potencializado e tem várias formas dessa violência acontecer. Pode ser apenas por meio de uma imagem, como, por exemplo, de uma menina gordinha ao lado de uma baleia. Ou pegar a foto de uma menina magra e utilizar algum recurso para denegrir a sua imagem. Ou de mensagens de terror mesmo: como colocar que vão agredi-la, pegar ela na rua, atropelar. Isso tem um potencial mortal”, acrescenta o pesquisador Alexandre Malmann.

Diálogo pode ajudar
Esclarecimento e educação são as principais armas para lutar contra a disseminação do bullying e do cyberbullying, mas primeiro é preciso identificar e perceber que tem algo acontecendo. Alexandre Malmann explica que a mudança de comportamento da vítima é o primeiro sintoma para desconfiar de que há algo errado. “As vítimas muitas vezes têm características bem semelhantes, são mais tímidas, não sabem lidar com a pressão, se retraem, mudam de comportamento repentinamente”, conta.
Diante dos casos de agressões sofridos, nas escolas os alunos começam a ficar mais tempo com adultos e professores do que com seus colegas de sala. Alexandre destaca que os pais também precisam estar bem atentos e perceber essa mudança em seus filhos. “Se a criança não quer mais mexer no computador, chora quando vê algo no celular, são características claras de que tem alguma coisa acontecendo. O que os pais e professores devem ficar atentos, é que em cada dez vítimas, apenas uma diz alguma coisa sobre o problema. É um índice muito pequeno para quem precisa de ajuda, mas muitas delas têm medo de pedir” explica.
Quando se fala em bullying e cyberbullying, muitos pensam que só existem dois envolvidos: o agressor e a vítima, porém, Alexandre alerta que existe um terceiro personagem que é fundamental na hora de tratar essas relações. “O espectador tem um papel muito importante. Porque se tem plateia, o agressor vai continuar fazendo, cabe ao espectador assumir aquilo que é errado e não fazer parte”, relata Malmann.


Amparo é fun­da­mental

 

Trabalho de escuta, orientação, acompanhamento e discussão do problema são essenciais nas situações de descoberta das agressões. “Tem uma tendência hoje de que tudo tem que ter punição, mas não é por ai. O agressor também é uma vítima da sociedade, além de ter um desvio comportamental”, diz Malmann. E considera que no cyberbullying, em específico, é preciso descobrir quem é o agressor e fazer com que este peça desculpas.
De acordo com o educador, a atitude vai gerar uma reação positiva em todos os envolvidos e, principalmente, para quem comete a agressão, que ficará desconfortável com a situação.  Quando o pedido de desculpa não for possível, o educador acredita que outro caminho para retratação poderá ser o campo judicial. “Ações realizadas nas escolas com foco na prevenção e proliferação da paz, entendimento das diferenças – onde o aluno possa se colocar no lugar no outro, também são fundamentais. Além disso, trabalhar valores e ética por meio de filmes. Com dinâmicas também pode-se conseguir bons resultados”, acrescenta Malmann.


Boas práticas ajudam

 

 

Algumas instituições vêm apostando em projetos de conscientização para tentar amenizar e até por fim nas ações de bullyIng e cyberbullyIng, como é o caso da Escola Municipal Ernestina Lina Marra, em Goiânia, que há três anos trabalha com o Programa ‘Escola da Inteligência’, idealizado pelo psiquiatra Augusto Cury. Desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (SME) de Goiânia, o Programa visa desenvolver a inteligência emocional, a saúde psicossocial e a construção de relações saudáveis entre os alunos, a partir de aulas semanais e específicas.
A professora de Língua Espanhola Andréia Gonçalves é uma das educadoras que está à frente do projeto na escola. “O que eu acho interessante é o que propõe o projeto. Faltava um momento para discutirmos situações de violência na escola. E também acabamos abordando situações conflituosas nos lares que acabam eclodindo na própria escola”, conta Andréia.
Entre as propostas do programa desenvolvido na escola, estão: desenvolver a educação socioemocional no ambiente escolar; promover por meio da educação das emoções e da inteligência a melhoria dos índices de aprendizagem; redução da indisciplina; aprimoramento das relações interpessoais e o aumento da participação da família na formação integral dos alunos. Andreia conta que nas aulas do projeto inicialmente foi deixado claro o que era o bullying e depois o assunto começou a ser trabalhado com os estudantes.
“É o momento de expor dúvidas, dificuldades, conflitos, respeitar o outro, se colocar na posição do outro e tentar entendê-lo. O bullying é grave e precisa ser combatido”, explica Andreia.
Sheila Freires é professora de Ciências e também está à frente do projeto na instituição de ensino. “Ensinamos os alunos a aprender a respeitar o outro, a compreender que o espaço de um termina onde começa o do outro. E que ele (aluno) precisa respeitar o próximo, em todos os aspectos”, relata Sheila.
Na escola Ernestina Lina Marra algumas práticas comuns entre os alunos são tratadas logo na base, a fim de evitar que o bullyng aconteça. “Tudo começa numa brincadeira, num apelido, mas aqui nós combatemos isso desde o início. As aulas do projeto estão trazendo bons resultados”, conta Sheila. Quando uma situação envolvendo bullyng é detectada, as professoras fazem o acompanhamento do aluno de maneira individual e depois coletiva. “Ele já está se sentindo de certa forma excluído, então resgatamos esse aluno e trazemos para perto dos demais no grupo, porque  somos um grupo e temos que aprender a nos respeitar”, explica Sheila.

Problema amplo
O bullyng e cyberbullying não é um problema só da escola, também é familiar. Todos precisam estar atentos ao problema. E combater o bullying é combater o cyberbullying. Nesse sentido, o Escola da Inteli­gência envolve os alunos, pais e professores para que todos possam lutar para combater todos os atos que ferem a pessoa humama, formando e informando os alunos.
“Muitas vezes o problema do bullying vem de um histórico de baixa autoestima que a pessoa carrega, e isso tem que ser trabalhado. Continuamos a ter conflitos, mas são fatos isolados, porque diminuiu bastante. E como levamos o assunto para a sala de aula, agora os alunos têm outra percepção”, explica Andréia.


Jovens aprovam iniciativa

 

De acordo com as educadoras envolvidas no projeto Escola da Inteligência, a iniciativa tra­balha bastante com a autoestima dos estudantes. “Eles precisam ter confiança no valor deles para que possam enfrentar qualquer tipo de ataque que venham a sofrer”, destaca Lindamar Freitas, coordenadora pe­da­gógica na Escola Municipal Ernestina Lina Marra.  
“É um trabalho que a escola vê com olhos de muito amor e é de muita importância para a sociedade. É um momento de muito aprendizado para os meninos, nós vimos progresso com o grupo do projeto, nós vimos resultados, os alunos são outros. Estou na escola há 12 anos e esses três últimos anos com o projeto nós tivemos um progresso muito grande”, acrescenta a coordenadora pedagógia.
Jennifer Lia, 14 anos, aluna da instituição de ensino, lembra que já foi vítima de bullying. O motivo: ser muito magra, disse ela. “E as pessoas começaram a me atacar, colocaram apelidos em mim. Mas eu não me fechei, eu contei para o meu pai o que estava acontecendo. Isso não me atinge mais porque eu aprendi que cada indivíduo é único. Se a gente for julgar os outros pelas diferenças, o que vai acontecer com o mundo?”, questiona a estudante.
Já o jovem Jemerson Ezequiel, 14 anos, comenta que às vezes os colegas também colocam apelidos nele. “Mas se eu coloco um apelido neles, não aceitam. Então eu digo que se eles não aceitam ter apelidos, não coloquem em mim.  Eles dizem que meu apelido é normal, mas eu falo que não é! Apelido é tudo apelido, uma forma de bullying”, reclama o jovem.
Outra estudante da instituição, Kelly Cristinna, 14 anos, diz que também já sofreu o mesmo desconforto dos colegas. “E quando eu reclamo com essas pessoas, me chamam de ignorante. Isso machuca. Acho que todas as escolas deveriam falar com os alunos sobre o bullying. Isso é algo muito ruim”, desabafa a estudante .


Chega de bullying

 

Preocupado com o aumento do bullying, que está afetando um número cada vez maior de crianças na América Latina, o Cartoon Network lançou recentemento uma grande campanha multiplataforma, chamada ‘Chega de bullying, não fique calado’. A iniciativa foi desenvolvida pelo Movimento Cartoon, o braço de responsabilidade social do canal e visa conscientizar e reduzir o bullying entre os jovens na região.
De acordo com pesquisas conduzidas pela  Plan International e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), disponibilizada no site da campanha, entre 50% e 70% de todos os estudantes da América Latina já testemunharam ou sofreram bullying.
Acreditando em era preciso dar mais atenção a esse assunto, eles disponibilizaram em seu site chegadebullying.com.br cartilhas de como agir diante das situações. Ensina também as pessoas a se unirem em ações para proteger as crianças de qualquer tipo de violência, além de dicas para estudantes, pais e educadores de como identificar o problema, como agir, prevenir e lidar com a situação.

 

 

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