“O que dá dinheiro é ser feliz ”

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E1 03A dúvida na hora de escolher qual carreira seguir faz parte da vida de muitos jovens e quando chega esse momento sentimentos como medo e ansiedade normalmente estão presentes. Pesquisar e fazer reflexões sobre os diversos caminhos que se pode seguir é o ideal para ajudar a tomar uma decisão. Dialogar com os familiares também ajuda a entender esse momento e a controlar as emoções. Para falar sobre estes e outros assuntos que envolvem a escolha da carreira profissional, o Escola entrevistou o Psicoterapeuta Leo Fraiman, especialista em Psicologia Escolar, mestre em Psicologia Educacional e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP) e idealizador das metodologias GPS Profissional e OPEE (Orientação Profissional com Empregabilidade e Empreendedorismo). Confira a entrevista.

Qual a sua visão sobre a escolha de uma carreira?
A escolha de uma profissão é um momento maravilhoso no qual o jovem assume a identidade que terá na sociedade. A escolha de uma carreira ou de um trabalho é uma oportunidade fantástica de dizer ao mundo quem se é e ao que se veio nessa vida. Mark Twain, escritor e humorista, diz que os dias mais importantes de nossa vida são os que a gente nasce e o dia em que descobrimos o porquê. E eu concordo com essa afirmação, pois acredito que por meio do nosso trabalho, com nossa carreira, nós podemos impactar de uma maneira muito positiva, interessante e enriquecedora a nossa postura e o nosso papel no mundo. Então para mim a escolha da profissão é muito mais do que escolher um trabalho, mas sim uma oportunidade de dizer ao mundo que temos valor, de valorizar a vida, por meio daquilo que faremos.

Na hora de escolher uma profissão, qual o melhor caminho para o jovem?
O melhor caminho para um jovem escolher uma carreira é, sem dúvida, iniciar essa reflexão – começar a tomar essa decisão através do autoconhecimento. Fazer uma reflexão profunda sobre quem se é, sobre seus valores, seus desejos, seus anseios, o que tem mais significado para si. Essa é a base essencial para que se possa tomar uma decisão, seja na escolha da carreira ou em outras áreas da vida. Essa é a base de toda nossa metodologia no projeto GPS profissional, acreditar que as escolhas feitas de dentro para fora têm muito mais chances de terem sustentabilidade. Paralelo ao conhecimento e a descoberta da sondagem de aptidões e interesses do individuo, deve ser feita uma pesquisa com curiosidade, com espirito investigativo e analítico, sobre as oportunidades de estudo e de trabalho. É muito importante que o jovem visite mais de uma universidade, converse com mais de um profissional, leia mais de um guia de profissões e pesquise, de maneira critica, informações sobre o mercado de trabalho, a fim de evitar informações estereotipadas, para mais ou para menos. Por exemplo, se deixar influenciar ao conversar com um jovem específico que não teve sucesso em uma carreira e, por esse motivo, deixar de segui-la. Ou mesmo, se influenciar por um profissional bem sucedido. Afinal de contas, cada pessoa é única, e a construção de uma carreira depende de inúmeros fatores e principalmente da atitude que o individuo terá com aquilo que escolher.

A influência e até mesmo a pressão de pais, amigos e familiares atrapalha ou ajuda?
Os pais, amigos e familiares podem ajudar e podem também atrapalhar. Ajudam quando pesquisam, debatem, exploram ideias, quando geram diálogos interessantes, quando fazem refletir e quando comparecem juntos a eventos informativos e feiras de profissões. Na metodologia GPS, nós fazemos a primeira sessão junto com a família e, no meio do processo, fazemos uma devolutiva para mostrar o feedback sobre o que já se descobriu de um jovem, para que os familiares consigam entender a natureza daquele adolescente e assim possam ajudá-lo na fase final de pesquisa na realidade. Por exemplo fazendo pesquisas sobre universidades e lendo dados sobre o mercado de trabalho. O contrário disso não é ajuda, o contrário se chama invasão, negligência ou mesmo menosprezo de sonhos, o que nada ajuda a uma pessoa nessa hora tão importante, que é a hora da escolha profissional.

O que os jovens devem levar em conta na hora da escolha?
Na hora da escolha os jovens podem seguir um roteiro, que é justamente o que propomos na metodologia GPS, descobrir sua personalidade e as carreiras com as quais tem afinidade, além de levantar as suas crenças sobre as mais diferentes carreiras e áreas profissionais, verificando se há mitos ou preconceitos que estejam mais trabalhados, como acreditar que uma profissão é somente masculina ou feminina, se uma da mais dinheiro que outra, etc. É importante verificar se há afinidade de interesses e aptidões com as mais diferentes carreiras, as inteligências múltiplas, enfim, uma série de etapas, tais como fazemos na metodologia GPS, para que o individuo possa se conhecer e assim tomar uma decisão mais tranquila.

Atualmente, jovens concluem cada vez mais cedo o Ensino Médio, isso tem dificultado a escolha de uma carreira?
As escolas que adotam a metodologia OPEE (Orientação Profissional, Emprega­bilidade e  Empreendedorismo), que desenvolvi junto a minha equipe em são Paulo, e que atualmente já tem mais de 100 mil alunos estudando desde o 1º ano do fundamental até o 3º do médio, trabalham com os alunos justamente o autoconhecimento, a escolha profissional e o empreendedorismo desde a base e, quando os alunos chegam ao Ensino Médio, têm uma base de segurança muito maior do que os outros alunos. Segundo nossos dados, mais de 80 % dos alunos sentem que o curso impacta efetivamente na sua segurança para a tomada de decisão. Então acredito que a questão tem menos a ver com a idade e mais com o rol de experiências a que uma pessoa foi exposta que define o grau de sua maturidade. Jovens que crescem dialogando com seus professores, pares, estudando o mercado, levantando informações e conhecendo a si mesmos, podem sim fazer uma boa escolha aos 16 ou 17 anos, o que não significa que ela tenha que ser a única ou jamais mudar durante a vida.

Como lidar com a ansiedade de ter que escolher a profissão? Essa escolha deve ser  para vida toda?
Poucas das nossas escolhas têm esse caráter determinista, ou seja: eu escolhi essa carreira e é a única que seguirei. Existem carreiras criadas a cada ano, novas oportunidades e justamente um dos focos do nosso trabalho com o projeto GPS é justamente ajudar o jovem a fazer uma pesquisa consciente, proativa e perspectiva da humanidade. Consciente no sentido de que ele se escute e tenha visão critica sobre os dados que levante da realidade; proativa no sentido de que vá atrás das suas próprias informações e não se contente com verdades prontas; e perspectiva para que ele tenha noção e dimensão de que o mundo está mudando e que com a chegada da internet e todo o novo capitalismo, com dados sendo transmitidos em tempo real o tempo todo pelo globo, provavelmente a profissão que esteja em alta em dez anos ainda nem exista ou mesmo a maneira de trabalhar ainda tenha que ser recriada ou reinventada. Porém, como ter uma atitude empreendedora em uma carreira que nem me identifico? Essa é questão.

Quais são os principais veículos ou canais de informação para quem está em processo de escolha da profissão?
Segundo a pesquisa do jornalista Marcos Brogna, que é o gestor de comunicação da editora OPEE, os jovens se baseiam 30% na família, 30% na escola e 30% em outros meios, tais como jornal, internet, rádio e televisão. Aí cabe uma reflexão: é preciso entender os dados encontrados como informações, não como verdades prontas. É comum uma pessoa querer seguir Direito porque viu na novela ou porque ouviu de um pai ou uma mãe que dá dinheiro ou que é uma carreira promissora. O que dá dinheiro é ser feliz e, mais que isso, fazer outras pessoas felizes. Quando uma pessoa entrega um trabalho com brilho no olho, dignidade, com decência, inovação e com custo correto, ela atrai para si uma maior chance de ser contratada e mais ainda, de ser bem recomendada.

Como os pais devem agir nesse período da vida dos filhos? Desde quando deve-se iniciar esse diálogo?
Direta ou indiretamente os pais sempre exerceram e sempre exercerão alguma influencia sobre essa escolha. O importante é entender que o filho não é uma propriedade. Os pais dizem “meu” ou “minha” fi­lha, mas por trás desse pronome vem um sentimento de posse que faz com que muitos pais pensem que o filho lhe pertence e por isso tem que seguir o caminho que bem entenderem. Isso me parece estar mais no caminho da arrogância que do amor. No meu entendimento o amor é aquilo que quer nos ver brilhar. Então o grande papel de um pai ou de uma mãe é conversar, dialogar, trocar experiências, ou proporcionar contextos, momentos, conversas com pessoas na qual o próprio jovem descubra como é aquela carreira, qual seu estilo de vida, quais as oportunidades, como está o mercado e assim tomar uma decisão. Na metodologia GPS os pais são convidados a participar ao longo de todo o processo, mas não mais como comandantes da vida do filho, mas sim como copilotos de um processo cuja decisão final cabe ao jovem tomar.

E como lidar com a frustração de uma escolha mal feita?
Antes de largar uma universidade, eu sempre sugiro que uma pessoa se faça pelo menos as seguintes perguntas: será que eu não estou gostando do curso? Ou estou com medo de crescer? Outra questão : será que não estou interessado ou eu não estou me dedicando o suficiente? Também com alguma frequência quando o jovem é exigido, cobrado, estimulado a dar mais de si por conta própria, se o mesmo foi muito mimado, foi deixado muito solto sem exigências ou cobranças, ele confunde sua resistência a crescer com o desinteresse profissional, que são coisas bem diferentes.  Antes de desistir de um curso é importante conversar com colegas que já trabalham na área, ter uma conversa com orientador do curso, pesquisar se há uma oportunidade para trabalhar naquela carreira ou procurar fazer um estágio na área.

Ter uma postura proativa…
Muitas vezes chegar mais cedo na faculdade, começar a fazer os trabalhos, levar a sério, retoma boa parte daquele encanto. Porque é irônico, muitas vezes nos ficamos felizes depois, com o efeito do que fazemos. Temos ai a analogia de uma academia: muitas vezes a pessoa vai se arrastando, vai reclamando, vai resistindo, mas raramente vemos alguém saindo da academia arrependido de ter feito bem para si mesmo. Muitas vezes essa ideologia cada vez mais comum na nossa sociedade de fazer só o que se quer, quando se quer e se o individuo desejar, não tem levado mais pessoas à felicidade, pelo contrário. Entrar na universidade é entender que aqueles anos tão curtos são muitos importantes para a construção de vínculos, para a formação e consolidação do caráter, do envolvimento com a profissão e também com o meio acadêmico. Então antes de perguntar o que sua profissão vai fazer por você, pergunte-se o que você fará para o mundo com a sua profissão. Por outro lado, se o individuo se dedica à universidade, e mesmo tendo feito os trabalhos, conversado com o orientador e tentado alguns estágios, ele percebeu que aquele não é o seu caminho, é um sinal de maturidade e diria até que de dignidade ele saber que pode mudar de opção.

E de onde veio a necessidade de criar essa técnica de orientação profissional que você usa?
Eu criei a metodologia do GPS Profissional que é utilizada em consultórios, empresas, escolas e ONGs a partir de uma dificuldade que eu mesmo tive de escolher minha profissão quando estava no 3º ano do ensino médio e gostava de muitas carreiras, sem ter parâmetros para decidir. Um livro me inspirou muito nessa época, chamado Historia Sem Fim, de Michel Ende. Fiquei marcado, porque eu era um garoto muito sonhador, continuo sendo, e ali percebia que eu poderia trabalhar pelos sonhos. Mesmo não sabendo na psicologia com qual área eu queria trabalhar, lá pelo quarto ano li outra obra que me marcou, chamado Em Busca de Sentido, do autor Victor Franklin, nesse livro ele estudava pessoas que sobreviviam a situações extremas em campos de concentração, e o que os levava a essa superação, resiliência e até o desejo de construir uma nova vida. Foi a primeira vez que vi o termo projeto de vida, isso me marcou porque percebi que quando se tem um projeto de vida, quando se tem brilho no olho, quando se tem significado e uma vontade de viver, as oportunidades aparecem. E quando não aprecem conseguimos nos dotar de força, esperança, determinação, humildade e dignidade para construirmos o caminho que queremos ver pela frente. É por isso que no processo GPS Profissional procuro sempre estimular meus pacientes e alunos para entenderem que a distância entre o que sonhamos e o que realizamos é nossa própria atitude.


Quem é e o que faz?

 

Leo Fraiman é Psicoterapeuta, especialista em Psicologia Escolar, mestre em Psicologia Educacional e do Desenvolvimento Humano pela USP, idealizador das metodologias GPS Profissional e autor da Metodologia OPEE (Operação Profissional de Empregabilidade e Empreendedorismo) e criador do Portal OPEE (www.opee.com.br). É autor de livros, coach empresarial, colunista da Rádio Jovem Pan AM e FM, consultor do Portal UOL e palestrante internacional.

 

 

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