Quarenta dias de consagração

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A 1 -  Quaresma é simbolizada de roxo2

A quarta-feira de cinzas marca o início do período do ano reservado à reflexão pelos católicos. De acordo com o frei Fernando Peixoto Inácio de Castro, vigário provincial do Convento São Francisco de Assis, o tempo consiste em seis semanas que celebram os 40 dias de jejum que Jesus passou no deserto antes de dar início a seu ministério. O período representa para os cristãos, especificamente, para os católicos, um momento de reavaliação de sua conduta.

Do latim “quadragésima”, Paulo Afonso Tavares, jornalista e mestrando em Ciências da Religião, explica que o número é bastante significativo dentro das Sagradas Escrituras. “O dilúvio teve a duração de quarenta dias e quarenta noites e foi a preparação para uma nova humanidade. Durante quarenta anos o povo hebreu caminhou pelo deserto rumo à terra prometida”, comenta.

Tavares enumera outros quatro eventos bíblicos que também tiveram a marca dos 40, sendo eles a penitência de 40 dias realizada pelo povo de Nínive, para receber o perdão de Deus, a caminhada do profeta Elias antes de chegar à montanha de Deus, e os períodos de oração e jejum de Jesus e Moisés. “Preparando-se para cumprir sua missão entre os homens, Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites. Moisés fez o mesmo”, elucida.

A história mostra que o período sofreu algumas mudanças de sentido ao longo dos anos. O frei Fernando de Castro explica que, no princípio, era um tempo de preparação para o batismo, uma espécie de curso que durava três anos, sendo que os últimos 40 dias eram intensificados. “Ao passo que não haviam mais adultos para serem batizados, a quaresma passou a ser um chamado de conversão, um período de penitência para celebrar a páscoa”, explica.

Para o estudante Wandrey Pires de Oliveira, 21 anos, a quaresma representa o tempo de preparação para a Páscoa. “É um tempo em que nos dedicamos ao jejum, esmola, caridade, preparando nosso espírito para a grande festa que é a Páscoa”. Wandrey conta que vivencia os costumes desde os 10 anos de idade, que foi quando ele se converteu ao catolicismo, por intermédio de sua avó.

Já para Thelma Cristina Martins Vieira, 32 anos, servidora pública, o período representa um retiro espiritual. “É quando me recolho para reflexão, penitência e meditação, por meio da prática do jejum, da esmola e da oração”. Thelma explica que os 40 dias de Quaresma servem como um recomeço anual. “É uma espécie de renascimento nas questões espirituais e de crescimento pessoal”, afirma a servidora pública.

Atos de piedade

Habituais no período, as penitências são uma tentativa de retratar a vida de Cristo, durante seu retiro para o deserto e de sofrimento até sua morte. Para o frei Fernando de Castro, é mais do sacrifício, mas costumes penitenciais, cujo papel é ajudar o fiel a renovar seus compromissos com Deus e a Igreja. “Esse período chama o fiel de novo ao primeiro vigor na fé. A Igreja sugere os atos penitenciais como atos de piedade”, pondera.

O pesquisador Paulo Afonso Tavares aponta que esse período marca o chamamento da Igreja a seus filhos, em todo o mundo, a uma mudança de vida, convidando os fiéis à penitência. De acordo com ele, a penitência não é cortar alguma parte da comida ou da bebida, mas sim, mudança de idéias. “É mudar a maneira de pensar e de julgar. É justamente isso que significa a palavra grega ‘metanóia’, donde derivou o equivalente à palavra penitência”, esclarece.

Wandrey Pires conta que, durante a Quaresma, deixa de comer qualquer tipo de carne à quartas e sextas-feiras. “A minha prática é retirar qualquer tipo de carne. Além disso, procuro meditar a Palavra de Deus todos os dias”. O jovem também observa o comportamento durante os dias de separação. “Procuro fazer também o jejum tanto da língua, regulando minhas palavras, quanto dos espaços, evitando lugares que não condizem com a fé cristã”, explica.

No mesmo sentido, Thelma Cristina afirma que faz o sacrifício de ficar sem comer algumas coisas das quais goste muito. “Nesta Quaresma, por exemplo, estou sem comer arroz, pão e sem tomar bebidas alcoolicas e refrigerantes”. Ela conta que tem o hábito de fazer as penitências desde a adolescência. “Sempre vi minha mãe fazendo uma penitência nesta época do ano, o que me ensinou o sentido e significado da Quaresma na vida cristã”, observa.

Transformações dogmáticas

As mudanças de costumes no hábito das penitências foram naturais, para o frei Fernando de Castro. De acordo com ele, houveram muitas modificações ao longo dos anos, porque esses atos surgiram na lei judaica, que é bastante rígida em suas observações. “Não se admitia alguns costumes mundanos, como festas, celebrações de casamentos, pois o objetivo era que toda a comunidade entrasse naquele espírito de penitência”, expõe.

Hoje, o frei explica que com a secularização da sociedade, a Igreja se tornou mais moderada. “Muitos ainda mantêm aquela antiga compreensão, mas hoje em dia essas coisas estão mais moderadas. As normas já são outras, mais simples”, comenta. Agora, o foco está na atitude penitencial que, em suas palavras, é uma atitude de necessitado. “Mais do que a prática externa, a Igreja exige do fiel uma atitude”, assegura.

Paulo Afonso Tavares, católico e pesquisador em Ciências da Religião, afirma que a atitude penitencial, atualmente, propõe uma batalha para a mudança para melhor da maneira de pensar, a qual ele categoriza como pouco esclarecida. “As nossas convicções erradas, os nossos critérios distantes da justiça e da verdade. A Igreja, na Quaresma, pede a cada cristão que tenha a coragem de fazer esta mudança, por dentro, pela consciência e pelo coração”, diz.

Em sua opinião, para que esta mudança se concretize e manifeste, é preciso eliminar algumas coisas que, tantas vezes se opõe a essa mudança. “Daí o pedido da Igreja para que cada cristão se abstenha daquilo que mais o prejudique. A uns, pede que limite-se nos prazeres da comida; a outros na bebida; a estes que não cedam à sensualidade; àqueles que evitem a ganância; e a todos que sejam justos e amem a Deus sobretudo e aos semelhantes como a si”, verifica.

Para Wandrey essa mudança de valores é real. “Antigamente, havia a prática do jejum apenas de alimentos. Hoje, é feito daquilo que mais custa caro a cada um, por exemplo mídias sociais”. O estudante, entretanto, acredita que a prática continua a mesma, apenas o objeto foi trocado. “O jejum pelo jejum ou que segue alguma tradição, sem a prática da caridade, torna-se algo infrutuoso. É algo que não é recomendado”, argumenta.

Na opinião de Thelma Cristina, não houve modificação. “Pelo menos das pessoas do meu convívio, acho que não (risos). Mas, vejo que com o passar do tempo muitas pessoas deixam de ter esse hábito”, analisa. O frei Fernando de Castro explica que a exigência das penitências não recai sobre todos os fiéis. “A abstinência de carne começa aos 14 e vai até 60 anos de idade. Jejum começa aos 18 anos e somente para as pessoas sadias”, informa.

Tradição familiar

O religioso acredita que a adesão entre os fiéis é comumente pequena. De acordo com ele, nos mosteiros e grupos religiosos mais devotos, os costumes são praticados, certamente. “Os pais já não dão conta de incutir esses costumes e práticas em seus filhos. Antigamente, havia outras práticas rigorosas, mas depois com a secularização houve uma mudança. E como os fiéis estão mergulhados no mundo, é difícil exigir esse tipo de hábito”, lamenta.

Neste sentido, tanto Wandrey, quanto Thelma pretendem repassar os costumes da penitência durante a Quaresma para seus futuros filhos. Wandrey baseia-se no compromisso religioso. “Muitas tradições são fortes nas famílias. Até mesmo porque é um compromisso que se faz no casamento, que é educar os filhos na fé da igreja. Assim como eu recebi de minha avó, eu pretendo ensinar meus filhos, quando tiver”, determina.

Thelma Cristina também recorre à tradição familiar e conta que aprendeu a observar os hábitos com a mãe desde pequena. “Como cresci neste hábito e essa tradição vem sendo passada por gerações na minha família, acho muito importante continuar repassando”. Para ela, além de caracterizar o momento de reflexão para a conduta cristã, também é uma época que está muito relacionada à união familiar.

A Páscoa em outras religiões

Apesar de a maioria do país ser ainda católica, membros de outras religiões também ocupam espaço de destaque no quadro da população brasileira. Mesmo sendo uma comemoração cristã, a Páscoa é celebrada em todo o País, ainda mais com a tradição dos ovos de chocolate que lotam os supermercados e lojas especializadas no produto. Mas, nem todo mundo entra no clima da festa que, na tradição católica, celebra a ressurreição de Cristo.

A Doutrina Espírita, por exemplo, não possui nenhuma espécie de culto a simbologias ou ritos. Ivana Raisky, presidente da Federação Espírita do Estado de Goiás (FEEGO), explica que essas comemorações fazem parte da liturgia católica. “A Páscoa não tem uma simbologia no Espiritismo. Nós valorizamos a vinda de Jesus e os ensinamentos que ele deixou, mas não temos esses rituais”, esclarece.

Já os evangélicos acreditam ser uma data importante, uma vez que marca a ressurreição de Cristo, momento que é a base para a religião. Contudo, de acordo com Enoque Vieira da Silva, pastor e 2º vice-presidente da Assembleia de Deus de Campinas, para os evangélicos a introspecção é feita diariamente. “A ressurreição é o maior fato da cristandade. Por isso, viver a ressurreição é algo perene para nós. Ressurgirmos todos os dias para Ele”, instrui.

Por outro lado, no Judaísmo, a Páscoa relembra um momento totalmente diverso: o êxodo do povo hebreu do Egito. Amos Blanche, presidente do Centro Israelita Goiás (CIG), conta que a única ligação com a Páscoa Cristã é a última ceia de Jesus, que foi a ceia pascal, já que ele era judeu. “Basicamente, são oito dias, durante os quais os judeus são proibidos de comer qualquer produto que tenha fermento”, explana.

Na tradição judaica, as leis são mais rigorosas, com relação aos hábitos alimentares. Os religiosos não podem comer carne de porco, de caça, entre outros animais que, no Brasil, não costumam fazer parte do cardápio tradicional, tais como cachorro e cavalo. “Mas, essas restrições valem para o ano todo e não apenas para alguns dias do ano, como ocorre na Quaresma católica”, conclui.

 

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