“Festa é festa, Pecuária é Pecuária”

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Trajetória no meio empresarial, sendo inclusive sócio da Govesa. E então, de repente, SGPA. Como se deu esse encontro?

Deixa eu te contar. Um grupo que não estava satisfeito com o andamento das coisas na SGPA resolveu buscar alguém que pudesse transformar a entidade em uma empresa. Não alguém que tivesse experiência com rodeio ou exposição de animais, mas que tivesse uma condição de transformar isso aqui em um negócio rentável e viável. Hoje a SGPA é inviável. Ela funciona de três a quatro vezes por ano. Não tem recurso que aguente. Me procuraram pela experiência comercial para que eu pudesse transformar a SGPA numa coisa que não morresse, como o Jóquei, por exemplo.

Em que situação que se encontra a entidade?
Bem, nós entramos aqui com uma dívida de R$ 3,6 milhões, sem nenhuma receita e estamos brigando para tentar mudar isso. E vamos.

Quais são as metas para o seu mandato?
A nossa ideia básica é de que isso aqui funcionasse 365 dias por ano. E não apenas em quatro ou cinco datas especiais. Nós gostaríamos, por exemplo, que isso aqui se tornasse uma grande praça de alimentação. Aqui dentro, você tem segurança. Então, a nossa ideia é isso, fazer com que haja frequência de público durante o ano todo.

E qual a expectativa diante deste objetivo?
É muito boa. O problema é que pegamos o Brasil numa situação desagradável, uma situação de viés. Mas, nós vamos continuar brigando. O ‘não’, nós já temos. O que temos que buscar agora é o ‘sim’.

Quais são os maiores desafios para o setor agropecuário, quando pensamos no âmbito da crise financeira?
O setor agropecuário é o que menos vai sofrer durante este período de crise, pois produzimos commodities de exportação. O que está causando maior sofrimento são os custos, que, hoje, estão altíssimos, comparados ao do restante do mundo, porque nós não temos infraestrutura. Fora isso, acho que o setor vai sobreviver maravilhosamente bem a essa crise. Existe uma demanda grande por insumos e carne aí afora.

E quando pensamos no consumidor final, o impacto será diferente?
Vai! Vai, porque com o preço do dólar subindo, os preços dos produtos deverão subir internamente, portanto isso vai causar impacto, pois vai aumentar a inflação. Depois, a gente está vendo o aumento da gasolina. Se o combustível aumenta, o valor do transporte também.

A carne já sofreu uma oscilação.
É. Na última semana ela voltou ao seu preço. Agora, nós temos o mercado internacional. Vamos ver como a média se comporta. Mas, estou otimista com relação ao setor, muito otimista. A agropecuária representa hoje, mais ou menos, 40% do PIB brasileiro. É preciso entender um pouco mais disso. Por exemplo, o caminhoneiro que transporta carne é um prestador de serviços, ele não entra nessa conta. Mas, ele transporta para a agroindústria. Entende? É algo muito complexo! Acho que não temos condição de medir exatamente até que percentual do PIB isso vai entrar.

Mas, é um fato que a agropecuária sustenta a economia brasileira, hoje.E já há bastante tempo. Inclusive, nas exportações.

Alguns especialistas veem isso pelo lado negativo. Pois, enxergam um processo inverso ao de industrialização. Qual sua opinião?
Os EUA é um produtor altamente agropecuarista e produz industrialmente um monte de coisa. A China e o Japão não produzem por questões do solo. Nós que deveríamos ter condições de suprir essa demanda deles. Você não pode ter todas as coisas ao mesmo tempo. Vamos ter sempre que desenvolver um pedaço e depois o outro. Não vejo nenhum obstáculo.

Da forma como alguns economistas e pessoas ligadas à indústria colocam, pode passar a impressão de a própria agropecuária é um impeditivo para o crescimento industrial. O que acha?
Isso é conversa mole. Se eles não tiverem a agricultura, vão comer o quê? Ou, industrializar o quê? Eles fazem parte de um processo como o todo. E a agropecuária é um setor que tem crescido uma barbaridade no Brasil. Eu diria que nós temos sido julgados não por cientistas, mas por advogados e políticos. Ou seja, pessoas que não sabem o que estão dizendo. O Brasil vive uma época difícil, porque as verdades não são as verdades que são verdadeiras, mas são as verdades que são implantadas pela vontade de determinados grupos. E acho que o setor agropecuário faz falta, e muita falta.

O vice-governador José Eliton, que assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Científico, Tecnológico e da Agricultura, disse que “a vocação histórica de Goiás é a agropecuária e que, embora o Estado esteja buscando aprimorar o crescimento industrial, não vai abrir mão e fortalecer as atividades no campo”. Que avaliação o sr. faz?
Eu acho que ele tem razão. Mas, não dá para abrir mão da parte industrial. Nós vamos ter que conseguir indústrias que agreguem valor. Quanto mais valor agregado, melhor. Volto ao exemplo do Japão, que produz muito pouco, não tem petróleo, etc., e é o que é por quê? Porque conseguiu fazer uma indústria forte com valor agregado elevado. Então, eu concordo com o secretário José Eliton. Nós vamos ter que bancar e auxiliar esse crescimento agroindustrial, mas não podemos descuidar do produtor.

Hoje, Goiás está na oitava posição, no Índice de Competitividade do Agronegócio, no Brasil. Isso é bom? Pode melhorar?
É um bom ranking? Claro que é. Mas, vai haver sempre como melhorar. Vai depender muito da nossa capacidade de transferir para o nosso fazendeiro que o negócio dele é negócio, e não fazenda. Ele tem que se preparar para fazer isso.

Para o sr. os agricultores familiares devem tratar a sua produção como negócio?
Eu acho que a competitividade no mundo vai aumentar de forma tal que ou você se profissionaliza, ou desaparece. E isso em todos os campos, até na agricultura familiar.

Essa visão é bem próxima daquela da ministra Kátia Abreu. O sr. concorda com os posicionamentos dela?
Eu acho que ela está certa, é isso mesmo, não tem o que fazer. No Brasil, existe oportunidade para todos: o micro, o pequeno, o médio e o grande produtor.
Quanto à sustentabilidade, quais são os maiores desafios para o setor agropecuário, hoje?
O maior desafio é transformar a realidade em alguma coisa que o pessoal lá fora entenda. Porque, hoje, eles não veem a realidade. Eles veem informações isoladas. “Ah, o arroto do boi prejudica a atmosfera”. Isso tudo é besteira! Quem fala isso são políticos mal informados ou advogados que estão defendendo causas, muitas vezes, indefensáveis. Eu não vi nenhum cientista dizer a coisa como ela tem que ser. Então, a primeira coisa que eu acho que o setor vai ter que fazer é informar a população da realidade das coisas.

Aquela questão da Integração Lavoura-Pecuária é algo interessante para o setor?
É em algumas áreas, não em outras. O que eu quero dizer com isso? Numa área plana, você pode fazer integração da agricultura junto com a pecuária. Agora, numa área de morro, por exemplo, não dá. Porque as máquinas não entram, aí tem que fazer pecuária nela. Então, é muito dependente de qual material que você está trabalhando e aonde, a localização e a geografia.

Voltando às dificuldades do setor, nós temos a energia, que acredito ser um gargalo para todos os setores produtivos em Goiás, e a logística. Há mais algum? A questão da água já se tornou uma preocupação?
A água já nos preocupa, sim. Estamos fazendo um planejamento em longo prazo de como nos comportaremos em relação à água. Nós até estávamos pensando, junto com a Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) e o Fundo para Desenvolvimento da Agropecuária do Estado de Goiás (Fundepec-GO), em promovermos um seminário de utilização de água. No resto, o grande problema nossa é de infraestrutura, ou como você falou de logística, inclusive de energia elétrica, que é um problema que nós só estamos vivendo por incompetência do Governo.

Qual seria a solução para Goiás, em termos de energia elétrica, na sua visão?
Primeiro criando mais usinas hidrelétricas, mesmo que isso esbarre em meio ambiente, pois é a energia mais barata que temos. Segundo buscando opções alternativas de energia.

Qual é o planejamento para fazer com que a SGPA funcione 365 dias por ano?
A primeira coisa é resolver o fluxo de caixa. A partir disso, temos uma série de ações, como implantar uma grande área de alimentação estilizada. Também, tentar fazer com que algumas empresas venham e façam operações diárias, que comercializem aqui dentro.

Hoje, o agricultor não faz parte da SGPA. Quando pensamos sobre a entidade, é a exposição que ficou conhecida pelo nome da atividade pecuarista que vem à mente. Então, qual o lugar do agricultor aqui? E, se ele não tem lugar, ele terá?
Ele vai ter lugar. Ele andou afastado, mas nós vamos abrir espaço para ele. Com a exposição de máquinas, e vamos tentar criar cursos, via Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), para que esse pessoal volte a frequentar o parque. Isso aqui tem que ser e vai ser uma casa do agropecuarista.

E quanto àquela questão da divisão entre a festa e a exposição?
Isso já está definido. Nós vamos fazer uma semana de exposição e uma semana de festa. Festa é festa, Pecuária é Pecuária. Nós vamos manter a festa como tradição, mas de forma separada. É incompatível o ruído e o comportamento da festa com os animais. Eles ficam estressados, não pode fazer isso com eles.

O sr. acredita que nesses dois anos de mandato será possível alcançar esses objetivos?
Vamos fazer o que der, o que o mandato der tempo de fazer. Nós vamos correr para fazer o máximo possível nesse período.

É, porque li que o sr. não é a favor da reeleição, certo?
Não, não sou a favor da reeleição. Não vamos cometer os mesmos erros do passado.

 

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