Hortifrúti caseiro

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Dona Laura Corrêa -FOTO PAULO JOSEUm tomatinho apanhado na hora, uma alface recém colhida, mais salsa, coentro e cebolinha para temperar. Uma salada deliciosa que não precisa de muito espaço para crescer dentro de qualquer lar. O hábito de cultivar verduras, frutas e legumes em casa pode ter sido esquecido por um tempo, mas com o resgate da alimentação saudável em voga, muitas pessoas estão voltando a plantar algumas opções de hortaliças e temperos num cantinho da residência.

Espaço não é problema, quando há criatividade. Esse é o caso de Rodrigo Coelho de Andrade, 33 anos. O representante comercial sempre teve um pezinho no campo e, quando surgiu a oportunidade de dedicar um pedacinho da casa para o cultivo de algumas espécies, ele não pensou duas vezes: “Sempre cultivo plantas que vão me fornecer algo em troca, nada por estética. Eu gosto muito de hortaliças, frutíferas e folhagens, também. Mas, tudo para consumo”.
Segundo Rodrigo, o cultivo já vem na família há muito tempo. “A minha família, por parte de pai, é toda mineira. E em Minas, principalmente no interior, é bem normal e natural todos terem suas hortas, com couve, cebolinha, salsa, chuchu, quiabo”. Rodrigo conta que é até difícil encontrar muitas opções nos mercados das cidades mineiras. “Os mercados têm até dificuldade, porque realmente não há mercado para seus produtos”, afirma.
Na casa que mora com a esposa e a filha de dois anos, Rodrigo cultiva alface, tomate, pimenta, salsa, coentro, orégano, cebolinha e erva cidreira. Além disso, tem ainda algumas árvores frutíferas que não crescem tanto, devido ao processo de enxerto. “São árvores de enxerto que produzem muito cedo. Tenho o coqueiro-anão, o limoeiro, pé de jabuticaba e de cajá-manga. Tudo num espaço bastante reduzido”, conta.
Em contrapartida, tem quem goste das plantinhas há muito tempo. Dona Laura Corrêa, 71 anos, nem sabe mais quando começou a ter horta. “Tem uns 35 anos que eu moro aqui, sempre tem uns pés de couve. Eu planto pimenta bode, do reino e taioba, que faz uma salada muito boa. Tem pé de mostarda, cebolinha e salsa. Eu gosto, o meu marido também”, explica a aposentada, que adora plantas de todos os tipos.
Andando pelo quintal da casa, ela mostra todas as espécies que cultiva, desde plantas ornamentais, a vegetais e frutas. “Tenho planta para todo lado. Olha o tanto de cebolinha nos vasinhos. Eu planto e ponho em todo lugar. Tem um pezinho de cajá-manga bem ali. Tem jurubeba e batata doce que eu plantei ali. Eu gosto de ter ao menos um pé de mandioca no quintal. E o pé de figo está cheio de orquídea de todos os tipos”, mostra.
Moradora da região norte de Goiânia, dona Laura conta que vários de seus vizinhos também tem uma hortinha em casa. Um deles improvisou uma grande telha onde cultiva a cobiçada alface que dona Laura desistiu de plantar, depois que os cupins decidiram atacar as raízes da hortaliça. Outra que também já não tem alface no quintal é dona Maria José, moradora da mesma rua. Só que no caso dela, a culpa é dos pardais.
“Toda vida eu tive e tenho uma hortinha. Eu cuido dela com muito gosto. Nesse tempo das águas, acaba ficando mais feia, mas eu estou sempre me­xendo e cuidando dela”, conta. Ela gosta de tudo que planta. Na jardineira tem taioba, couve, um pezinho de cajá-manga, uma linda roseira. Além dos clás­sicos salsinha, coentro e ce­bolinha, que não podem faltar na cozinha de dona Maria José.

Agrotóxicos, não!
Trabalho, dá. Principalmen­te para matar as pragas que insistem em querer se aproveitar das hortas. Mas há uma regra geral para todos os cultivadores: não se utiliza agrotóxico. “A gente tem que matar os bichinhos que dá. Porque eu não jogo veneno, às vezes eu ponho água de fumo. Mas, todo dia tem que matar lagarta”, comenta. Mas, para ela é melhor do que comprar não verdurão. “Meu esposo já mexeu com horta grande, que vendia para a Ceasa, então ele punha remédio nos tomates, quiabo, abobrinha, mas deixava passar oito dias pra poder apanhar. Agora é assim: joga hoje e amanhã já apanha”, narra.
Para dona Maria José, não há nada como colher tudo fresquinho na hora. “Aqui é tudo sem agrotóxico. Eu compro nas bancas o que não tenho aqui, mas não sei de onde vem. Mas aí eu lavo bem lavado, ponho de molho no vinagre, ponho limão. Agora, essas minhas eu como sem cismas”, ri. Dona Laura Corrêa também acha que é melhor cultivar em casa. “Eu acho melhor ter do que comprar, porque a gente não joga veneno”, diz.
Para Rodrigo Andrade, uma das vantagens de cultivar alimentos em casa é poder pegar apenas o que vai usar. “Por exem­plo, você vai comprar cebolinha na feira e vem aquele maço grande. Você não consegue usar tudo antes de perder. Quando você tem a horta, tira o tanto que quiser e logo ela se recompõe”, argumenta. De acordo com ele, dá pra fazer colheitas praticamente diárias, além de não ter a incidência de agrotóxicos.
Controlar o uso de produtos na horta é mais um dos benefícios para o representante comercial. “Eu costumo usar defensivos naturais e orgânicos, que são mais para espantar, do que matar insetos e pragas”, explica. A lista não para. Outra vantagem é a possibilidade de se fazer isso em pequenos espaços. “Você não precisa de muito espaço, tendo uma janela que pegue sol durante uma parte do dia e tendo o cuidado de regar sempre”, orienta.
Isso fora a economia. Dona Maria José e dona Laura concordam que se gasta bem menos nas compras. Rodrigo e a esposa também diminuíram os gastos no verdurão. “Tendo em casa, você não precisa comprar. Então, claro que representa uma economia, além de ter mais qualidade do que o que encontramos no mercado”, afirma o casal.


Preocupação virou negócio

 

O caso de Ricardo Maximo Filho, 28 anos, é bem curioso. O engenheiro agrônomo, que é especialista em produção e manejo agroecológico, conta que tudo começou de um interesse durante a graduação. Hoje, presidente da Ass. de Desenvolvimento da Agricultura Orgânica de Goiás (Adao), ele mantém uma horta que atende não só a sua família. “Faço uma produção diversificada para atender o consumo da família e à demanda de produtos orgânicos”, explica.
Na Chácara dos Máximo, Ricardo cultiva vários itens de hortifrúti, como alface, rúcula, couve, alho-porro, coentro, salsa, cebolinha, hortelã, quiabo, jiló, berinjela, vagem, pimentão, brócolis, rabanete, cenoura, agrião, além das frutíferas. “Decidi ser produtor e contribuir com a sociedade. As pessoas precisam se alimentar com produtos saudáveis. Os alimentos que vem de áreas orgânicas possuem maior valor biológico, além de preservar o meio ambiente”, discorre.
De acordo com ele, para sobreviver, uma pessoa precisa de 5 m² para o cultivo de alimentos que atendam às necessidades de consumo diário. Ricardo Maximo acredita que o cultivo de vegetais e frutas em casa é muito importante. “Contribui para uma atividade saudável, o contato com a natureza, a valorização do recurso natural, e até a produção de alimentos com garantia de segurança alimentar para a família”, observa.
Além disso, em sua opinião, o cultivo residencial é economicamente viável. “Há uma redução dos custos ao produzir seu próprio alimento. Basta ter criatividade, noções de ecologia para reciclar o material orgânico que seria descartado e produzir seu adubo, uma fonte de água próxima e mão na massa para plantar as hortaliças que desejar”, ensina. No Viver Orgânico, são 800m² de área útil, que abastecem feiras orgânicas, restaurantes e consumidores finais.

Viver Orgânico

Instagram: @viverorganico
Facebook: fb.com/viverorganicoagroecologico
Telefone: (62) 8561-8420
Email: viverorganico@outlook.com
Endereço: GO-080, km 07, Parque dos Cisnes, Chácara dos Maximo


Curso da Prefeitura

 

A Prefeitura de Goiânia oferece um curso interessante para quem não sabe nada de horta, mas tem vontade de produzir algumas hortaliças em casa. O curso de Hortas Urbana e Periurbanas é composto por 4 módulos e é realizado pelo Departamento de Agricultura Familiar da Secretaria Municipal de Indústria e Comércio de Goiânia (Semic). Nele, os alunos aprenderam cultivo, adubação e escolha de cultivares.
De acordo com Adib Pereira, idealizador do projeto e diretor do departamento, o curso surgiu após a constatação, mediante pesquisa, de que cerca de 80% das folhosas comercializadas nas feiras vem direto dos produtores. “Nós achamos importante detectar onde eles estão localizados e os próprios clientes tinham curiosidade de saber de onde vem os produtos e como cultivar em pequena escala”, afirma
Mais de 400 pessoas participaram do primeiro módulo, realizado no segundo semestre de 2014. A previsão é que as datas para o segundo módulo sejam divulgadas até o final deste mês. “As pessoas ficaram muito sensibilizadas com esse contato com a terra. É mais do que produzir, é voltar aos laços com a natureza. Saber também a origem dos produtos. É despertar no consumidor a importância de se alimentar bem e consumir produtos saudáveis”, argumenta, lembrando que novas turmas serão montadas.
Além disso, o departamento tem ideias para a merenda escolar e também com hortas urbanas comunitárias. Pereira conta que com a Lei de Agri­cul­tura Urbana pronta, falta pouco para que esse projeto torne-se realidade. “Estamos esperando a regulamentação da norma, que condições para trabalhar praças e terrenos baldios no cultivo de hortas como aproveitamento do espaço”, finaliza.

Feira de orgânicos

Para quem deseja comprar alimentos orgânicos, Goiânia tem algumas opções de feiras especializadas na qualidade. Uma é realizada no espaço Cerrado Alimentos Orgânicos, todas terças e quintas-feiras, a partir das 15h. O estabelecimento está localizado na Rua 10, nº 342, quadra F-14, lote 60, Setor Sul (próximo à Catedral). Produtos orgânicos também podem ser encontrados na feira do Mercado da Rua 74, que ocorre todo sábado, a partir das 7h. Uma terceira opção é o mercado da Vila Nova, nas feiras realizadas aos sábados e quartas, a partir das 17h.


Iniciativa contra o desperdício

 

O Mesa Brasil é um programa desenvolvido pelo Sesc contra a fome e o desperdício de alimentos. De acordo com Suellen Carneiro de Lima, gerente em Goiás, seu objetivo é contribuir para a cidadania e qualidade de vida de populações marginalizadas. “São desenvolvidos Cursos, oficinas, treinamentos, capacitações em diversas temáticas, como Aproveitamento Integral dos Alimentos, Boa Práticas de Manipulação dos Alimentos e Alimentação Saudável”.
Uma das atividades é o Curso “Horta Sustentável”, desenvolvido pelo programa junto a instituições sociais. “O objetivo é contribuir para o desenvolvimento sustentável das entidades e despertar o interesse para o cultivo e consumo de hortaliças”. A ação tem a parceria da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisas Agropecuárias (Emater) e da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).
Ao final, é realizada uma oficina que faz alusão às hortaliças cultivadas no decorrer do curso. “São desenvolvidas 4 preparações sendo, suco refrescante, batata sautê com alecrim, patê aromático e sanduíche leve”, conta Suellen. “O foco é o aproveitamento integral do alimento, que consiste na utilização de talos, cascas e sementes, com objetivo de agregar valor nutricional e contribuir para a redução do desperdício”, comenta.

 



 

 

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