Educação: Teoria X Prática

0
950

Conhecer as ideias e ensinamentos de grandes estudiosos da educação como Vygotsky, Piaget e Paulo Freire é parte indispensável para o bom exercício da profissão de professor. Mas apenas grande conhecimento teórico não é suficiente para ensinar bem os alunos, é o que diz um estudo realizado pela pesquisadora da Fundação Carlos Chagas (FCC), Bernadete Gatti. De acordo com Gatti, a maioria dos cursos de licenciatura no Brasil está longe da experiência real de lecionar, e só se preocupam em ensinar aos futuros professores os conteúdos que deverão ser abordados em sala de aula e não como eles devem ser tratados.

A falta de prática pedagógica foi um tema amplamente discutido no 8º Fórum de Educação promovido pela União Nacional dos Dirigentes de Educação (Undime) do estado de Goiás no final do último mês. “O que as universidades ensinam não atende o que as escolas necessitam. Os alunos aprendem de formas diferentes, por isso, precisamos focar no ensino prático de professores, para que eles atendam a essa característica”, afirmou Cleuza Rodrigues Repulho, presidente da Undime Nacional, em palestra no 8º Fórum de Educação.
Uma pesquisa realizada pela FCC analisou por dois anos os currículos de 94 faculdades de Letras, Matemática e Ciências Biológicas em todas as regiões do Brasil. Os resultados mostraram que métodos de ensino e didática estão longe de ser o foco dos cursos. Nas faculdades de Letras, por exemplo, apenas 5,7% das aulas são direcionadas para técnicas de ensino. Já as aulas sobre conhecimentos específicos da área somam mais de 50% de todo o conteúdo do curso, apontou o estudo da Fundação Carlos Chagas.
A professora Heloisa Presto, 22, formada em História há 8 meses pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás, sentiu a escassez do ensino de didática assim que saiu da universidade. De acordo com a educadora, os professores ensinam conteúdos teóricos para ajudar os futuros professores a passar em concursos públicos e não para a prática na sala de aula. “Estudamos teóricos da educação que apresentam métodos que não condizem mais com a realidade atual das salas de aula”, relata a professora.
Heloisa conta que nos primeiros meses atuando na sala de aula teve grande dificuldade para se adaptar à prática letiva. Para sanar as deficiências foi necessário retomar os estudos em didática, “tive que comprar livros sobre o ensino de História e assistir diversas videoaulas na internet para poder me adequar”, conta a educadora.
A estudante do 7º período de Biologia na Universidade Federal de Goiás (UFG), Bianca Silva, 23, acredita que deveria haver uma maior contextualização dos conteúdos apresentados na universidade, para que o que for ensinado se aproxime um pouco mais da realidade e experiências das escolas, “fazendo com que a educação superior não fique só na teoria e no plano das ideias”, argumenta Bianca.
O mesmo pensa Heliandro Rosa, 28, Mestre em Linguística pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), “infelizmente, desde os primeiros anos de estudo, não nos acostumam a relacionar o que estudamos com o que vivemos fora da escola”. Para ele, o mesmo acontece na formação de professores, onde os educadores finalizam o curso não sabendo fazer uma conexão entre o conhecimento teórico e o prático. “Quando nós, professores, nos deparamos com a sala de aula, pensamos que devemos fazer exatamente como os teóricos dizem, e quando não funciona, acreditamos que aquilo não serve para nada”, admite Heliandro.

Reformulação na graduação
Em entrevista recente para o Tribuna do Planalto, a nova presidente da União Nacional dos Dirigentes de Educação (Undime) do estado de Goiás e Secretária de Educação de Anápolis, Virgínia Pereira, comentou que esse problema pode ser resolvido com uma reformulação nos cursos de formação de professores, fazendo com que o ensino associe mais as questões teóricas com as práticas. Mas ela também fez um alerta, dizendo que “devemos ser cuidados nessa questão, para não corrermos o risco de formar professores sem fundamentação teórica que possa referenciar sua prática”, salienta Virgínia.


Contraponto

 

 

Se de um lado os professores da educação básica e pesquisadores da área apontam a falta do ensino de práticas metodológicas nos cursos de licenciatura como uma das causas da má qualidade da educação no país, de outro lado professores de dentro das universidades possuem opiniões contrárias sobre esse fato, e defendem que o foco no ensino teórico é a chave para se ter uma educação de maior qualidade.
Para o professor Frederico Dourado, especialista em Gestão Educacional e Mestre em Educação, o problema se agravaria se o educador saísse da universidade com mais conteúdo prático e menos conteúdo teórico. “Quanto maior a formação teórica, melhor será a atuação do professor em sala de aula. Sem uma base teórica que dê sustentação ao profissional não é possível existir prática com eficiência suficiente”, aponta Frederico.
“O grande problema, ao meu ver, é a concepção que muitos profissionais possuem do que é teoria e prática. Não existe separação entre elas. São dois lados da mesma moeda e estão intimamente ligadas, impossíveis de serem ensinadas, de forma funcional, separadamente”, esclarece a professora da Faculdade de Educação da UFG, Luelí Duarte, especialista em Formação de Professores e Doutora em Educação.
De acordo com Luelí, teoria não deve ser encarada como um guia ou uma receita pronta a se seguir. O material teórico apresentado aos futuros professores irá “permitir o profissional enfrentar o cotidiano da sala de aula fundamentando o conhecimento adquirido na graduação, fazendo com que o professor possa pensar, identificar e analisar, para então resolver os problemas encontrados nas escolas”.
A professora ainda explica que na universidade o papel dos docentes universitários não é fundamentar a prática e sim estimular o aluno a refletir a teoria, para então entender como ela deve ser utilizada. “Prática pela prática não leva a lugar nenhum”, acentua Luelí.
E para uma melhora imediata do problema, a educadora sugere a Formação Continuada, mas não para ensinar “uma receita de bolo”, e sim para reforçar as reflexões discutidas na universidade. “A Formação Continuada não resolve totalmente o problema, mas com certeza o ameniza. Mas esses cursos devem permitir que o professor reflita sobre o que fazer. Pense e identifique alternativas novas para aquelas que a universidade não foi suficiente para ensinar”, indica Lueli.

Desvalorização dos professores
Então, como o problema pode ser resolvido? Para a professora Lueli Duarte, a resposta para essa pergunta é muito mais complicada do que parece, pois essa discussão é apenas parte de um problema muito maior, que engloba questões legais e, principalmente, a valorização dos professores, causa pela qual educadores de todas as redes de ensino concordam e reivindicam.“É impossível falar sobre melhorar a qualidade da educação no Brasil sem tocar no assunto da valorização do professor”, acentua a educadora.
E as reivindicações não estão relacionadas apenas com o salário dos professores, as condições de trabalho e a ausência de planos de carreira que reconheçam o trabalho dos profissionais da educação. “Precisamos ter melhores condições de trabalho até mesmo para poder aperfeiçoar nosso nível de discussão. Por exemplo, como um professor pode cursar uma especialização se a escola não concede uma licença para que ele consiga tempo para aproveitar o máximo do curso?”, indaga Luelí.
“Essa desvalorização faz com que a carreira na educação perca toda sua atratividade, fazendo com que os jovens percam todo o interesse”, afirma o professor Frederico Dourado. No final do ano passado foram divulgados os resultados do Censo de Educação Superior de 2013, realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), confirmando o que o professor Frederico apontou.
Segundo os dados da pesquisa, o número de matrículas em licenciaturas teve queda pelo quarto ano consecutivo em todo o território nacional. Consequentemente, o país tem formado cada vez menos profissionais em educação. “Se nossos pedidos não forem ouvidos e a profissão de educador não conseguir melhores condições, dificilmente esse quadro será revertido”, conclui Frederico.

 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here