Instabilidade econômica

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A disparada do dólar nos últimos meses assustou. Na última sexta-feira (20), a moeda norte-americana voltou a bater recorde em 10 anos, fechando com alta de 0,46% a R$ 2,879. Esse foi o valor mais alto registrado desde outubro de 2004. De acordo com especialistas, o principal fator de instabilidade no mercado internacional foi a reunião dos ministros das Finanças da zona do euro, que discutiram a prorrogação do acordo de resgate da Grécia, que pede o relaxamento das medidas de austeridade.

Outro fator que alertou os investidores, foi o anúncio do governo chinês sobre a entrada em vigor do acordo firmado entre China e Rússia para uso do yuan e do rublo nas transações comerciais entre ambos. A medida foi adotada pelo Banco Popular da China em comum acordo com o Banco Central de Rússia. O objetivo é fugir da instabilidade do Dólar e também evitar problemas de liquidez com a divisa dos EUA.
Para o professor Flávio Guerra, economista e especialista em Finanças, esta é mais uma das tentativas impelidas por alguns países para quebrar a hegemonia do dólar. “O que se tenta é negociar em outras moedas, deixando o dólar de lado. Mas, é uma moeda que o mundo inteiro aceita e essa quebra dificilmente ocorrerá. Temos o exemplo do euro e da libra esterlina, que são muito fortes na Grã-Bretanha e na Europa, respectivamente, mas que não alteram essa situação”, destaca Guerra.
Everaldo Leite da Silva, professor e vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (CORECON-GO), esclarece que o dólar é uma mercadoria como qualquer outra. De acordo com ele, a definição de seu valor nos países se dá pelo lado do mercado internacional, frente às expectativas do mercado nacional. “A instabilidade advém hoje de uma ideia que os EUA irão aumentar os seus juros, o que faz repatriar o dólar em função da diminuição das incertezas futuras”.
Leite comenta que, do ponto de vista de investidores e especuladores, a elevação dos juros americanos, por si, determinará uma redução da atividade econômica em escala mundial, mas, notadamente, deixará países em desenvolvimento em situação frágil. “Da fragilidade à solidez, o melhor é levar o dinheiro para onde há segurança. Quanto à instabilidade do real, esta se deve em grande parte às escolhas equivocadas de políticas nos últimos 12 anos”, assevera.
A situação econômica pela qual o Brasil está passando tem forte influência nessa instabilidade que, para Flávio Guerra, professor do IPOG -  Instituto de Pós-Graduação e Graduação (IPOG), não é da moeda dos EUA, mas sim do real. “Primeiro, temos um dólar que está se valorizando perante outras moedas, devido ao desempenho da economia do país. Agora, quando trazemos para o real, vemos que a nossa moeda desvaloriza-se devido a situação complicada de dívida muito elevada e déficit de transações correntes”.
O também economista Everaldo Leite explica que a tendência é que o dólar fixe-se num patamar mais alto, com oscilações pontuais. De acordo com ele, isto se deve à perspectiva de redução da taxa de juros norte-americana e às incertezas deixadas pela política econômica brasileira. “O dólar tem sido um modo de conservação de valor e também de especulação, e este espírito deve se manter durante todo o ano de 2015 e início de 2016”, afirma.

Aumento da inflação
Outro fator que está deixando todos alerta é a possibilidade de aumento da inflação. A preocupação vem do fato de que esta alta cotação do dólar no Brasil pode influenciar o aumento dos preços de produtos manufaturados e alimentos, já que o problema não é lá fora, como assegura Flávio Guerra. “O dólar não está instável. O problema é aqui, é o Brasil. Não adianta querer passar essa conta para o restante do mundo, a crise é em função das políticas econômicas adotadas”, argumenta o professor.
O risco de ter aumento da inflação no país com o dólar alto é muito grande, de acordo com Guerra. Ele explica que os produtos são cotados na moeda estrangeira e é por essa razão que a tendência é que as contas no supermercado subam um pouco. “O trigo que faz o pão que a gente compra é cotado em dólar. A soja é cotada em dólar. Tudo é cotado em dólar. Então, quanto mais caro o dólar frente a economia local, pior para a sociedade”, exemplifica.
Para os exportadores, no entanto, a notícia não é tão ruim. Alguns economistas acreditam até que esse recuo da moeda brasileira frente a norte-americana pode ajudar a alavancar o setor industrial no Brasil. Everaldo Leite explica que para a exportação de commodities agrícolas, a princípio, poderá ser positivo. “Entretanto, no médio prazo, no período de aquisição de insumos, o desembolso será maior”, alerta.
De acordo com o vice-presidente do CORECON-GO, as commodities minerais, por sua vez, poderão se beneficiar mais, uma vez que seus preços são estabelecidos no mercado internacional. Por outro lado, Leite assinala que o dólar elevado incidirá nos preços de bens e serviços, causando inflação de custo. Ele observa que a manutenção da taxa de juros será prejudicada no Brasil. “É uma questão difícil, não face apenas à inflação, mas para sustentar reservas em nível confortável. Isto leva a uma recessão mais profunda e a estagnação geral”.
Agora, para o importador, a situação é bem diferente. “Para o exportador é bom, pois o produto brasileiro chega lá fora mais competitivo. Agora, para o importador é o contrário, pois tudo virá com um preço muito mais elevado”, comenta Flávio Guerra. Alguns empresários do setor industrial veem isso com bons olhos, pois pode desestimular as compras no exterior, que subiram muito nos últimos anos, e aquecer o comércio interno.
Esta visão, no entanto, é vista com ressalvas pelo economista Everaldo Leite. Para ele, no sentido de reduzir os efeitos da elevação do dólar, cabe às empresas privadas priorizar o fornecimento da maior parte de seus insumos no mercado interno. “Infelizmente, isso não se resolve no curto prazo, pois são necessários investimentos impo­s­síveis de se realizar de afogadilho. Mas, uma busca por insumos no mercado regional da América do Sul também pode resultar em algo bom”, pontua.
De fato, quem sofrerá mais com os efeitos da instabilidade econômica são os pequenos e médios empresários. Segundo Everaldo Leite, eles terão de repassar automaticamente qualquer elevação de custos e isso poderá desaquecer seus negócios. Para Flávio Guerra, tudo isso é resultado da irresponsabilidade das políticas adotadas nos últimos doze anos. “Esse Governo colocou a nossa conta pública no chão, acabou com a estabilidade fiscal do país. Não foi feito o que deveria ser, nem energia para crescer temos”, protesta.
O economista acredita que para consertar a situação, a primeira medida seria colocar as contas do País em dia. “A primeira coisa é organizar a bagunça que eles criaram. Hoje, se tem um gasto público extremamente elevado, então tem que reduzir”, aponta. Além disso, segundo Guerra, é necessário reverter a situação do déficit fiscal e reduzir o endividamento que está muito elevado. “Precisamos de uma reforma ao lado da previdência e precisamos entender que a carga tributária no país é muito alta, então precisa haver uma reforma”.


O cenário em Goiás

 

Os efeitos da desvalorização do real frente ao dólar não vão passar despercebidos no estado. De acordo com Everaldo Leite, os insumos para a indústria metal-mecânica e farmacêutica, por ser em grande parte importados, sofrerão aume­n­to nos preços e o efeito recessivo poderá causar desemprego em municípios como Anápolis, Aparecida de Goiânia e Catalão.
O vice-presidente do CORECON-GO acredita que o setor agrícola e a indústria de alimentos e bebidas não deverão ser muito impactados, a princípio. “O problema é que não permitirão facilmente novos investimentos de instalação e expansão, e também as contratações de mão de obra devem ficar comprometidas por um tempo”, assinala. Por essa razão, Leite sinaliza que o Governo do Estado precisa cumprir uma agenda de eficiência na gestão, com uso de melhores técnicas e tecnologias em substituição de um velho sistema burocrático.
“A boa intenção do governador Marconi Perillo em efetuar uma reforma administrativa não considerou isto antes de sua execução”. Leite sinaliza que o fato de o Governo do Estado não ter levado essa possibilidade em consideração irá resultar em gargalos nas áreas meio e, consequentemente, efeitos negativos nas áreas fins, que são aquelas que o governo pretendia melhorar.


Opção de investimento

 

 

Num momento de incertezas no mercado nacional, os investidores tendem a pular fora do risco, neste caso o Brasil. Mas, para quem está interessado em resguardar seu patrimônio, há opções de investimento que oferecem menos risco na hora do resgate. De acordo com Leonardo Fernandes, agente de investimentos da Lhx Ações & Mercado, os melhores produtos nesse caso são os chamados de renda fixa.
“São aqueles que você sabe exatamente quanto vai ganhar na negociação, diferente da renda variável, como é o caso das ações e renda imobiliária”, explica. Fernandes afirma que a grande aposta do momento são as  Letra de Crédito do Agronegócio  (LCA) e Letra de Crédito Imobiliário (LCI). “São idênticos, só muda o destino. Você empresta dinheiro para o banco, para o banco emprestar. Tem isenção de IR como a poupança, mas rende o dobro”, expõe.
Flávio Guerra, economista, também aposta nesta ideia. “Como o juro interno está muito alto, o ideal seria investir em renda fixa, título público federal, fundos de investimentos, título de renda fixa na carteira”, enumera. Para Guerra, o momento da economia nacional é de proteger o patrimônio, ou seja, ser conservador. “Não é hora de se aventurar em ações e bolsas de valores. O momento não é para o risco”, assinala.
De acordo com Leonardo Fernandes, o investimento em Letras de Crédito tem rendido pouco mais de 12% ao ano. O valor é líquido, pois é isento do Imposto de Renda. Para o agente de investimentos, é uma boa opção para quem não quer se arriscar no mercado de ações. “Retorna uma boa remuneração para o capital do cliente, sem aumentar o risco para ele, porque é resguardado pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC)”, comenta.
Este é um ponto que traz ainda mais segurança para o investimento, pois mesmo que seja realizado numa instituição financeira que venha à falência, o valor é resguardado em até R$ 250 mil. As LCA e LCI podem ser feitas em qualquer instituição financeira, mas para o agente buscar uma orientação nunca é demais. “A minha função é apresentar ao meu cliente todas as alternativas, para satisfazer as suas necessidades”, assegura Fernandes.
As Letras de Crédito não têm restrição, qualquer pessoa pode fazer o investimento. Funciona assim: o valor estipulado fica travado pelo banco durante um período combinado. O montante pode ser retirado apenas após o vencimento. “Pode ser para qualquer pessoa, desde que possa ter o dinheiro travado de 30 dias a 2 anos. Só não vai servir para quem precisa do dinheiro a qualquer momento. Não é um produto inacessível”, aponta Fernandes

Segurança da tradição
Para muitos, contudo, a segurança está na aquisição de imóveis. A tradição de adquirir bens imóveis vem de tempos antigos e para Gilmar Rodrigues Novaes, 50 anos, analista de sistemas, ainda é a melhor opção de investimento a longo prazo. “Imóveis eu acho que é o melhor investimento que tem. Por exemplo, você pode investir em comprar lotes e no tempo que puder pode construir, e com certeza vai valorizar”, explica.
Para Gilmar, ter um bem imóvel assegura maior estabilidade econômica e, é por essa razão, que ele sempre procura investir nesse sentido quando sobra um dinheirinho extra. “Não é um investimento a curto prazo. Mas, se você tem um patrimônio consegue passar pela crise com mais facilidade. Para mim, a melhor opção seria essa”, alega. De acordo com ele, não precisa se endividar para construir o patrimônio. “Não precisa arriscar, mas comprar aquilo que está dentro do capital que você tem disponível”, orienta.
O analista de sistemas acredita que investimentos de risco não são necessários. “O segredo é começar de pouco. É essencial, até porque estamos vendo a situação financeira. Ninguém consegue um patrimônio de uma hora para outra. E ficar endividado num momento como esse não é o caminho certo. Mas, fazer um investimento com os pés no chão, pensando que é a longo prazo”, conclui.

 

 

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