Usuários querem melhorias

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A1 02 PJNa última semana, os goianienses assistiram a uma série de manifestações contra o aumento da tarifa do transporte coletivo. A passagem, cujo valor era R$ 2,80, saltou para R$ 3,30 para linhas convencionais, o que representa um aumento de 17,85%. A nova tarifa foi aprovada pela Câmara Deliberativa de Transportes Coletivos (CDTC) e divulgada pela Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) no dia 16 de fevereiro, véspera do Carnaval.

Não faltaram depoimentos contrários ao aumento da tarifa, como o da universitária Camila Luz Abreu, 25 anos. “Eu acredito que o aumento da tarifa é um tanto quanto abusivo. Sei que o preço de tudo aumentou, e era só uma questão de tempo para que esse aumento chegasse na passagem de ônibus, mas não acho que o aumento deveria ter sido nessa proporção”, assevera a estudante de Engenharia de Controle e Automação.
A mesma opinião é compartilhada por Juliana Alves Travasso, 20 anos, estudante de Relações Públicas. Para ela o aumento não tem justificativa. “A inflação no Brasil não aumentou em porcentagem da mesma maneira que a tarifa aumentou.”, comenta.
Para alguns, no entanto, não há motivo para tanto alarde. Segundo Natália Silva, 18 anos, o aumento é justo de certa maneira. “São desses R$ 3,30 que saem o salário dos motoristas, a manutenção dos ônibus, etc. Acho justificável, pois há apenas dois anos toda a frota foi renovada. Além disso, os motoristas trabalham muito e o salário é baixo. Eu me coloco no lugar deles e, pensando a respeito, concluo que é justo, sim”, afirma a estudante.
O problema da tarifa, contudo, não é o valor mas o modelo em que o transporte coletivo está baseado hoje. Essa é a opinião da arquiteta Erika Cristine Kneib, doutora em Transportes e coordenadora do Fórum de Mobilidade. De acordo com ela, o usuário pagante é responsável por custear todo o sistema e o serviço. “Isso precisa mudar, pois onera a tarifa e gera injustiça social. Um sistema custeado apenas pelo usuário nunca atingirá a qualidade necessária”, diz.
Para Erika Kneib é necessário buscar uma maior qualidade para o sistema, sem que esta melhora onere ainda mais a tarifa. “O usuário não aguenta pagar por valores maiores. Hoje, o aumento da tarifa praticamente repõe perda de demanda e inflação. Não sobram recursos para investimento na melhoria da qualidade do serviço”, indica.

Audiência pública
Diante das manifestações contrárias ao aumento vindas de parte da população, o vereador Djalma Araújo (SDD) convocou uma audiência pública na Câmara Municipal de Goiânia. A reunião foi realizada no último dia 24 de fevereiro, e debateu não só o aumento da tarifa do transporte coletivo, mas também a criação da Comissão Especial de Inquérito (CEI) do Transporte Coletivo, para investigar o caso.
Na audiência estiveram presentes representantes dos alunos da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), além da Asso­ciação das Donas de Casa do Estado de Goiás (ADC), entre outras organizações representativas.
De acordo com o vereador Djalma Araújo, o Poder Público tem sido omisso. “Quem manda no transporte coletivo de Goiânia é o Setransp, o sindicato dos empresários. São as mesmas empresas que comandam o setor desde 2007, quando houve licitação e, numa parceria com a Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo (CMTC), as mesmas conseguiram manter-se no sistema. Queremos que haja não só a suspensão da tarifa, mas que se discuta um sistema de transportes melhor”, desafia Araújo.

Cálculo da tarifa
O valor da passagem do transporte é calculado de acordo com a quilometragem percorrida pelos veículos. No entanto, essas informações não estão à disposição da sociedade. Na opinião de Marcos Rothen, mestre em Transportes, o aumento não é justificado. “As informações que são utilizadas no cálculo não são auditadas. A CMTC tem que ter o poder de fiscalizar e precisa controlar o transporte”, afirma o docente do Instituto Federal de Goiás (IFG).
Para o professor Willer Carvalho, doutor em transporte e professor do curso de Engenharia de Transportes da Universidade Federal de Goiás (UFG), a dúvida é a mesma. Para ele, como não houve acesso a todo o cálculo, não dá para saber se foi correto ou não. “Não tenho como saber. É normal que tenha aumento tarifário todos os anos, e é justificado quando há uma mudança grande na economia. Mas, não dá para transferir o custo para o usuário”, argumenta o doutor em Transportes.
Neste sentido, Erika Kneib explica que os problemas de mobilidade na cidade são, principalmente, dois. “O primeiro é que os ônibus concorrem por espaço com os carros nas vias. Eles precisam de infraestrutura prioritária. O segundo chama-se financiamento do serviço”, pontua a arquiteta. Todo serviço tem um custo e, para ela, o modelo de Goiânia está ultrapassado, pois penaliza o passageiro pagante.


Prefeitura da capital aposta no BRS e BRT

 

 

A priorização do transporte público é consenso entre os especialistas. Neste sentido, a Prefeitura de Goiânia deu início ao projeto de BRS (Bus Rapid Service) que, na capital, consiste na dedicação de faixas exclusivas para o transporte público. As obras do Município começaram na Rua 10, com a implantação de faixas exclusivas e a promessa de aumento da eficiência do trajeto. O projeto de mobilidade consiste na criação de sete corredores preferenciais.
Por meio de sua assessoria, a Prefeitura informou que recebeu recursos no valor de R$ 145.323.461,00 para a realização das obras nas avenidas T-7, T-9, 85, 24 de outubro, Independência, T-63 e Rua 10. Serão 46,5 quilômetros de vias preferenciais que integrarão 66 linhas de ônibus. De acordo com a assessoria, mais de 600 mil usuários serão beneficiados diariamente.
Willer Carvalho, professor do curso de Engenharia de Transportes da UFG vê as intervenções de forma positiva, mas é preciso mais planejamento, em sua opinião. “Esses corredores têm que ter uma ligação para que não sejam individuais. É importante, também, que haja uma expansão desses corredores para que traga uma maior eficiência, e uma oferta maior de viagem aos usuários”, aponta. Carvalho aposta na priorização do transporte como solução para os problemas da capital.
Por outro lado, Marcos Rothen não viu melhorias nos corredores já implantados e acredita que essa não é a solução. “A maneira como foram feitas essas intervenções ainda não trouxe nenhum resultado positivo. Na Rua 10 há dados que apontam que o tempo de viagem aumentou, inclusive”. Segundo Rothen, o problema só vai piorando, o que causa grande transtorno à população.
O professor do IFG não acredita que esse tipo de obra estimulará a sociedade a deixar seu carro em casa. “A população ainda não começou a andar de ônibus e nem vai. Porque o sistema de transporte não oferece qualidade e essas obras só causaram transtorno, principalmente, na Avenida 85, que infernizou a vida de milhares de pessoas todos os dias”, assevera Rothen.

Alternativas urbanas
Para o egenheiro Marcos Rothen, mestre em Transportes, a solução para a questão da mobilidade em Goiânia é o BRT (Bus Rapid Transit), tipo de serviço que se conhece na capital pelo Eixo Anhanguera. “Esse é o melhor exemplo. É rápido e é eficiente. E isso por causa da maneira como as pessoas usam o transporte. O usuário não se preocupa quando perde o carro, pois logo em seguida vem outro atrás”, argumenta.
Neste sentido, o engenheiro Willer Carvalho concorda com o colega, já que ele oferece uma saída do tráfego normal, gerando maior agilidade. “O grande problema que no Eixo-Anhanguera foi a falta de integração ao urbanismo, o que deixou a região segregada da paisagem”, discorre. Fora o problema visual, Carvalho acredita que o BRT é uma boa opção, mesmo tendo um custo mais alto de implantação.
“Num corredor exclusivo, é possível uma melhor observação, além de reduzir a interferência do tráfego nas rotas do transporte”, observa. O docente da UFG, porém, destaca que é importante que se pense na questão semafórica. “Não adianta ter um corredor exclusivo se, a todo momento, o veículo precisa parar no semáforo. Para isso temos a sinalização inteligente. Quando um ônibus se aproxima do semáforo, ele abre automaticamente”, sinaliza.
A arquiteta Erika Kneib também é positiva em relação ao Eixo-Anhanguera. Vê, no entanto, que é necessária uma qualificação do sistema BRT. “Isso, principalmente, com relação ao ambiente urbano, melhorando-se desde a ambiência urbana da via, a infraestrutura, iniciando-se pelas calçadas que levam aos pontos, os abrigos e informação dos pontos, e, principalmente, os terminais”, analisa.
Talvez seja por essa razão que a Prefeitura de Goiânia esteja investindo na construção de outro corredor exclusivo, o BRT-Goiás Norte/Sul. O Município informa, por meio de sua assessoria, que o processo de licitação já foi concluído e a ordem de serviço da obra deve ser assinado em breve. O BRT Goiás Norte-Sul está orçado em R$ 242,4 milhões e vai ligar a região Noroeste à região Sul, atendendo a 148 bairros de Goiânia e Aparecida de Goiânia.


Metrô ainda não é consenso entre os especialistas

 

Quando se fala em transporte público de qualidade, logo surgem as grandes metrópoles mundiais na mente, todas equipadas com vários tipos de serviços de transporte que garantem aos usuários uma experiência mais agradável nos coletivos. O principal objeto de desejo acaba sendo o metrô, que está longe de chegar a Goiânia e, na opinião do engenheiro Marcos Rothen, deve continuar assim.
Rothen acredita que essa não seria, nem de longe a solução para o transporte coletivo em Goiânia. De acordo com ele, o metrô é uma opção cara demais e, mediante o atual sistema que repassa todo o custo para o usuário, seria impossível de implantar a rede na capital. “Fortaleza está há 20 anos implantando o sistema e segue em fase experimental. As pessoas falam, ouvem dizer. O metrô é bonito, mas é caro e não é a solução”, certifica.
Willer Carvalho não vê dessa forma. Para ele, deve haver estudo e análise, sobretudo. Mas, todas as opções podem e devem ser incluídas nas pesquisas. “Eu não tenho estudo para falar que o metrô é a solução. Temos que começar a estudar novas formas. Projetar esses custos e benefícios. São obras que têm um impacto grande no custo de implantação e manutenção, mas temos que pensar a longo prazo”, avalia Carvalho.


Falta qualidade

 

 

Atrasos, superlotação e insegurança. A parte da população que depende do transporte coletivo para se locomover está cheia de motivos para reclamar. E até mesmo quem compreende o aumento, acha que o sistema ainda tem muito chão pela frente. “O transporte não é maravilhoso devido à grande quantidade de pessoas que usam. Creio que se tivesse um número maior de ônibus, muita coisa seria resolvida”, argumenta a jovem Natália Silva.
Para o engenheiro Willer Carvalho, contudo, essa solução faz parte do senso comum. De acordo com ele, devido às longas esperas, a sensação do usuário é que faltam veículos nas ruas. Mas, a resposta aí não seria acrescentar, mas refazer a programação. “Quando verificamos a planilha, vemos que os itinerários são cumpridos. O que precisamos é de uma programação operacional bem coordenada e acompanhada”, expõe Carvalho.
Para a estudante Camila Luz depender do transporte público é cansativo. “O transporte coletivo em Goiânia para mim é uma frustração diária. No meu caso, a rota casa-faculdade e casa-trabalho é, praticamente, a mesma. E não é muito distante. Mas, o mesmo tempo que eu gasto indo de ônibus, gastaria se eu fosse a pé”, conta. De acordo com a estudante, a espera nos pontos de ônibus já chegou a uma hora e meia.
Camila explica que ainda opta pelo ônibus, devido à segurança. “Mas, já não acredito que seja assim tão seguro, porque o tempo que você fica esperando acaba te deixando exposto. Além disso, todos os dias, ouço histórias no meu trabalho de assaltos dentro do transporte”, narra.
É por essa e outras que, na visão de Erika Kneib, é necessário buscar maior qualidade para o sistema, sem que esta onere a tarifa. Na opinião da arquiteta e doutora em Transportes, como solução de financiamento, deveria pensar-se em um Fundo Metro­politano, abastecido por recursos advindos principalmente do uso do veículo individual, como IPVA e estacionamentos. “Esta é uma proposta muito interessante que defendemos no Fórum. Só com os investimentos necessários se melhora a qualidade, pois o aumento de tarifa já não possibilita isso”, propõe.

Fiscalização frequente
Por meio de sua assessoria, a CMTC (Companhia Metro­po­litana de Trans­porte Cole­ti­vo) informou à Tribuna que acompanha diariamente a operação do transporte coletivo. “No caso dos atrasos e adiantamentos das viagens, tem expedido notificações para as empresas concessionárias solicitando o cumprimento das viagens conforme determinado pelas planilhas operacionais”, destaca a nota.
Recentemente, a companhia foi proibida de autuar as empresas concessionárias do serviço por atraso nas viagens, por decisão judicial da 1ª Vara da Fazenda Pú­blica e de Registros Pú­blicos da co­marca de Goi­â­nia. “Apesar do impedimento judicial para a aplicação de multas referentes aos atrasos de viagens, a CMTC mantém o trabalho de fiscalização nos 19 terminais, incluindo o Eixo Anhan­gue­ra, e principais pontos de embarque e desembarque”, informou a assessoria.

 

 

 

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