“Perde-se com a seca e depois se perde com a chuva”

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Tribuna do Planalto – A senadora Kátia Abreu foi nomeada para o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA). É um bom nome?

José Mário Schreiner – Eu tenho a convicção que é um dos melhores nomes para o ministério. É uma pessoa que conhece a vida no campo e os desafios da produção rural de dentro da porteira. Apesar de não pertencer a sua pasta, ela conhece muito bem os desafios de logística que temos no Brasil. E além do mais, ela também conhece muito bem o mercado mundial. Tanto do ponto de vista do abastecimento interno da população brasileira, como o mercado internacional. Eu não vejo um nome mais apropriado para ocupar o MAPA que o da ministra e senadora Kátia Abreu.

Um pouco antes da sua posse, ela fez uma afirmação que se tornou uma grande polêmica, que “no Brasil não existe latifúndio”. A gente sabe que isso não é verdade. Dados do INCRA apontam que há cerca de 130,3 mil latifúndios no Brasil. Na sua opinião, o que isso representa sobre o posicionamento dela?
Nós temos que ver de que âmbito se analisa esse latifúndio. Qual o conceito que se utiliza para isso. Propriedades maiores, extremamente produtivas, tecnificadas, com alta produtividade e responsabilidade social são consideradas latifúndios? No nosso entendimento, latifúndios são áreas extensas e improdutivas. E isso, realmente, no Brasil é uma raridade, hoje. Talvez, os grandes latifúndios são as áreas públicas que se concentram na região Norte do Brasil. Mesmo porque, hoje, na distribuição do território nacional, apenas 27% é usado para a produção rural, distribuídos entre produtores de maior, médio e menor portes. No nosso entendimento, ao invés de entrar em discussões ideológicas, temos que observar o produtor. No Estado de Goiás, temos 15% dos produtores respondendo por 85% da produção. Então, esse é foco da discussão e é a preocupação da senadora Kátia Abreu, de pegar os produtores da classe C e alavancar eles para as classes A e B, e pegarmos também os produtores das classes D e E, e alavancá-los para as classes B e C.

Esses produtores menores, poderiam ser classificados dentro da Agricultura Familiar?
É um outro conceito que a gente vê com ressalvas, pois querem dividir: agricultura familiar X agronegócio. Todos são agricultores e produtores. O meio rural não diversifica nada. São conceitos criados no Brasil que tentam dividir as classes, como se uma fosse a do bem e a outra a do mal. Não é bem por aí. Nós temos que ver que todos nós somos produtores, com propriedades menores, médias e maiores.

Recentemente, a Tribuna entrevistou o sr. Alair Santos, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Goiás (FETAEG). Na ocasião, ele comentou que a “Kátia Abreu não é um bom nome para a agricultura familiar…”
Eu diria que a ministra Kátia Abreu, pelo conhecimento que ela tem, e pelo conhecimento que eu tenho dela, sem dúvidas nenhuma não faz essa divisão. Aliás, ela é uma pessoa que desenvolveu programas sociais fantásticos à frente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (FAET). Eu não vejo isso como uma ameaça para a agricultura familiar de forma nenhuma. Agora, uma questão é você cuidar da agricultura, e outra é você trabalhar as questões fundiárias, como, por exemplo, o direito à propriedade. Nós temos uma visão muito clara, somos a favor do direito à propriedade, que está na Constituição do Brasil. Somos contra a invasão de terras.

Então, o senhor não é a favor da Reforma Agrária?
Não, não. Eu sou a favor da Reforma Agrária, sou contra a invasão de terra. Porque invadir terra é contra a lei e nós temos que ser a favor da lei. O direito à propriedade está na Constituição. Invadir terra é crime!

E a distribuição de terras, como fica? São conceitos, conceitos. O que é um latifúndio?

No começo da entrevista, falamos sobre dados do INCRA que apontam que há cerca de 130,3 mil latifúndios no Brasil. Há uma pesquisa da Associação Brasileira da Reforma Agrária que estima que ao menos metade dessas grandes propriedades, que concentram uma área superior a 244,7 milhões de hectares, são improdutivas. E, por sinal, são dados que se referem apenas aos imóveis rurais privados, excluídas as terras públicas ou devolutas…

Eu não vou entrar nessa questão polêmica. O INCRA tem o pensamento dele, tem os números dele. Eu não vou entrar nisso, porque eu conheço a realidade do campo no Brasil. E o INCRA tem uma visão que é dele! Eu não vou contestar, mas também não vou concordar com os números que eles falam.

Bem, no caso da estiagem, os dados, incluindo da própria FAEG, mostram que houve aproximadamente R$ 1,25 bilhão de prejuízo somente em Goiás, certo?
É, já deve ter ultrapassado.

Mas, vimos a ministra Kátia Abreu afirmar que a estiagem não está afetando a produção no Brasil. Não é incoerente?
Não. É justificável.

Por quê?
Infelizmente, Goiás pelo segundo ano consecutivo enfrentou problemas climáticos. Isso nunca havia acontecido. Às vezes, um probleminha localizado aqui ou ali. Mas, desta vez foi geral e já vem há dois anos. Nós devemos ter aí uma perda de 12%, que vai significar talvez 1,5 milhão ou 2 milhões de toneladas… Ainda é cedo para fazer o fechamento desse número. Agora, talvez para o Brasil esse percentual de perda em Goiás não seja significativo. É um percentual pequenininho. Veja bem, é como se dois vizinhos, um com cem cabeças de gado que perdeu uma, ou seja, 1%, e o outro com apenas duas cabeças de gado que perdeu, também, uma, mas isso representa 50%, é metade.

Mas, isso não preocupa?
Com certeza, é uma grande preocupação nossa. Porque existe perda na base primária da produção e, consequentemente, na agregação de valor, na industrialização, no processamento, na transformação, na geração de empregos e de renda para o Estado. O que nós fazemos, então, é alertar o que está ocorrendo, até mesmo para que se possa buscar alguma solução para esses casos. Agora, o resultado final, só após a colheita que vamos poder medir de uma forma mais certeira. Existe uma perspectiva que, infelizmente, não é boa. E pode inclusive agravar-se, afetando o PIB do Estado, haja vista que quase 70% é proveniente da atividade.

A superintendente de Políticas e Programas do Sistema de Meteorologia e Hidrologia (Simehgo), Rosidalva Lopes, comentou que as chuvas estão vindo no momento errado. No sentido de que, na hora da semeadura não choveu e há possibilidade de chover na hora da colheita. O senhor acredita que ainda vai haver um impacto muito grande devido a isso?
A grande preocupação que eu, particularmente, tenho é que comece um período chuvoso e aquela soja que está boa para colher, se perca. Eu tenho esse temor. Porque, pode até faltar bastante chuva num mês, mas normalmente o ciclo se completa, ou seja, a precipitação vai acontecer, a distribuição que está mal feita. Pode ocorrer isso, sim. Não tenho os dados meteorológicos de março, mas pode ocorrer e eu tenho um temor muito grande com relação a isso. Perde-se com a seca e depois se perde com a chuva.

Qual a maior dificuldade do setor agropecuário hoje?
Eu diria que, dentro da produção, é a falta de um seguro rural efetivo. Hoje, apenas 14% das lavouras de Goiás são cobertas com seguro. Mais que isso, esse seguro cobre apenas 50% do custo da produção. Temos que caminhar para um seguro que possa cobrir, no mínimo, 80% da previsão da colheita. Isso do ponto de vista da produção. Agora, temos muita dependência ainda da infraestrutura logística. E temos um caso particular, em Goiás, que é a energia elétrica, que é problema para a cidade, para o campo, para a indústria, para todo mundo. Não é raro produtores que ficam de sete a oito dias sem energia elétrica e, por isso, perdem a produção.

O que seria viável para resolver esse problema?
Investimentos. A CELG precisa retomar os investimentos, urgentemente. Ampliar as redes e a aumentar a capacidade de distribuição. As nossas redes são muito obsoletas, não possuem capacidade de suporte de carga. A luz no campo está atrasada no estado de Goiás. Nós vivemos um caos com relação a questão energética no estado. Você não consegue avançar. Tudo precisa de energia elétrica. A CELG não tem condições.

Acredita que a privatização seria uma saída?
Existem estados que privatizaram e as operadoras estão indo muito bem. Eu acredito que o Estado tem que buscar a melhor solução, se a privatização for ela, que seja. Agora, não pode ficar do jeito que está. E, principalmente, este ano que já se preanuncia o aumento de 40% na energia. Imagine, nós de Goiás, com a má qualidade da energia que recebemos e ainda sofrer com um aumento desses, aí é realmente muito difícil para o setor produtivo e para toda a sociedade.

As ministras Kátia Abreu (Agricultura) e Isabela Teixeira, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), convocaram uma reunião com os secretários estaduais de agricultura e meio ambiente recentemente. E nessa reunião, bateu-se muito na questão do Cadastro Ambiental Rural (CAR). O que é e por que é tão importante?
O CAR surgiu na aprovação do novo Código Florestal Brasileiro e é o registro da propriedade rural, uma espécie de fotografia. Todas as propriedades rurais devem ser cadastradas até maio de 2015, podendo ser prorrogado. Ele é obrigatório por apresentar essa radiografia, contendo a localização das áreas de preservação permanente, reserva legal, e as áreas de mata ciliar. O CAR atrasou muito no Brasil, em função de o PRA (Plano de Recuperação Ambiental) não estar regulamentado. Pois, se o produtor ficar devendo alguma coisa no CAR, tem que aderir ao PRA.

O jornal francês Le Monde fez críticas bastante duras a respeito da nomeação da ministra Kátia Abreu, usando expressões como “guerreira contra o lobby verde”, no sentido do enfraquecimento das discussões sobre sustentabilidade, e “papel essencial no enfraquecimento do Código Florestal”. Qual a sua leitura?
O Código Florestal foi um avanço muito grande. Tínhamos leis que colocavam o produtor rural na marginalidade. Um grande exemplo disso… A Reserva Legal do Cerrado surgiu em 1989, tornando-se obrigatório ter 20% de reserva legal em todas as propriedades. Mas, e aqueles produtores que desmataram antes de 1989? A lei retrocede para penalizá-los? Não. O Código Florestal Brasileiro veio para dar condições e legalidade. É claro que, uma lei tão complexa como essa não deixa a todos plenamente satisfeitos, porque o Brasil é um país continental e os interesses são diversos. O importante disso tudo é que haja uma lei que dê segurança jurídica para aqueles que estão trabalhando e produzindo. Não deixar os produtores rurais do nosso Brasil, que hoje seguram a economia do país. Então, essa questão do Le Monde, é algo que para mim não importa tanto. Acredito que a comunidade internacional deveria se preocupar com o meio ambiente deles. O Brasil tem maturidade para decidir o que é bom para si. O produtor rural estava vulnerável a atuação de qualquer um, até mesmo de marginais que se diziam entendidos de meio ambiente que iam lá extorquir o produtor rural. E o Código Florestal trouxe essa tranquilidade.

O senhor falou que a economia que funciona no Brasil é a agropecuária. Mas, alguns especialistas veem isso como um fator prejudicial, pois aponta para uma “reprimarização” da economia brasileira. Como o senhor vê isso?
O que a gente faz? Nós não vamos parar. A questão do agronegócio brasileiro tomou uma força muito grande. Agora, sobre o processo da reprimarização da economia, não acredito que temos que enxergar por aí. O papel que a indústria desenvolve tem que ser para suprir as necessidades da agropecuária: tratores, máquinas, equipamentos modernos, etc. É uma cadeia produtiva.

 

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