Na contramão, mas quando convém

0
718

FAGNER 2

A aproximação do prefeito de Goiânia Paulo Garcia (PT) e do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), revelou, além da tentativa da trégua de uma disputa histórica de poder na capital entre partidos antagônicos e de mandatários que enfrentaram, cada um em sua administração, crises políticas ou administrativas, um novo ponto comum entre os dois: a de que ambos seguem na contramão do que pregam as direções de seus partidos.

Filiados a partidos que primam pela postura fiel a seus ideiais, tanto o governador de Goiás quanto o prefeito de Goiânia, por vezes, desafiam essas posturas. Marconi desafia e, por vezes, discorda das decisões da direção nacional de seu partido desde sua primeira eleição para o governo de Goiás, enquanto Paulo, por sua proximidade com o ex-governador Iris Rezende, por vezes foi taxado de peemedebista entre os radicais de sua legenda.

Paulo Garcia cresceu dentro do PT com o apoio de Iris Rezende. Quando foi indicado para ser vice de Iris nas eleições municipais em 2008, Paulo era considerado por muitos como um nome do segundo escalão político do PT. Ele já havia sido eleito deputado estadual uma vez, em 2002, mas não conseguiu se reeleger em 2006.

Desde então, Paulo não esconde de ninguém sua gratidão ao ex-governador. Em 2010, ele assumiu a prefeitura de Goiânia quando Iris foi disputar as eleições estaduais e, nas eleições de 2012, com apoio de Iris, Paulo conseguiu sua reeleição no primeiro turno.

Nas eleições do ano passado, o prefeito de Goiânia foi contra a decisão de seu partido que lançou o então prefeito de Anápolis, Antônio Gomide, como candidato ao governo. Para Paulo, o natural seria o PT se aliar a Iris e indicar um candidato a vice. O posicionamento de Paulo gerou desgastes entre seus aliados políticos e os aliados políticos de Gomide e do deputado federal Rubens Otoni.

Já Marconi, em sua primeira eleição ao governo, em 1998, foi candidato contra o PMDB de Iris Rezende, na época aliado do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). É verdade que, na época, o que inviabilizou a união dos dois partidos em Goiás foi a negativa do PMDB em ceder a vice de Iris para os tucanos. Após isso, o PSDB se firmou como oposição ao PMDB em Goiás. Com a saída da pré-candidatura Roberto Balestra (PP), Marconi Perillo, de última hora, decidiu encarar o desafio e ser candidato ao governo.

Apoiado pela oposição e pelas forças ligadas ao governos da Ditadura Militar, que comandaram Goiás antes da década de 1980, e por aliados de Henrique Santillo, Marconi tocou sua candidatura em um projeto contrário ao nacional e conseguiu vencer Iris Rezende, quebrando 16 anos de poder do PMDB em Goiás.

Nas eleições nacionais em 2002, Marconi muitas vezes defendeu a não candidatura do PSDB, por conta dos desgastes do governo FHC. Contrariado, viu José Serra ser lançado como candidato e ser derrotado por Lula. Em 2006, ao contrário da decisão nacional de seu partido, ele apoiou a candidatura de José Serra, contra a que venceu: a de Geraldo Alckmin, que novamente foi derrotado por Lula.

Já em 2010, o então senador Marconi Perillo defendeu prévias para a disputa, assim como Aécio Neves, então governador de Minas Gerais e Tasso Jereissati (CE) então presidente nacional do PSDB. Mas uma pressão feita pela ala paulista do PSDB pela escolha de Serra fez com que Aécio desistisse de sua pré-candidatura.

Agora, é a vez de Dilma. Desde metade de seu terceiro mandato, o governador de Goiás buscou ter um bom relacionamento com a presidente da República. Esse posiocionamento foi mantido durante as eleições, quando Marconi apoiou a candidatura de Aécio Neves, mas em momento algum teceu críticas públicas à Dilma.

No início do segundo mandato da presidente, o governador de Goiás foi o primeiro a ser contra, publicamente, os pedidos de impeachment que volta e meia eram pedidos por alguns líderes tucanos, como os senadores José Serra e Aécio Neves, o governador do Paraná, Beto Richa, e o próprio presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, que disse que o impeachment de Dilma poder-se-ia dar por “ingovernabilidade e não necessariamente por crime cometido”.

Com a manifestação pública de Marconi, outros nomes passaram a descartar a possibilidade de impeachment, como o próprio Beto Richa, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o senador Aécio Neves. Embora publicamente defenda a presidente, Marconi, em meio a tucanos em uma reunião do Instituto Fernando Henrique Cardoso, criticou a presidente, segundo reportagem da Folha de São Paulo da sexta, 20.

Isso fora a própria aproximação iniciada entre ambos – Paulo e Marconi – no início deste ano. O posicionamento dúbio deles é simples de se entender. Os dois vão na contramão de seus partidos quando há algum ganho, seja polítco, seja administrativo, para ambos.

Paulo teve o ganho político ao apoiar e se ligar a Iris Rezende. Hoje ele é uma das maiores forças do partido em Goiás, ao lado de Rubens Otoni e de Antônio Gomide. Mas, com o ganho consolidado, Paulo Garcia dá algumas mostras de que a união entre PMDB e PT está chegando ao fim. Uma delas foi que diante da possibilidade do PMDB lançar uma candidatura própria nas eleições municipais do próximo ano, inclusive com o nome de Iris Rezende como favorito, ele disse, há algumas semanas, que estava na hora de Goiânia ter uma prefeita mulher, em clara referência a uma possível candidatura da deputada estadual Adriana Accorsi, de seu partido, para a prefeitura de Goiânia.

Marconi, por sua vez, vem colhendo vitórias políticas com seu posicionamento. Ao ir na contramão da cúpula de seu partido, em 2010, por exemplo, ele fez seu nome crescer politicamente, ao ponto de ser considerado um possível candidato ao governo federal naquele ano. A possibilidade não se concretizou, mas ele passou a ser constantemente lembrado como uma terceira via em seu partido em meio à disputa da ‘política café-com-leite’, que comanda o PSDB.

Suas atitudes de aproximação, troca de elogios e, neste momento, de defesa da governabilidade da presidente Dilma Rousseff e da manutenção da legitimidade da mesma como presidente da República é como um espelho para ele, que passou por uma situação desgastante em 2012, em meio a Operação Monte Carlo.

A partir daquele momento, com os empréstimos conseguidos junto ao governo federal, Marconi reergueu a sua imagem, o que culminou na sua reeleição dois anos depois. E sua defesa neste momento da governabilidade de Dilma, tem um ‘quê’ de interesse próprio, afinal, o sucesso de seu quarto mandato dependerá muito de um governo tranquilo e sem crise, inclusive econômica, da presidente Dilma Rousseff, que deverá destinar mais verbas ainda para Goiás nos próximos anos.

Marconi não é mais candidato ao governo, mas trabalhará para eleger seu sucessor – hoje o vice-governador José Eliton (PP) – e, claro, para alçar seu projeto nacional. Para isso, depende de uma boa administração. Para isso, ele depende de Dilma Rousseff. Ou seja, hora da guinada para a contramão. Nem que seja por alguns quilômetros, apenas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here