É possível Goiás ter um presidente da República?

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P9 01De tempos em tempos, o assunto da possível candidatura de uma liderança política goiana à presidência da República ganha espaço nas rodas de conversas entre políticos locais. Quase todas as tentativas, sonhos e/ou projetos, porém, não chegam nem mesmo ultrapassar o primeiro dia do ano eleitoral. Atua­l­mente, duas lideranças goianas voltam a ser comentadas como possíveis candidatos a construírem um projeto nacional para a sucessão da presidente Dilma Rousseff (PT) em 2018 – o governador Marconi Perillo (PSDB) e o senador Ronaldo Caiado (DEM). Junto com suas intenções, perguntas surgem e pedem respostas. A principal delas, a seguinte: por que Goiás nunca teve um candidato viável e o que o postulante precisa fazer para chegar lá?

Analistas ouvidos pela Tribuna apontam várias dificuldades, desde a falta de importância política do Estado, como a concorrência externa. “A dificuldade maior é a desimportância do Estado. Goiás nunca fez um presidente da República. O Centro-Oeste é desimportante”, diz o preofessor de jornalismo da Universidade Federal de Goiás e analista político Luís Signates. O cientista político Itami Campos vai na mesma linha: “O Centro-Oeste praticamente não existe. Tem candidato que representa o Nordeste, outro o Sudeste, ninguém fala que representa o Centro-Oeste. Falta representação”, defende.
Apesar disso, os Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul já tiveram presidentes da República em épocas diferentes. Eurico Gaspar Dutra, que foi eleito presidente logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, nasceu em Cuiabá. Ele administrou o país logo após a ditadura de Getúlio Vargas, o chamado Estado Novo. Na década de 60, Jânio Quadros, outro político nascido no Centro-Oeste, foi eleito presidente. Quadros nasceu em Campo Grande, atual capital do Mato Grosso do Sul, quando a cidade ainda fazia parte do Mato Grosso. Dutra e Jânio, porém, têm algo em comum – nenhum dos dois focou a política local para ganhar visibilidade nacional. Enquanto o primeiro ganhou destaque por meio de sua carreira militar, o segundo cresceu em Curitiba e deu seus primeiros passos políticos já em São Paulo.
Desta forma, o principal ingrediente na receita para se criar um presidente goiano é buscar representatividade nacional. A principal dificuldade é, claro, ganhar espaço político no meio de tanta concorrência. É este quesito que tentará trabalhar Marconi Perillo nos próximos anos para viabilizar o seu tão sonhado “voo nacional”. Apesar de já ter sido deputado federal e senador – vice-presidente do Senado durante dois anos – o governador ainda precisa ganhar mais terreno político nacional para visualizar um grande projeto político, como o de ser candidato a presidente. Para isso, Marconi quer dar visibilidade nacional para ações administrativas, como a reforma administrativa que reduziu a máquina e projetos como o “Goiás sem Fronteiras”, que deve ser implementado nos próximos meses aos moldes do “Ciências sem Fronteiras” do governo federal.
O cientista político Robi­n­son de Sá Almeida vê que a trajetória política nacional de Marconi é possível, porém bastante difícil. “Há grandes dificuldades para um eventual projeto do Marconi. Em primeiro lugar ele não deixa de ter pontos fracos na gestão. Ele continua tendo dificuldades aqui no Estado. 2015 não será fácil, a reforma administrativa talvez não dê resultado esperado em função disso”, visualiza.
No campo político, Mar­coni terá também dificuldades para pavimentar uma candidatura à presidência da República dentro do PSDB. Isso porque a cúpula nacional do partido é, majoritariamente, paulista e abre pouco espaço para lideranças de fora do Estado. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) foi uma exceção. Depois de muito lutar para ganhar espaço interno, Aécio conseguiu ser candidato no ano passado, depois de três derrotas de candidatos paulistas.
O bom desempenho do mineiro ainda coloca outro obstáculo para Marconi – além de derrotar os políticos de São Paulo, o goiano terá que conseguir superar Aécio, que desde o fim do pleito de 2014 já é um nome forte para 2018. “A única chance que eu enxergo para o Marconi é se Lula for candidato. Aécio e Serra poderiam abrir mão fugindo de uma possível derrota e abriria espaço para Marconi. Poderia acontecer o mesmo que aconteceu em 1998, ser o fator surpresa”, analisa Luís Signates.

Ex-candidato
Diferentemente de Marconi, o senador Ronaldo Caiado tem uma atuação maior na política nacional. Foi único goiano a concorrer à presidência da República, em 1989, pelo modesto PSD (que não tem relação com o atual PSD). Na época, era presidente da União Democrática Ruralista (UDR). Ficou em décimo lugar (entre 22 candidatos), com quase meio milhão de votos em todo o país. Após disso, Caiado teve cinco mandatos de deputado federal, com destacada performance, principalmente, a partir de 2003, ao fazer oposição ao governo Lula. Foi líder da minoria na Câmara, por diversas vezes, ganhando destaque na mídia nacional.
Em 2014, Caiado deu um passo a frente em sua carreira política ao ser eleito senador. Desde a vitória nas urnas, o deputado intensificou sua oposição ao governo da presidente Dilma Rousseff (PT). Tal posicionamento está lhe dando cada vez mais exposição nacional, dividindo só holofotes da casa alta do Congresso com o senador Aécio Neves. Muitos acreditam que Caiado pode estar “exagerando na dose”, mas de qualquer forma a posição que o democrata está marcando em Brasília, sem dúvida, poderá que render espaço para uma candidatura nacional daqui a três anos e meio.
Os especialistas também veem com dificuldades uma possível candidatura viável de Caiado. “Não acredito que o Ronaldo Caiado seja um candidato forte. Ele é um candidato que representa dois setores apenas. Os setores agropecuaristas e dos médicos. É um candidato de muita violência. O discurso pode não funcionar”, vê Signates. Outra dificuldade será a fragilidade de seu partido, que diminuiu muito de tamanho na última década e pode sofrer mais desfalques com a criação de novos partidos. “Caiado não tem partido, é um partido sem força”, resume Itami Campos.


Iris, Maguito e Marconi já tentaram voo nacional

 

A história recente da política goiana mostra que algumas lideranças já tentaram, ou mesmo especularam, concorrer à presidência da República, mas não conseguiram sucesso nas articulações internas. O ex-governador Iris Rezende (PMDB), por exemplo, foi um dos que tentaram o voo nacional na década de 80. Foi uma década em que o peemedebista estava em alta nacionalmente. Iris deixou o governo de Goiás em fevereiro de 1986 para assumir o ministério da Agricultura. Dentre as políticas adotadas, Iris adotou estímulos para a produção, como o aumento do crédito rural para o campo. O plano deu certo, o que rendeu ao goiano o título de “ministro das supersafras”.
Em 1989, Iris Rezende estava com a moral em alta e atu­ou para ser o candidato do PMDB à presidência da Re­pública. O episódio ficou marcado, na política goiana, como o principal fator no rompimento entre Iris e o então governador do Estado Henrique Santillo. Isso porque Santillo não apoiou a postulação de Iris internamente no partido, preferindo a candidatura do então presidente da Câmara dos Deputados Ulysses Gui­marães. A falta do apoio de Santillo não foi determinante para Iris não conseguir a indicação, mas pesou contra o goiano. Ulysses foi o candidato, mas teve um desempenho fraco, para o tamanho do PMDB na época – ficou em sétimo lugar com pouco mais de 3,2 milhões de votos.
O ex-governador Maguito Vilela (PMDB) também sonhou com o voo nacional rumo ao Palácio do Planalto em 1998, quando deixou o governo para ser candidato ao Senado. Turbinado com o dado que o punha como o “governador mais bem avaliado do Brasil”, vários aliados de primeira hora o estimularam para tentar, via diretório nacional, uma candidatura à presidência. O plano, porém, não superou as fronteiras de Goiás. Nacionalmente, o PMDB já estava bem alinhado ao governo Fernando Henrique Cardoso e apoiou informalmente a sua reeleição.
Em 2006, no final de seu man­dato no Senado, Maguito foi cogitado, novamente, para ser candidato a um cargo nacional. A ideia era ser o nome do PMDB para a vice do presidente Lula, que disputou a reeleição. Ao contrário de 1998, desta vez o projeto chegou até Brasília, com um grupo de petistas animados com a possibilidade do partido aliado fazer parte da chapa majoritária em substituição ao empresário José Alencar, do modesto PRB. Com o desenrolar das articulações, o PMDB não conseguiu afunilar um nome, havia vários postulantes, o que contribuiu para a permanência de Alencar no cargo.
Neste ano, o governador Marconi Perillo, finalizando o seu segundo governo, também tentou se viabilizar para uma disputa nacional. A possibilidade viria no caso das principais lideranças do PSDB – leia-se o atual senador Aécio Neves e o atual governador de São Paulo Geraldo Alckmin – desistissem da candidatura devido a aprovação alta do governo Lula na oportunidade. Alckmin, porém, levou a frente o seu projeto, inviabilizando o goiano.


Marconi ou Caiado no Palácio do Planalto. É possível?

 

Luís Signates, professor de Jornalismo: A única chance que eu enxergo para o Marconi é se Lula for candidato. Não acredito que o Ronaldo Caiado seja um candidato forte”

Robinson de Sá, cientista político: Há grandes dificuldades para um eventual projeto do Marconi. Existe muita dificuldade dentro do PSDB. Caiado tem que ter um discurso que empolgue setores empresariais”

Paulo de Jesus, presidente regional do PSDB: “É difícil. Somente com ação e comunicação política muito grande, mas a capacidade de Marconi, tanto gestora como política, não pode ser desprezada”

Fábio Sousa (PSDB), deputado federal: Mesmo que o Marconi não seja candidato, vejo uma grande chance de o PSDB ganhar as próximas eleições. Com isso, Marconi vai ganhar destaque

Odair Rezende (DEM), prefeito de Quirinópolis: É difícil. Todos têm competência. Tudo vai depender do desenrolar dos próximos anos. Ronaldo Caiado terá que costurar

Paulo Ségio de Rezende (DEM), prefeito de Hidrolândia: Caiado é um nome importante, mas tem que haver aglutinação partidária. E tem que mostrar o trabalho. Hoje, com as redes sociais, é bastante favorável”


Aliados políticos veem dificuldades para Perillo

A questão de deixar a política local e migrar para o cenário nacional com força para ser candidato viável à presidência da República é um caminho pra lá de espinhoso, até mesmo na opinião de aliados políticos do governador Marconi Perillo e do senador Ronaldo Caiado. Sobre a questão de vencer a queda de braço com a cúpula paulista, por exemplo, o presidente regional do PSDB Paulo de Jesus tenta elaborar uma receita. “É difícil. Somente com  uma ação política e uma comunicação política muito grande”, avalia. Mesmo assim, o tucano vê que a “capacidade política e gestora de Marconi” não podem ser desprezadas.
A deputada Magda Mo­fatto (PR) vê a possível mu­dança de partido de Marconi como uma saída para ser candidato à presidência. “Vejo que é grande a chance de Marconi ser candidato, apesar de que dentro do PSDB eu vejo poucas chances”, analisa. Mas, caso Marconi mude de partido, a ação também não significaria perder força? “Tenho certeza de que não vai ser difícil conseguir apoios. Os aliados de hoje podem continuar com ele em outro partido”, defende.
Tucanos, porém, discordam que Marconi possam mudar de partido para viabilizar seu projeto nacional. “Eu não acredito. Não é o pensamento. É difícil. Ele é muito ligado ao PSDB. Mesmo que o Marconi não seja candidato, vejo uma grande chance de o PSDB ganhar as próximas eleições. Com isso o Marconi vai ganhar mais destaque ainda com algum ministério. Vai acontecer naturalmente”, vê o deputado federal Fábio Sousa. O vereador Thiago Albernaz (PSDB) também refuta a ideia: “Marconi é tucano, é partidário. Só sai sendo candidato pelo PSDB”.

Motivação
Apesar das dificuldades de espaço político e partido nacionalmente pequeno, prefeito do DEM em Goiás acreditam que é possível que o senador Ronaldo Caiado possa disputar a presidência da República. “Ronaldo Caiado terá que costurar. Mas a história dele vai ser levada em consideração. O DEM é um partido pequeno, mas o Ronaldo Caiado é competente, integro tem um passado sem mancha”, defende o prefeito de Quirinópolis, Odair Rezende (DEM).
O prefeito de Hidrolândia, Paulo Sérgio de Rezende (DEM), vê que a forma contundente de fazer política e críticas ao governo federal é algo que lhe dá destaque, mas também pode ser ‘uma faca de dois gumes’. “Ronaldo está fazendo o papel dele de oposição. Conta pontos positivos e negativos. Da mesma forma que tem gente que gosta, tem gente que não gosta”, vê. E sobre a possibilidade da candidatura de Caiado: “É um nome importante, mas tem que haver aglutinação partidária. Tem que mostrar o trabalho. Hoje com as redes sociais é bastante favorável”.

 

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