“O lúdico é sempre um ótimo aliado”

0
694

Caracterizado por uma forma de agressão e perseguição repetitiva, o bullying traz muita dor e transtornos para vida de quem é vítima desse tipo de violência. Com o propósito de discutir e provocar uma reflexão sobre o problema, a escritora mineira Marta Reis acaba de lançar o livro “O Ratinho do Violão” (Geração Editorial, 32 págs.), uma história baseada na vida de jovens estudantes que sofrem ou já sofreram com o bullying no ambiente escolar.  

Nesta entrevista, Marta também falou sobre o incentivo à leitura e criticou o fato do Brasil ainda ter um dos piores índices de leitura. Apesar disso, acredita que avanços estão ocorrendo, mas para que continuem a ocorrer são indispensáveis boas bibliotecas, com bons títulos disponíveis para os alunos. Professora da rede pública há mais de 20 anos, a escritora também deu dicas de atividades que podem contribuir para a prática da leitura. Um processo onde o aluno precisa se sentir sujeito, participar e interagir, assinala a escritora.

Por que decidiu abordar o bullying no seu segundo livro?
Leciono há mais de vinte anos, para adolescentes entre onze e quinze anos. Como se sabe, esta é a idade mais difícil, já que são muitas as mudanças pelas quais estes meninos e meninas estão passando. A prática do bullying costuma ser muito acentuada nesta idade. O livro, no caso, aborda também a inclusão, pois o personagem sofre bullying por mancar de uma perna. E, sutilmente, deixa uma pista sobre a necessidade de escolas que se preocupem com a acessibilidade. Chiquinho  tem dificuldade de locomoção e, para ir para a sala de aula, tinha que subir uma escada. Pense bem: se fosse uma escola melhor adaptada, teria uma rampa para alunos iguais a ele, ou então, uma sala no andar de baixo.

O Chiquinho foi inspirado em algum aluno?
A história não foi baseada em um caso específico, mas em várias situações que presencio todos os dias em escolas: as questões do bullying e da inclusão. Mas confesso que levemente fiz uma alusão ao livro A Metamorfose, de Kafka. Este livro é um clássico universal, cujo personagem passa por uma situação de grande opressão e vira uma barata, que se confina num quarto e vira motivo de vergonha para a família. Uma história pesada – ele morre barata. Em O Ratinho do Violão, Chiquinho por vergonha e medo vira um ratinho e vai morar dentro de seu violão. Após passar muito apuro, ele consegue dar uma reviravolta em sua vida… Bem, ele tinha um violão e a música – elementos fundamentais para lhe dar autoconfiança e nosso personagem voltar à forma humana.

Como professora, a senhora já presenciou algum caso de bullying grave na escola? Como foi?
Não presenciei um, porém vários. E um caso que me chamou atenção em específico foi em uma escola de periferia muito violenta onde leciono há muitos anos. Um grupo de alunas que só ia à escola para tumultuar, não para estudar, começou a perseguir as meninas mais estudiosas e bonitas da escola. Ameaçavam bater, colocavam apelido e as perseguiam mesmo. A situação ficou séria demais, ao ponto dos pais das boas alunas desejarem tirar as filhas de nossa escola. A direção precisou tomar uma postura firme, convocar os pais e o Conselho Tutelar, registrar ocorrências. A custo, conseguimos selar um acordo de convivência pacífica. Foi um caso bem difícil, mas conseguimos!

Em sua opinião, como pais e professores devem conduzir os casos de bullying?
É papel da família e da escola transmitir valores em geral. Precisamos educar para a vida e nos preocupar em formar pessoas de bem. A melhor estratégia para abordar o assunto em questão  é o diálogo, além de leituras e muita reflexão. Ainda é necessário deixar bem claro para os estudantes que bullying é crime previsto em lei e pode levar a sérias consequências, inclusive para os pais daqueles que o praticam. Família e escola devem ser parceiras sempre – só assim o processo educacional obtém êxito.

O bullying é um fenômeno que só ocorre nas escolas?
Infelizmente esta prática ocorre em todo lugar. Costuma iniciar com brincadeiras bobas, gozações… Mas, tudo tem uma hora para parar. Qualquer  situação em que  um dos lados se sinta ofendido pode ser considerado caso de bullying.

O bullying é um fenômeno moderno?
Não, a prática do bullying sempre ocorreu em todas as épocas. Mas nem se ouvia falar neste nome, já que ele é de origem inglesa e há bem pouco tempo se tornou frequente. Recentes são os estudos específicos sobre o assunto e os prejuízos emocionais que isto causa naquele que sofre esta prática.

E como o seu livro pode ajudar a combater o bullying?
Penso que o livro pode ajudar na formação de pessoas mais conscientes que saibam tratar o outro com mais respeito e generosidade. Afinal de contas, respeito e generosidade são pilares fundamentais para a construção de uma sociedade melhor e mais justa para todos.

A senhora também desenvolve projetos de incentivo à leitura e escrita. Nesse contexto, que avaliação faz do nível de leitura dos nossos estudantes?
Embora haja certo empenho dos governos, de Ong’s e de educadores em geral no sentido de desenvolver o hábito da leitura, uma pesquisa publicada em 2012 revela que o índice de leitura tem caído no Brasil, se comparado com a pesquisa divulgada em 2008. Este dado é segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil que é feita pela fundação Pró-Livro e pelo Instituto Ibope de Inteligência. A pesquisa aponta que sair com amigos, assistir TV, descansar, assistir DVD’s têm a preferência do público em geral. De acordo com este último estudo, 24% dos entrevistados afirmaram que cultivam o hábito de ler durante o tempo livre, contra 36% dos entrevistados na pesquisa anterior. Não é diferente com nossas crianças, boa parte delas com problemas na alfabetização, acabam não se interessando pela leitura de livros e revistas, sejam impressos ou virtuais.  As crianças e os jovens estão muito mais ligados nas novidades dos jogos virtuais e redes sociais do que na leitura. Infelizmente, nosso país tem um dos piores índices do mundo quanto ao hábito de leitura, em todas as idades e este fato é vergonhoso.

Isso significa mais trabalho para a escola,  professores…
Um fator importante é que alguns professores têm se empenhado bastante, há muitos projetos interessantes de incentivo à leitura nas escolas e a esperança é de que, um dia, nosso país alcance os índices de leitura dos países de primeiro mundo. Afinal de contas, um povo que lê é também um povo que tem nas mãos o poder de reinventar a própria história.

Como fomentar o hábito da leitura no ambiente escolar?
Fórmulas mágicas para formar leitores não existem. Porém, existem muitos projetos interessantes que podem dar certo. Práticas como: contação e teatralização de histórias, leitura ao ar livre ou num ambiente diferente da sala de aula, registros como diários de leitura, ilustração de textos lidos, saraus, dentre outros costumam despertar  o interesse do estudante pela leitura.  Eu como professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental em escola pública priorizo muito a leitura e a escrita. Para isto já desenvolvi e desenvolvo alguns projetos que têm dado certo. Nos últimos dois anos desenvolvi o projeto: Uma Viagem Inesquecível pelas Trilhas da Leitura e da Escrita que partiu do interesse dos estudantes por minha literatura. Em 2013 os meninos ficaram surpresos quando descobriram que tinham uma professora escritora. E começaram a me perguntar sobre minha produção literária . Então, eu lhes fiz um desafio: que eu partilharia minha literatura com eles se eles depois escrevessem também. E o desafio foi aceito.

E deu certo?
Os meninos leram meus livros, além de alguns poemas e contos. Eles ilustraram, fizeram cartazes e escreveram também… Depois organizei os textos dos estudantes em coletânea impressa, organizamos um evento de lançamento do livro, fizemos exposições e apresentações artísticas. Eles se sentiram orgulhosos em terem um livro de própria autoria exposto com os livros da professora. Recebemos muitos elogios de educadores, pais e da Secretaria de Educação de Belo Horizonte. A segunda edição deste mesmo projeto em 2014 foi ampliada e envolveu toda equipe de português da escola, em dezesseis turmas.  Além de minha literatura, textos de outros autores se fizeram presentes também. E na segunda edição a equipe envolvida trabalhou com um tema ligado à cultura da paz. A culminância foi belíssima. Houve muito empenho de toda escola e eles leram muito. Livros como O Diário de Zlata e O Diário de Anne Frank não pararam na biblioteca, além dos exemplares de meus livros.

A senhora pode citar outro projeto bem -sucedido?
Em outra escola e outros professores organizamos a Literarte: exposições e apresentações artísticas de alunos e professores. Um sarau lítero musical foi organizado para este evento. Foi lindo! Talvez o grande segredo na formação de leitores seja este: neste processo o estudante tem que se sentir sujeito, aquele que participa, interage e tem liberdade de escolher. O lúdico é sempre um ótimo aliado. A leitura tem que passar, sem dúvida, pelo prazer.

Existem críticas de que as bibliotecas escolares estão aquém das necessidades dos alunos, pois faltam títulos. Qual a sua opinião a esse respeito?
Há escolas e escolas. Cada uma está vinculada a uma rede de ensino. Eu leciono em duas escolas públicas e cada uma tem sua realidade. Numa, a prefeitura investe muitos recursos em compras de livros, inclusive, oferece kits de livros literários aos estudantes, são livros de alta qualidade literária. Tudo que sugerimos à biblioteca para adquirir como acervo nós conseguimos, esta escola tem uma estrutura excelente! A biblioteca da segunda escola é como a maioria das bibliotecas escolares do país: os livros estão bem velhos, caindo aos pedaços e há pouquíssima renovação do acervo. Professores quase nunca podem sugerir aquisição de novos livros, pois não há verbas disponíveis para compra. Para esta escola, eu faço doação de livros, às vezes, até dos meus particulares e busco em outros lugares livros para doação.

Mas isso tem melhorado?
O cenário tem melhorado sim, há alguns programas de leitura dos governos para melhoria do acervo nas bibliotecas escolares, além de projetos da iniciativa privada e de Ong’s também. Mas ainda é necessário avançar bastante. Creio que estamos avançando na construção de um país leitor e, para isto, é essencial bibliotecas com livros interessantes, além de uma equipe de professores e bibliotecários engajados nesta tarefa.
Sobre sua produção literária: já tem algum outro projeto em mente?
Atualmente fui convidada por uma artista plástica para criarmos um livro em parceria. Ela tinha algumas imagens e me convidou para escrever o texto, estamos trabalhamos neste projeto. Além disto, já tenho em mente ideias para um romance juvenil e creio que será uma história bem bonita. Aguardem!

Em linhas gerais, como se dá o  processo criativo de sua escrita. Sempre parte da observação de situações do cotidiano?
Eu escrevo gêneros literários diversificados: poemas, contos e, mais recentemente, literatura infantojuvenil. E escrevo conciliando minha carreira no magistério, o que não é fácil. Esta bagagem como professora me dá um suporte muito grande para escrever, afinal de contas, conheço muito de perto o que estes meninos leem, o que eles gostam e o que não gostam. Conheço ainda os assuntos que precisam ser tratados pelos professores, os quais procuro abordar de forma sensível e lúdica, para não ficarem chatos e pedagógicos demais. Às vezes me inspiro sim nas situações cotidianas para escrever. Normalmente me inspiro naquelas que não costumamos dar conta ou porque são medonhas ou intensas demais. A literatura me dá asas para resignificar a vida. Então escrevo para me libertar.

E qual o principal propósito de sua escrita?
 O maior propósito de minha literatura é o prazer, levar o leitor a viajar comigo pelas asas da imaginação, mesmo quando o tema tratado é difícil e sério. Gosto de textos psicológicos, que envolvam o leitor na trama vivenciada pelos personagens. E gosto muito das metáforas e das entrelinhas que levam o leitor a sair do lugar comum, na construção do sentido do texto. Creio que a boa literatura é aquela que não dá todas as respostas, ela sempre deixa uma dose de mistério no ar.

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here