“Ainda temos um pouco desse ranço”

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Tribuna – Ainda há desigualdade de gênero no mercado de trabalho?

Cyntia Bressan – O que eu percebo é que em volume, há mais mulheres. Mas, depende do segmento da empresa. Há organizações em que, devido ao segmento, há mais homens. Entretanto, se formos olhar para cargos em nível de gerência e/ou diretoria, ainda permanece a maior proporção de homens, pelo menos nas empresas com as quais eu tenho contato.

Como está a situação no Brasil?
No Brasil, nós levamos um pouco mais de tempo para adaptar todos os costumes, modas e tendências europeias e americanas. Então, acredito que lá a mulher já vem ganhando um papel maior e de destaque nos níveis de alta gerência, diretoria e até CEO das empresas. E essa é uma tendência que acredito vai chegar no Brasil, sim. Já existem muitas empresas que seguem essa linha.

Quais as áreas que mais ocorrem esse tipo de situação?
Alguns segmentos, considerados tipicamente masculinos, como construção civil, manutenção, equipamentos pesados, etc, também já estão sendo questionados. Às vezes, no meio da produção muito pesada, de trabalhos considerados classicamente como não femininos, aos poucos que as mulheres vão tomando os lugares. E, muitas vezes, a entrada delas causa certo constrangimento aos homens.

De acordo com dados do Fórum Econômico Mundial, a remuneração das mulheres chega a ser 70% menor do que a dos homens, em funções idênticas. A que você atribui esse fato?
Eu já vi esses dados algumas vezes. Mas, por incrível que pareça, a realidade em Goiás não acontece. Aliás, não é que não acontece, mas não tem essa frequência. Eu conheço vários empresários e empresárias, não vejo diferenciação de valor de remuneração de acordo com gênero nos processos de seleção. A diferenciação de valor acontece com o histórico do indivíduo, capacitação e até mesmo a postura. Mas, não por uma questão de gênero.

Como as mulheres podem lidar com isso?
É se afirmando cada vez mais e conseguindo capacitação profissional cada vez mais. Hoje, é um fato que, não só pela proporção, a mulher se qualifica mais anos do que o homem. E tudo isso faz com que ela esteja melhor preparada para disputar vagas de vários níveis nas empresas e, ao mesmo tempo também, consolidar o seu lugar nas organizações.

A atriz Patricia Arquette fez um discurso no sentido de igualdade de gêneros no mercado de trabalho, quando foi premiada com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Você acha importante que figuras públicas se posicionem nesse sentido?
Eu acredito que tudo que uma figura pública, como a Arquette e outras também, fazem acaba repercutindo. Talvez não da maneira como ela fez, mas acredito que levantar determinadas bandeiras vale a pena, na medida em que fazem as pessoas ficar de olho e levantar questionamentos como: “será que isso está acontecendo, mesmo?”, “será que acontece na minha empresa?”, “por que é assim?”. Eu acho que isso ajuda numa reflexão, sim.

Qual o principal desafio da mulher no mercado de trabalho, hoje?
É conciliar, na verdade, todos os múltiplos papéis que ela tem, também, fora do trabalho com as demandas do trabalho. Muitas empresas veem o funcionário como se ele tivesse só o trabalho. Como nós vivemos num país que ainda é um pouco machista, a mulher acaba tendo que ocupar um lugar no trabalho, mostrar o seu mérito, desempenho e qualificação, estudar para galgar cada vez mais postos. Mas, ela ainda tem que assumir outros papéis na família, na casa. Então, isso acaba exigindo dela um controle maior do tempo e um maior equilíbrio emocional.

Você é a favor da adoção de uma jornada flexível de trabalho, para que as mulheres possam conciliar as funções?
Sim, sou a favor da jornada flexível, mas não só para as mulheres. Acho que para elas, realmente, já seria uma ajuda diferenciada para conciliar múltiplos papéis. Entretanto, sou a favor da jornada flexível para todos os trabalhadores. Na verdade, isso é um almejo para a maioria. Quando pergunto em sala de aula, todo mundo quer horário flexível para poder compatibilizar com qualidade de vida, que é um anseio muito grande de todos os indivíduos hoje.

Um estudo conduzido pela ONG Plan International, entidade de defesa dos direitos da criança, constatou uma diferença grande na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. A pesquisa intitulada “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências” mostra que enquanto 81,4% das meninas entre 6 e 14 anos arrumam a cama, o percentual entre os meninos é de apenas 11,6%. Isso mostra que a ideia de obrigação com o lar e, consequentemente, a ‘jornada dupla’ começam a ser disseminadas na infância. Qual a sua análise?
É uma questão muito cultural. Quais atividades podem ser atribuídas a “meninos” e “meninas”? Isso vai variar de família para família. Eu percebo que em algumas famílias permanece um certo ranço, um certo preconceito ou segmentação do que seriam “tarefas de menino” e “tarefas de menina”. Entretanto, na maioria das famílias, com pais mais modernos, em que o pai e a mãe trabalham e há um companheirismo, isso já nem existe mais. Nem questão de “tarefa de menino” e “tarefa de menina”. Antigamente, tinha até isso de “cor de menino” e “cor de menina”, e hoje o que percebo é que as crianças, de uma forma geral, para se tornarem adultos mais responsáveis, colaborativos e maduros, elas começam a ter pequenas responsabilidades em casa, de acordo com a idade, ao longo do tempo. Agora, se você for pensar nisso na fase adulta, a gente só tem uma questão que diferenciaria homens de mulheres, que é a força física. Pois isso é algo que vai além da cognição, é uma questão física. Mas, em termos de tarefas, hoje já percebo que existe uma rotação de atividades. Um dia a menina faz, no outro o menino, e assim vai. Não só porque todos tem que aprender, mas porque as meninas estão começando a reclamar, também. “Por que fulano não faz e eu tenho que fazer?”. Com isso elas também começam a abrir os olhos dos pais para uma nova realidade.

Há áreas em que as mulheres destacam-se mais do que os homens?
As mulheres tendem a se destacar mais do que o homem em áreas que exigem maior paciência e relacionamento. Isso porque a forma como as mulheres se comunicam é uma forma que já tenta criar vínculos e laços. Então, quando eu tenho áreas ou cargos que exigem maior atendimento ao público e maior nível de relacionamento, as mulheres acabam tendo destaque maior. Até porque, elas se comunicam preocupadas com o outro, em entender o mundo do outro e assim a gente se relaciona melhor.

Em Trindade, temos um caso curioso. Uma indústria de máquinas só contrata mulheres para trabalhar na linha de produção. Inclusive, de acordo com o dono da empresa, os homens que ocupavam as funções antes, acabaram pedindo demissão, por não concordar com mulheres desempenhando a mesma função e recebendo a mesma remuneração. Qual a sua opinião sobre isso?
Olha, eu acho que eles podem ter tido um pouco de machismo, mas podem ter se sentido constrangidos, às vezes, de ver que elas faziam o trabalho com maior atenção. Eu conheço bem esse caso e o dono de lá relata que preferiu contratar mulheres porque elas eram mais atenciosas e cuidadosas. E, talvez, a forma como isso foi ficando claro dentro da empresa, ou como isso foi trabalhado dentro da cultura da empresa, acabou inibindo outros homens de permanecerem lá.

O fato da mulher ainda assumir muitos papéis também está ligado a isso? Em casa, também há desigualdade no desempenho das atividades?
Acredito que na família brasileira, na sociedade brasileira, ainda existe uma desigualdade de papéis dentro de casa, também. Isso vem mudando muito. Os homens cada vez mais têm adquirido responsabilidades quanto à casa, os afazeres domésticos, os filhos. Mas, acaba que ainda temos um pouco desse ranço, de que a responsabilidade maior é da mulher. E isso dificulta o comprometimento irrestrito dela ao trabalho, o que muitas empresas solicitam. Eu também não sei se é a melhor forma de o funcionário se dedicar de forma irrestrita ao trabalho, mas algumas empresas querem assim.

Essa questão está muito ligada à cultura, certo? Quais as estratégias e/ou medidas que podem ser adotadas no sentido de minimizar esse processo e acabar com ele a longo prazo?
Sim, e é um processo de formiguinha a longo prazo. Acredito que a educação formal nas escolas, começando a mudar isso, bem como a educação das crianças nas respectivas casas, vendo pais que assumem, também. Sendo menino ou menina, ao ver isso, ela já começa a crescer numa sociedade que se vê mais como igual, em que uma diferença de gênero não significa uma diferença de qualquer outra coisa, como inteligência, capacidade, competência, etc. Todos são seres humanos e capazes de fazer as mesmas coisas, desde que queiram e se qualifiquem para isso.

De acordo com o economista João Pedro de Azevedo, a entrada e permanência cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho, tem gerado benefícios sociais para os países em desenvolvimento, tal como a diminuição da pobreza.
Eu não tenho dados precisos. Mas, no Brasil temos vários estudos que apresentam que as mulheres já são chefes de família em várias casas. Então, isso fez com que hoje ela possa não só abastecer a sua casa, trazendo dinheiro, compartilhando esse papel de provedor que, antigamente, era só do homem, como também sustentar uma casa sozinha. E ela, geralmente, tem uma capacidade muito grande de lidar com desafios para alimentar seus filhos e dar a eles uma boa educação. Não estou aqui fazendo apologia à guerra dos sexos, porque eu também acho que o homem tem a mesma garra e preocupação. Estamos comentando características femininas nesse novo mundo e ambiente do mercado de trabalho.

Que tipos de ações, leis e políticas públicas podem ser criadas ou melhoradas para combater a desigualdade no mercado de trabalho?
Essa questão de leis e políticas públicas fica meio complicada. Eu, particularmente, não acredito que criar cotas, como existe em muitas universidades, vá ajudar a ter menos estereótipos e preconceitos. Às vezes, acho que as pessoas acabam ficando mais rotuladas. As políticas públicas poderiam incentivar, na medida em que os órgãos dessem exemplos, ao nomear mulheres para cargos altos como no Supremo Tribunal Federal ou Ministérios. Isso valorizaria mais a posição feminina, dando uma igualdade maior nesses lugares. Assim haveria um desdobramento em cascata nas demais áreas da sociedade.

 

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