Da parceria plena ao embate

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A volta do ex-senador Demóstenes Torres (sem partido) às páginas políticas dos jornais goianos e nacionais na semana passada foi tão inesperada quanto explosiva. Em um artigo de uma página publicado no jornal Diário da Manhã, na terça, 31, o ex-parlamentar ataca personalidades políticas do Estado. O mais atingido é o senador Ronaldo Caiado, a quem acusa de ser amigo e ter recebido dinheiro do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, em suas campanhas a deputado federal em 2002, 2006 e 2010. Além disso, Demóstenes disse que Caiado quer a extinção do DEM para se filiar ao PMDB e disputar o governo de Goiás em 2018.

O artigo motivou nota de Caiado, que levou a tréplica de Demóstenes e que alimentou outra nota de Caiado. Os textos trocados viraram uma briga que, ao que tudo indica, ainda terá outros episódios pela frente. O que chama a atenção, porém, é que os dois atores que hoje trocam acusações como gato e rato já tiveram uma grande aliança na política goiana e nacional. Foram vistos, durante mais de dez anos, como “irmãos siameses” da política, com uma relação que extrapolava para o campo da amizade pessoal. Até por isso mesmo, talvez, a presença de fortes adjetivos, tanto por parte de Demóstenes, quanto por parte de Caiado.

Demóstenes Torres ingressou no Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) em 1983, chegando ao cargo de Procurador-Geral do órgão. Após a vitória de Marconi Perillo em 1998, com o forte apoio do PFL (hoje DEM), o partido indicou Torres para o cargo de secretário de Segurança Pública. A nomeação de Demóstenes teve aval da família do ex-governador Otávio Lage de Goianésia, um dos grandes apoiadores e financiadores da primeira campanha de Perillo rumo ao Palácio das Esmeraldas.

Projeção

Com o tempo, Demóstenes foi ganhando projeção no governo e se aproximando cada vez mais do deputado Ronaldo Caiado (PFL), ao mesmo tempo que começa a traçar seus primeiros passos na política partidária. Já na pré-campanha de 2002, Demóstenes teve o apoio irrestrito de Caiado para vencer a convenção do partido que o indicou como candidato ao Senado na chapa de reeleição de Marconi Perillo. A vitória de Demóstenes, contudo, criou as primeiras grandes desavenças em sua carreira política e dentro do PFL.

Isso porque a família Lage queria a indicação do então secretário da Fazenda Jalles Fontoura (hoje prefeito de Goianésia e filiado ao PSDB) para a vaga ao Senado. Demóstenes, com ajuda de Caiado, trabalhou as bases do partido e angariou apoio para vencer a disputa. A relação Demóstenes-Caiado-Lage nunca mais seria a mesma depois deste episódio. Aos poucos, as lideranças políticas de Goianésia foram deixando o partido, a maior parte migrou para o PSDB.

A partir daí, os laços políticos entre Demóstenes e Caiado só se estreitaram cada vez mais. Ronaldo ganhou um aliado forte – após a vitória de Demóstenes para o Senado – dentro do PFL na disputa interna. Em 2003, o mal estar que Caiado tinha com Perillo se transformou em racha, após a debandada de prefeitos do PFL para outros partidos da base aliada (principalmente o PSDB).

Caiado atribuiu ao governador a jogada de desidratação do partido e se retirou da aliança. Demóstenes seguiu Caiado, principalmente após os disparos contra a sua residência em 7 de agosto de 2004. Mais tarde, de acordo com o inquérito policial, Demóstenes declarou que a ação foi a mando de Marconi.

Dentro deste jogo de disputa política, o PFL se dividiu. O deputado federal Vilmar Rocha (hoje presidente regional do PSD), que foi apoiado diversas vezes pela família Lage, se recusou a seguir Torres e Caiado e liderou a chamada “ala governista” do partido, com outras lideranças que defendiam a permanência do PFL no governo. Ronaldo Caiado, porém, detinha o apoio da executiva nacional do partido e articulou a candidatura de Demóstenes Torres ao governo do Estado em 2006, contra o então governador Alcides Rodrigues (na época PP) que era apoiado por Perillo.

Esse período foi, talvez, o de maior estreitamento entre Caiado e Demóstenes. O senador topou ser candidato em chapa pura, estimulado pelo então deputado federal, que disputou a reeleição para a Câmara. Sem estrutura política no interior, Demóstenes teve um resultado pífio. Ficou em quarto lugar, com pouco mais de 90 mil votos em todo o Estado. Curiosamente, em seu artigo da semana passada, Demóstenes cita Caiado e as eleições de 2006 ao dizer que foi abandonado pelo atual senador ainda em agosto daquele ano, quando a sua postulação não decolou.

Recuo

Após a disputa frustrada, Demóstenes recuou, mas ainda nutrindo aliança forte com Caiado. Ficou meses fora da mídia, sem dar entrevistas. Voltou apenas nas articulações para 2010, quando disputou a reeleição. Diferente de 2006, Demóstenes defendeu projeto diferente do de Caiado. Enquanto o deputado queria se aliar ao grupo do então governador Alcides – que lançou o então prefeito de Senador Canedo Vanderlan Cardoso (na época PR) para o governo -, Demóstenes trabalhou para que o DEM ficasse com a base do governador Marconi Perillo. Os quatro anos antes de 2010 serviram para que Demóstenes e Perillo, ambos senadores no período, voltassem a estreitar relações. E, claro, havia ainda o interesse de Torres em viabilizar a sua reeleição.

Com Demóstenes, Vilmar Rocha, deputados estaduais e a maior parte dos prefeitos com o desejo declarado de estar com o tucano, Caiado recuou e liberou o partido para voltar a base. Ele, porém, disse que não apoiaria Marconi, faria campanha solo para a Câmara. De qualquer forma, a parceria com o senador continuou a todo vapor. Demóstenes e Caiado estiveram lado a lado na campanha de 2010 e, juntos, fortaleceram o DEM. O partido saiu de 2010 com três deputado federais eleitos – além de Caiado, Vilmar Rocha e Heuler Cruvinel –, com Demóstenes reeleito e com o vice-governador, o advogado José Eliton. Este último indicado por Caiado para a vice de Marconi, como parte do acordo que levou o DEM à chapa de Perillo.

Nova desidratação

Dois acontecimentos viriam a diminuir, novamente, o DEM em Goiás e colocar um ponto final na aliança entre Demóstenes e Caiado. O primeiro foi a criação do PSD, em setembro de 2011, que atraiu grande parte das lideranças do partido de Ronaldo Caiado em Goiás, como os deputados Vilmar Rocha e Heuler Cruvinel, além de importantes prefeitos, como Juraci Martins de Rio Verde. O outro foi a operação Monte Carlo, deflagrada em 29 de fevereiro de 2012 com a prisão de Carlinhos Cachoeira e que culminou na cassação de Demóstenes Torres.

Demóstenes deixou o DEM antes de sua cassação, após pressão do partido. No início de abril de 2012, Torres enviou carta ao presidente do partido, senador José Agripino (DEM-RN), pedindo a desfiliação. Antes disso, Agripino já havia lhe enviado uma correspondência dizendo que as ações do senador representavam um desvio do programa partidário no que diz respeito a ética. Ele também disse, na ocasião, que seria inevitável um processo disciplinar.

Caiado pouco falou durante esse processo. Mesmo meses depois da cassação do senador, o então deputado federal media as palavras ao falar sobre o fim político de Demóstenes. Em entrevista à Tribuna, em janeiro de 2013, Caiado fez um breve comentário sobre o caso: “É exatamente (o sentimento) de uma tristeza enorme para todos nós que convivíamos com ele e tínhamos, indiscutivelmente, o Demóstenes como uma candidatura competitiva para a presidência da República”.

Segundo Demóstenes, o que motivou seu artigo na semana passada foram as declarações de Caiado à revista Veja de que o ex-senador era “uma grande decepção em sua vida e um traidor”. A partir daí, as trocas de gentilezas entre os dois. A briga que não ocorreu nem mesmo durante a fase dura da Operação Monte Carlo e a CPMI do Cachoeira no Congresso Nacional foi ocorrer três anos depois do fato que causou o rompimento da aliança política.

Ainda é duvidoso se esta celeuma terá novos capítulos e se estes, caso haja, prejudicarão a carreira de Caiado, único que tem algo a perder nesta discussão. De qualquer forma, o episódio expõe e relembra, publicamente, o fim de uma parceria importante e que influenciou diretamente a política goiana de 1998 a 2012.

 


Leia mais:

 

Leia o artigo de Demóstenes que gerou a briga

 

 

Leia a resposta de Caiado

 

 

A tréplica de Demóstenes

 

 

A segunda resposta de Caiado

 

 

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