“PSDB precisa aprender a se trancar e conversar”

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P 2 - FABIO SOUZA DEPUTADO -FOTO PAULO JOSE 059Tribuna do Planalto – O senhor assumiu a presidência da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara. Gostaria de saber qual a sua expectativa à frente desta importante comissão?

Fábio Sousa – Assumi com a missão muito importante de representar aqueles que estão em um primeiro mandato. Raramente um deputado no primeiro ano de um primeiro mandato assume uma comissão. Eu estou assumindo uma comissão com assuntos importantes para o Brasil, com viés técnico. Quero trazer um pouco da minha visão para estes assuntos. Pecamos muito em falta de incentivo à educação tecnológica, por exemplo. No caso dos Brics, nós empatamos apenas com a Rússia, ficando atrás de China e Índia em inovação tecnológica. O investimento hoje é de 1% do orçamento, enquanto que a comunidade científica pede um financiamento de mais de 2%. Quero usar a comissão para isso, trazendo cientistas e pesquisadores para discutir assuntos na Câmara. Meu primeiro passo será tratar a regulamentação da profissão de cientista no Brasil, algo que não existe.

Nos países chamados de Tigres Asiáticos, há muito investimento em pesquisas tecnológicas financiadas pela iniciativa privada, mas aqui no Brasil, nas universidades públicas, há uma resistência por esse tipo de financiamento. O que o sr. acha disso?
Existe uma resistência, pois não há uma tradição de investimento em inovação. Mas a própria academia é muito interessada neste aspecto, já que a maioria de pesquisadores do Brasil são professores universitários.

No final do ano Rio Verde será a primeira cidade do Brasil que terá sinal de TV 100% digital. Como ficarão as famílias que não dispõem de TVs digitais?
Há duas semanas visitei o ministro de Comunicações e o ministro de Ciência e Tecnologia e um dos assuntos abordados foi esse. Rio Verde será a cidade teste. É fundamental que o teste funcione. E uma das ideias que ele conversava com a ministra Tereza Campello, de Desenvolvimento Social e Combate à Fome do Brasil, era da possibilidade dos bolsistas do Bolsa Família recebessem gratuitamente o aparelho que faz a conversão do sinal. Além deles, outros moradores também receberiam o aparelho. Rio Verde tem que dar certo, pois as próximas cidades serão Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro… Caso Rio Verde dê errado o processo não vai para frente e precisará passar por ajustes.

Como é chegar a uma Casa de 513 parlamentares, como a Câmara Federal, depois de passar dois mandatos na Assembleia e um na Câmara de Goiânia?
É uma experiência um pouco assustadora, mas que nos adaptamos rapidamente. Saí de um universo de 41 deputados e fui para um de 513 candidatos. É uma Casa que funciona três dias por semana o dia inteiro – e muitas vezes seguindo pela madrugada – com comissões funcionando ao mesmo tempo. É, praticamente, uma cidade, com 18 mil habitantes. Concordo com a afirmação do Tiririca, que diz que o deputado é uma pessoa que trabalha muito e produz pouco, pois a burocracia impede que você produza. Eu também sou membro da comissão de Agricultura, mas tive que pedir para trocar, pois havia choque de horários, por exemplo. Agora creio que vou para a de Esportes. Além disso, participo da comissão da Reforma Política também e não quero faltar nenhuma reunião da CPI da Petrobrás. E ao mesmo tempo temos que estar na ordem do dia, ou seja, é alucinante.

Há clima para passar a reforma política?
Há. Só espero que não seja uma ‘reforminha’. Tudo indica que será. Mas mesmo, se não passarmos por uma ‘reforminha’, jamais chegaremos à reforma política de fato.

Quais os pontos que devem ser votados?
Se fala muito em coincidência de eleições, com mandato de 5 anos e sem reeleição para cargos do executivo; financiamento público e fim das coligações. O PMDB, que tem a presidência das duas casas, defende o voto distritão e o PSDB defende o voto distrital… Todos querem opinar. Mas o que esperamos é que a reforma passe, mesmo que seja pequena.

O financiamento entrará nesta pauta agora?
Sim. Eu não era a favor do financiamento público, pois achava que a população não deveria pagar por isso. Mas depois de uma eleição tão pesada, pela qual passei, na qual eu vi que o poder financeiro e o poder da máquina fazem uma diferença enorme, esmagando quem tem propostas ou ideias ou uma folha de serviços prestados, vi que a discussão tem que ocorrer. Outro problema são os financiadores de campanha, que depois querem financiar o mandato do parlamentar. Por isso o financiamento público não é ruim, mas não resolve o grande problema de financiamento de campanha, que é o Caixa 2.

Muitos acham que ajudaria na fiscalização, uma vez que com um mesmo número de recurso para cada deputado, aquele que apresentar uma campanha que extrapole as outras, estaria usando o Caixa 2…
Mas hoje há a condição de ver isso também. Na declaração do candidato entregue ao TRE é possível bater com a campanha e descobrir isso. Outro problema na questão do financiamento público é o problema com o domínio interno de cada partido. Todo o partido vive dentro de um ‘caciquismo’. Temos donos de partidos que tomam as decisões, escolhem os candidatos preferidos, e os demais têm que se encaixar. Se não houver democracia interna, como falar de voto de lista fechada? Como falar de financiamento público? Como falar de fidelidade partidária?

Há críticas em torno do voto distrital que falam que a liderança dos deputados ultrapassam os distritos. O sr., por exemplo, é uma liderança religiosa que teve votos espalhados em Goiânia. Como vê essa questão?
Sou uma liderança religiosa, mas eleitoralmente minhas quatro eleições comprovam que eu extrapolo isso, ao ponto de ser o deputado mais votado em Pirenópolis pela terceira vez. Os defensores dessa posição falam que você traria a população para perto de seu deputado e os críticos dizem que você faria vereadores no Congresso. Só pensariam regionalmente. O grande problema é chegar neste denominador comum que os EUA já conseguiram há muito tempo. O sistema deles deveria ser seguido e não o de outros que não se encaixam coma realidade do Brasil, que é um país continental.

O sr. é a favor?
Confesso que não tenho uma opinião formada. Hoje eu seria favorável ao voto distrital misto, mas estou aberto às discussões.

Como tem visto essa primeira parte da sucessão aqui em Goiânia? O sr. é candidato? Vê como possível a união da base aliada?
Bom, eu coloco meu nome, mas não a ferro e fogo. Gato escaldado tem medo de água. Já tive uma experiência de falar sozinho no deserto eu não vou a ferro e fogo. Eu não seria instrumento de inimizade partidária. Essa briga interna geralmente prejudica o partido e no que depender de mim, não vai haver esse racha interno. O PSDB erra muito em não apresentar candidato desde o ano de 2000. Meu debate não é falar que o Paulo Garcia é isso é aquilo outro, meu debate é falar que depois do Paulo Garcia como nós vamos resolver esses problemas.

O sr. está construindo o seu projeto?
Como eu disse, não a ferro e fogo, não vou entrar em bola dividida. A imprensa, os políticos e, principalmente, o meu partido, sabem que eu tenho preparo, sabe que eu tenho capacidade, onde eu fui colocado eu dei conta do recado, e graças a Deus sem nenhuma mancha, mas com muito trabalho. Eu tenho um projeto para Goiânia, meu projeto não é a ferro e fogo, não é vaidoso, não é um projeto para o Fábio Sousa, é um projeto para Goiânia.

O sr. já passou por esse processo uma vez e acabou se chateando e se desgastando. No ano que vem se o sr. sentir que pode ocorrer o mesmo problema, de apresentar seu nome e sentir que há um jogo de cartas marcadas, o que vai fazer?
Se eu sentir eu nem entro. Mas, chateado eu não fiquei não.  Política a gente não pode fazer com o coração se não passa mal. Tem que fazer com estômago mesmo.

E aquele argumento que teriam dito que o sr. representaria apenas o setor religioso?
Olha, quem falou isso é uma pessoa que deveria ser questionada se quer ou não contribuir com o partido. Este segmento pode ser que apresente na próxima eleição para prefeito três candidatos. Quando você vai colocar uma pessoa para administrar uma cidade você não pode levar em consideração a religião dela, mas sim a competência dela.

O sr. falou de bola dividida. Acredita que o presidente da Agetop, Jayme Rincón, antecipou esse processo de escolha do nome no PSDB?
O Jayme Rincón é um dos gestores mais competentes que nós temos. Ele é um tocador de obras, uma pessoa para frente, determinada, é uma pessoa que tem traquejo, que sabe tratar bem as pessoas, enfim, é uma pessoa que eu respeito. Eu jamais vou cercear a vontade de alguém ser candidato. Se ela é filiada e está dentro da legislação ela tem todo o direito de se viabilizar e o Jayme tem todos os quesitos para isso. Eu só acho que o processo não pode ser tão antecipado e não pode ser desrespeitoso com os outros que querem fazer parte do processo.

O sr. disse que iria se unir com os outros deputados federais tucanos e conversar com o governador em relação a sucessão do PSDB regional, para indicar um candidato, poderia até ser um de vocês. Houve essa conversa?
O que nós deputados estamos tomando iniciativa é de conversar. O que nós queremos é estar dentro do processo. São seis deputados federais e queremos nos juntar aos deputados estaduais. O PSDB precisa aprender a se trancar dentro de uma sala e conversar. A ideia nossa de deputados federais é agirmos juntos. Nós temos bons nomes que podem se candidatar. A ideia é sentar e conversar.

Essa conversa foi o que faltou na eleição do PSDB metropolitano, na escolha de Rafael Lousa?
Não. Não é que faltou. É porque houve uma informação dizendo que “o candidato vai ser ele e pronto”. Mas espera aí… E os deputados estaduais e federais, não vão ser ouvidos? Os vereadores são importantes? São importantíssimos. Lógico que tem que ser considerada a opinião deles. Mas o Rafael, que é meu amigo pessoal, veio conversar comigo e também falou com os outros deputados. Não é um mau nome. É um bom nome. Essa construção é importante. Ele, agora, está procurando fazer essa construção.

José Eliton é o candidato natural da base ao governo?
Olha, eu não quero nem ser mal interpretado. O José Eliton é muito meu amigo, é uma das pessoas mais inteligentes desse Estado. Eu não falo que ele é candidato natural porque candidato natural é aquele candidato à reeleição. Esse é o candidato natural. O resto tem que construir. Talvez ele esteja na frente porque ele provavelmente vai assumir o governo. No dia que ele assumir o governo ele é candidato natural. Até lá vai tentar construir esse consenso, mas não vai ser um processo fácil. Unir a base não é uma equação que se encaixa com facilidade. O que José Eliton não sabe politicamente tem toda capacidade de aprender. E tem toda condição de se tornar o candidato natural.

E essa dificuldade hoje de unir a base que é marconista sem ter o Marconi na cabeça de chapa?
É o grande desafio. Para as eleições municipais, especialmente Goiânia, já vai ser uma dificuldade. Dentro da base do Marconi nós vamos ter dois ou três candidatos. Para o governo, nós vamos ter que fazer de tudo para não desfacelar essa base tão vitoriosa. Isso vai depender muito José Eliton se ele for candidato, mas vai depender também do Marconi. Essa coordenação vai ser do Marconi.

O sr. acredita que o PTB possa ir para a oposição depois desse atritos?
Acredito que não. A amizade do Jovair com Marconi é uma amizade verdadeira. Amizade verdadeira de vez enquanto tem briga mesmo.

Sendo candidato, o sr. poderia enfrentar Iris Rezende. O deputado Sandes Junior (PP) disse, em entrevista recente, que enfrentar o Iris em Goiânia é o mesmo de enfrentar Lula em Pernambuco. O sr. concorda com ele?
Nós estamos falando de uma pessoa que merece respeito de todo mundo, dos seus aliados e de qualquer adversário, mas Iris não é imbatível. Em minha opinião, não existe pessoas imbatíveis. Há processos difíceis, mas processos imbatíveis não. O Iris não é imbatível na capital.

 

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