Trabalho em equipe

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Operações que envolvem conhecimento matemático nem sempre são uma unanimidade entre os estudantes. No entanto, a dificuldade com a disciplina pode ir além de um simples não gostar ou da falta de dedicação. As causas envolvidas podem ser muitas, mas o fato é que em alguns casos pode representar um tipo de transtorno, a discalculia, uma desordem neurológica específica que afeta a habilidade de uma pessoa para a compreensão e manipulação dos números.

A criança com discalculia apresenta incapacidade para compreender vários sinais na matemática, classificar números, montar operações e dificuldades também com vários processos cognitivos. A patologia despertou a atenção de professores e alunos do nível fundamental da Escola Sesi Canaã, em Goiânia. Juntos, eles desenvolveram um projeto inovador relacionado à robótica, o Avatar (Ambiente Virtual de Aprendizagem e Tecnologias Associadas em rede). O portal congrega um conjunto de atividades lúdicas que foram criadas para repassar ensinamentos matemáticos para crianças que apresentam a discalculia.

Além dos jogos presentes no Avatar, que podem ser acessadas por meio do endereço eletrônico http://robotscanaa.wix.com/avatar, os estudantes criaram um conjunto de jogos e dinâmicas que colaboram com o ensino de robótica. Neste último caso, as atividades integram as dinâmicas de um laboratório inaugurado recentemente na unidade de ensino, que terá a função de auxiliar os estudantes. Inicialmente, o projeto atenderá alunos do 4º ao 6º ano da escola. Eles terão o apoio de alunos da equipe responsável pelo projeto e coordenação de professores de apoio e de uma psicóloga.

O Avatar

Quem tem discalculia encontra no portal uma série de atividades matemáticas educativas que são baseadas em jogos. É um jeito divertido de aprender sobre cálculos e formas geométricas. Professor de robótica do Sesi/Canaã e um dos responsáveis pelo projeto, José Rodrigues Nazaré de Barros Júnior conta que trabalhar com o tema e a criação das atividades foi bastante desafiador no início, pois não encontravam um referencial teórico. “Para esse tema nós encontramos um único livro do neurologista infantil. Ele é bastante legal, tem diagnóstico, processo de tratamento, porém foi muito difícil. Não encontramos nenhum outro material”, explica.

Para começar a formatar o projeto voltado para o ensino matemático direcionado para os estudantes com discalculia, o professor primeiro procurou entender a dislexia. “Em 15 % dos casos de dislexia a discalculia está presente, então entramos em contato com a Associação Goiana de Dislexia, e partir daí tudo começou, antes a psicóloga de apoio fazia esse acompanhamento na sala de aula e agora faz esse trabalho aqui no laboratório”, explica Júnior.

Trabalho coletivo

A equipe que integra o projeto voltado para alunos discalcúlicos conta com dez estudantes da instituição. Eles fazem parte da equipe Robots, bi-campeã (2013 e 2014) do Torneio de Robótica FLL (First Lego League) – Região Centro-Oeste. Para o estudante Júlio César Menezes Rodrigues, 13 anos, membro da equipe responsável pelo Avatar , o projeto de pesquisa é divertido de ser trabalhado e tem um tema importante. “Esse assunto não é muito conhecido. Eu fico muito grato porque muitas pessoas têm essa dificuldade e não têm apoio nas suas escolas. A gente se diverte muito no processo”, conta.

Júlio César destaca ainda a existência de um conjunto de atividades para os alunos que possuem a discalculia. Dentro desse contexto, uma das propostas do projeto é um calendário semanal que o discalcúlico terá que seguir. O calendário é composto por jogos e atividades lúdicas. Um dos exemplos de jogos é o Conte Comigo (que também dá nome ao laboratório da instituição), um jogo de cartas que reúne uma série de imagens relacionadas a quantidade de elementos, formas geométricas e números, cujo o objetivo é facilitar o aprendizado matemático.


Mão na massa

De acordo com o professor José Júnior, um dos responsáveis pela coordenação do projeto de ensino matemático, todo o conteúdo foi criado pelos alunos membros do projeto. “Todos os jogos são inéditos e criados por eles, no computador, no tabuleiro, nas cartas, enfim, todos. Com base na pesquisa que fizemos, depoimentos dos professores e no que eles observaram, os alunos puderam criar os jogos”, conta.

Com uma primeira etapa do projeto concluída, o objetivo agora é ir além da sala de aula e proporcionar aos alunos que sofrem com a discalculia uma possibilidade de atenção maior no aprendizado da matemática. A equipe também conta com o apoio da psicóloga educacional Flávia da Silva Passos Spíndola, que oferece apoio aos estudantes. Segundo ela, o atendimento aos alunos é realizado de maneira individual e também coletiva.

“Fazemos atividades avaliativas adaptadas. Eles têm um atendimento especial, cada um de acordo com a necessidade”, explica. Flávia destaca ainda que as atividades desenvolvidas estimulam a aprendizagem e o desenvolvimento do raciocínio lógico. “Eles não têm que escrever. São os jogos que vão estimular esse aprendizado. A equipe é completamente aberta para divulgar e compartilhar esse conhecimento” acrescenta Flávia.

Satisfação

Membro da equipa, Maria Eduarda, 13 anos, avalia o projeto como sendo muito bom. Segundo ela, a robótica é incrível, e uma forma de aprender o conteúdo da sala de aula de uma forma muito diferente. “A gente fez uma série de pesquisas referente a discalculia e também desenvolvemos várias estatísticas. Fomos atrás de um especialista e descobrimos muita coisa. Sinto muita admiração pela minha equipe, por conseguir desenvolver um projeto tão fantástico”, conta a estudante.

Novo laboratório

Inaugurado recentemente nas dependências do Sesi/Canaã, o laboratório “Espaço Conte Comigo” possui seis estações de aprendizado, compostas por jogos e as atividades propostas pelos alunos, que visam ajudar os estudantes que possuem discalculia. “Não só os alunos do Sesi podem participar do projeto, mas estamos abertos à possibilidade de receber outras crianças que tenham interesse em participar”, afirma José Júnior, professor de robótica e um dos responsáveis pelo projeto

Para José Júnior, é uma satisfação ver o resultado do empenho dos alunos. De acordo com ele, tudo foi ideia do grupo, que já participou de vários torneios de robótica. Um deles foi oTorneio Nacional de Robótica First Lego League (FLL). O torneio vai além dos desafios dos robôs na arena de competição. A cada temporada, os estudantes precisam desenvolver projetos de pesquisa a partir de um tema definido pela FLL em todo o mundo. Desta vez, o futuro da aprendizagem foi o assunto que norteou os estudos dos alunos de 9 a 16 anos. Este ano, os alunos participam da competição com o projeto do Avatar.

“O tema desta edição é a sala de aula do futuro. Eles perceberam que existiam alunos com uma dificuldade fora do normal com a Matemática e elegeram a discalculia como foco do trabalho”, expõe o educador. Todos aqueles que tiverem interesse nos jogos e atividades fornecidas pelo programa, podem acessá-los por meio de cadastro na plataforma. O endereço eletrônico contém ainda todas as informações sobre o projeto e formas de contato com a equipe, basta acessar o portal Avatar para discalcúlicos: robotscanaa.wix.com/avatar.


Parceria

Por se tratar de uma inovação e abordar um tema pouco trabalhado, o projeto desenvolvido na unidade educacional do Sesi tem ganhado atenção de várias entidades, como A Universidade Federal de Goiás (UFG). Silmara Epifânia de Castro Carvalho, técnica em assuntos educacionais do Lemat (Laboratório de Matemática) do Instituto de Matemática da UFG, destaca a importância do projeto.

“É uma satisfação muito grande ver alunos do ensino fundamental desenvolvendo um projeto tão importante e que desmistifica a Matemática. Com as atividades lúdicas, o aluno aprende a gostar e a perder o medo da matemática”, conta.

Pensando no processo de aprimoramento da sala de aula, e em colaborar com o processo de formação e juntando as pesquisas das duas instituições, a professora e coordenadora do Lemat/UFG, Janice Pereira Lopes, destacou que está em estudo a viabilização de uma parceria entre as duas instituições, para desenvolverem trabalhos em conjunto no laboratório Conte Comigo.

“Nós tivemos a oportunidade de conhecer o laboratório, a inauguração da sala para atendimento de crianças com discalculia, e estamos começando a traçar metas, vamos organizar tudo para termos uma parceria, trazendo a nossa experiência de professores para potencializar o atendimento que será feito nessa sala de com os alunos de discalculia. E quem sabe replicar essa ideia em outro espaço”, explicou a coordenadora do Lemat.


Saiba mais sobre discalculia?

Adiscalculia é fruto de um problema causado por má formação neurológica que se manifesta como uma dificuldade no aprendizado dos números. Esse tipo de dificuldade de aprendizagem não é causada por deficiência mental, má escolarização, déficits visuais ou auditivos, por exemplo, e não tem nenhuma ligação com níveis de QI e inteligência.

Segundo especialistas, a discalculia não envolve somente o quantitativo, mas uma compreensão mais ampla dos detalhes, desde a fase inicial do desenvolvimento senso-motor. Se não tratada, pode perdurar até a fase adulta. As crianças que possuem a discalculia não conseguem identificar sinais matemáticos, montar operações, classificar números, entender princípios de medida, por exemplo.

Os alunos com essa característica também têm dificuldades em seguir sequências, compreender conceitos matemáticos, relacionar o valor de moedas entre outros. Como é uma questão que atrapalha o rendimento escolar do estudante, é fundamental que a patologia seja detectada. Para isso, o papel da escola e da família é fundamental.

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