Não à cesárea desnecessária

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De acordo com da­dos da Organização Mundial da Saúde (OMS), as intervenções cirúrgicas em como via de nascimento deveriam representar, no máximo, 15% dos partos realizados em um País. Mas, no Brasil parece que é o contrário: cerca de 84% das parturientes fazem o procedimento de cesárea na rede privada de saúde.
Aliás, é esse alto percentual que impediu o país de cumprir um dos objetivos estabelecidos e acordados em um pacto com a Organização das Nações Unidas (ONU), em 2000. A meta era de diminuir a mortalidade materna, que hoje está em 64 para 100 mil. Considerando que 98% dos partos ocorrem em hospitais, o problema não está na falta de acesso à assistência, mas na qualidade do serviço prestado às mães em hospitais públicos e privados.
Isso se deve em grande parte ao fato de o número de procedimentos cesáreos realizados desnecessariamente, já que a cirurgia é de alto risco. De acordo com o Ministério da Saúde (MS), o índice de procedimentos cirúrgicos realizados fica em 40%, mesmo assim bem acima do recomendado pela OMS.
Diante disto, o órgão baixou uma portaria em janeiro deste ano, cujo objetivo é conter o alto número. O problema é que no Brasil as vias de nascimentos natural e por intervenção cirúrgica são tratadas como iguais, enquanto são essencialmente diferentes. De acordo com  Jony Rodrigues Barbosa, coordenador médico da Maternidade Nascer Cidadão (MNC) de Goiânia, a cesariana é uma cirurgia que deve ser realizada quando há necessidade. Na opinião do médico, essa é uma questão cultural.
“Culturalmente, as pacientes assimilaram a cesárea como mais rápido. Há ainda outras questões como a escolha da dará de nascimento do bebê, signo, etc. Mas, não que isso seja melhor para ela ou para a criança”, afirma. Para Arlene Mamede Alvarenga, 53 anos, doula voluntária na MNC, é importante ressaltar que a cesariana é uma intervenção que salva vidas. “O problema é que não pode ser banalizada como está acontecendo”, destaca.
Desde o início, a estudante Lorrainny de Jesus Silva Kardech, 24 anos, optou pela intervenção cirúrgica ao parto normal, que para ela oferecia praticidade e conforto. “Mas o principal confesso que foi pelo medo. Medo de sentir dor, medo de meu bebê ter alguma sequela, medo de decidir pelo normal e na metade do caminho não conseguir”, conta. Lorrainny admite que a cultura também foi um peso a mais na sua decisão. Até o último minuto o obstetra tentou convencê-la pelo normal, mas ela não quis.
Por outro lado, há quem optou por um parto normal, mas devido às circunstâncias não teve a oportunidade de viver o momento. “Meu parto foi uma cesárea, essa não foi a minha escolha. Era o parto normal, mas na reta final teve que ser uma cesárea”, conta Sara Moraes Reblin, 23 anos, servidora pública. “O meu parto teve que acontecer muito rápido, porque eu tive uma complicação de pré-eclâmpsia, evoluindo já para eclâmpsia”, lembra.
Lariza Zanini César Nakatani, 28 anos, professora universitária, também acabou na mesa de cirurgia, mas não por opção. “Eu fiz cesárea, sim. Hoje, eu interpreto um pouco diferente. Não sei se era necessária a cesárea, tenho várias dúvidas”, observa.
Há, todavia, algumas mães que conseguem ir até o fim em seu desejo. Na opinião de Pâmela Gomes de Brito, 25 anos, professora, é até uma questão de sorte. “Quanto ao obstetra não enfrentei nenhuma resistência, pois tive a sorte de conseguir uma vaga com um profissional que defende o parto natural e humanizado”, explica. Para ela, é até ruim falar em sorte, mas ela acredita que a maioria dos médicos não oferece esse tipo de apoio à gestante.

Humanização
Diferentemente do que se pode acreditar, há apenas duas vias de nascimento: natural e cesárea. Nos últimos anos, a expressão parto humanizado vem ganhando força e pode causar confusão. Jony Rodrigues Barbosa explica que o que muda é o atendimento. “A humanização não está no parto, mas no atendimento mais prioritário, carinhoso, personalizado, onde não vai ter tantas intervenções”, pontua.
Desta forma, até mesmo uma cesariana pode alcançar o status de humanizada. A importância dessa humanização, na opinião de Arlene Alvarenga, é o respeito que se dá à mulher que está parindo. “Ela tem vez, tem voz. A equipe que está ali, vai tentar ajudá-la e vê-la como um ser humano que merece todo o respeito”, define.
Um tipo de trabalho que ficou bastante popular diante desse resgate, é a função de doula. Lívia Kunz Sebba, psicóloga e doula, integra uma equipe que assessora casais que optam pelo parto humanizado domiciliar. O grupo Renascer foi fundado há cerca de dois anos e meio, e tem como objetivo auxiliar mulheres, casais e famílias no processo de gestação, parto e pós-parto. Para isso, o grupo desenvolve grupos de gestantes e de casais grávidos.

Informação
Uma das grandes armas que a mulher tem a seu favor, hoje, é o acesso à informação. Isso é o que defende Arlene Alavarenga. Para ela, hoje as gestantes têm muito mais informações disponíveis e um veículo que possibilita o acesso rápido ao conhecimento. “O problema é que, às vezes, tem a informação mas não se apoderam delas, não buscam se aprofundar e estar realmente conhecendo o que aquilo significa”, comenta.
Lívia Sebba acredita que o cenário de parto, de informações que as mulheres estão obtendo, está melhorando bastante, mas não pode parar por aí. “Precisamos que as mulheres conheçam mais sobre as diferenças dos partos, benefícios e prejuízos. Que conheçam o trabalho das doulas, que os obstetras apoiem mais o nosso trabalho e que sejamos aliados no momento de trazer um novo ser ao mundo”, argumenta a psicóloga e doula.
Pâmella Brito conta que encontrou muito material sobre via de nascimento e humanização do parto na Internet. Mas, para ela isso não é suficiente. “Se não fosse assim, não teria tantas mulheres amedrontadas com o parto via vaginal”, assevera. Na opinião da professora de Educação Física, o tema precisa ganhar mais espaço.

Empoderamento
A palavra empoderamento pode soar um pouco estranha, até porque ela não existe mesmo no dicionário, mas é um neologismo que se originou do inglês “empowerment”, que significa “delegar poder”. No caso das gestantes, é permitir que a mulher seja a protagonista do seu parto e tenha resgatado seu direito de parir. Neste sentido, a parturiente empoderada terá autonomia para vencer seus medos e dificuldades no processo de dar à luz uma criança.
Na visão de Sara Reblin, somente quando a mulher opta pela vivência do trabalho de parto, ela se torna protagonista de sua história. “Uma cesárea eletiva traz esse secundarismo da mulher. Ela vai ficar em segundo plano, sob efeito de anestesia. Quem vai parir não é ela. Para mim, não há um parir nessa via de nascimento”, argumenta.
Sara afirma que respeita a decisão das gestantes que optam pela intervenção, mas, para ela isso não é o natural, nem o ideal. “Se tudo deu certo, se foi uma gestação saudável, se a mãe e o bebê estão bem, por que não passar pela experiência? Que vai ter dor, sangue e lágrimas? Com certeza! Mas, vai ter um vínculo imenso, também”, aconselha.

De mãe para mãe

 

O período da gestação é um momento único na vida das mulheres. São muitas transformações em corpo, mente e alma. Ninguém melhor para entender quem está vivendo este rito de passagem, do que quem já viveu. É por isso que o Tribuna reuniu aqui alguns conselhos carinhosos. Veja o que as novas mamães recomendam às futuras:

 

“Munam-se o máximo possível com informações, pesquisem, vão atrás, leiam bastante relatos de parto, a experiência de outras mães, isso traz muito para a nossa escolha, para o que a gente quer. E, se possível, escolham pelo normal. É o natural da nossa vida, é como nossa humanidade chegou até aqui. A gente tem que estar aberta para a cesárea, temos que ter o pensamento de que ela pode acontecer e, se acontecer, maravilha, aconteceu para salvar nossas vidas. Agora, ser a primeira opção tira totalmente o protagonismo da mulher no parto. Nós sabemos parir, nossos antepassados nos mostram isso, que nós sabemos sim parir, nós sabemos gestar, nós sabemos colocar uma vida nesse mundo” – Sara, mamãe da Lis

 

“Para mim a palavra-chave é informação. Depois do nascimento da Maria Flor é que eu fui começar a ler. Até então, eu achava que era só chegar lá no hospital, deitar na maca, abrir as pernas e fazer força para o neném sair. E não é assim. Até o fato de deitar na maca, por exemplo, dificulta o nascimento do bebê. Se você quer um parto normal, busque informação, porque você é capaz de ter um parto normal. Como eu também sei que vou ser no próximo, porque eu estou me preparando e estou chegando lá. Tudo com amor, com carinho, com aconchego, com desejo de ter aquela criança ali com você e poder já cuidar dela já nos primeiros segundos de vida” – Lariza, mamãe da Maria Flor

 

“O conselho que eu dou, é leiam muito sobre tudo que se referem ao parto vaginal e cesárea. Não feche a cabeça e leia apenas sobre o que lhe interessa, leia sobre tudo… Só conseguimos nos defender de algo com precisão se soubermos do que se trata. Encontre grupos que discutam o assunto. Converse com mulheres. Não tenha vergonha de falar de suas dúvidas e medos. Pergunte, questione, duvide, pois só conversando umas com as outras é que nós mulheres conseguiremos nos empoderar e saber o que é ou não aceitável no momento do parto, para então termos força e conseguirmos fazer valer nossos direitos. E mais que tudo isso, acredite que seu corpo é vida e dá vida, acredite que você pode! Mentalize isso todos os dias até não restar dúvidas para você mesma” – Pâmella, mamãe do Davi

 

“Diria às mamães gestante que se informem, que procurem profissionais que trabalham em um atendimento humanizado. Aconselho também a buscar um grupo de apoio, que existe para esclarecimentos e suporte neste momento único da vida” – Lívia, doula e mamãe da Sofia

 

“Se eu tivesse o pensamento e a maturidade que tenho hoje, não teria tanta certeza quanto ao parto cesáreo. Seria uma decisão mais difícil, mesmo o meu parto tendo sido perfeito. A comodidade e o medo nos levam à escolha da cesariana. Mass sem dúvidas o melhor para mãe e o bebê é o parto natural. Só acredito que isso tem que ser uma escolha exclusiva da mamãe, afinal pensamento positivo é de total importância” – Lorrainy, mamãe do Henrique


Parto na rede privada ou pública?

Na hora de escolher o atendimento ideal, vale a pena pesar o tipo de serviço a que a parturiente deseja ter acesso. Os dados do Ministério da Saúde revelam que a possibilidade de um desfecho satisfatório para as gestantes que optam pela via de nascimento normal é bem maior pelo SUS. De acordo com Jony Rodrigues Barbosa, o problema na rede privada é que os hospitais não tem estrutura para fazer o acompanhamento do trabalho de parto.

“A paciente faz um pré-natal com um médico, e ele fica obrigado a fazer o parto, porque ele não tem para onde enviar. A opção é fazer a cesárea em 40 minutos, por conveniência própria”, afirma Barbosa. Na opinião do médico, ao longo dos anos as mulheres assimilaram a cultura do mais rápido e mais prático. “Não que isso seja melhor para a mulher. Inclusive compromete uma futura gravidez”, diz.

Nem todas mamães optam pelo serviço público, como é o caso de Sara Reblin. Apesar de optar pelo parto normal, a servidora pública encontrou o amparo que buscava na rede privada. “O meu atendimento foi no serviço privado, pelo plano de saúde. Foi a minha opção, mesmo sabendo que hoje nós temos duas maternidades do SUS de referência em Goiânia, eu optei por estar na rede privada”, conta.

Lorrainny Kardech foi mais radical. A opção pelo atendimento privado era uma prerrogativa para ela que, desde o início e até o último momento, preferiu o procedimento cesáreo. “Como eu tinha plano de saúde optei pelo atendimento da rede privada. Mas, mesmo que não tivesse o convênio médico, eu optaria por pagar meu parto. Isso porque eu queria a todo custo que fosse uma cesárea”, argumenta a estudante.

Para Lariza Zanini, no entanto, a opção pelo serviço privado não foi a primeira. “No início eu pensei em utilizar o atendimento do setor público. Porque tinha ouvido falar muito bem da maternidade Dona Iris, que é um centro de referência para parto normal”. Na opinião da professora universitária, a diferenciação começa na equipe. “As enfermeiras, doulas e médicos que trabalham lá são pessoas que tem outro tipo de propósito, que não ganhar dinheiro”, fala.

A ideia era fazer o pré-natal todo pelo convênio médico e deixar somente o parto para o SUS. “Meu marido achou um absurdo, porque a gente tem convênio médico e ir para o SUS? Então, acabou que desisti dessa ideia, porque ele não queria de jeito nenhum. E como que eu ia sem o apoio do meu marido?”. Hoje, no entanto, Lariza conta que o parceiro já pensa diferente. “Agora, ele já pensa como eu. O próximo não terei no setor privado, com certeza”, assegura.

Referência

Em Goiânia, a Maternidade Nascer Cidadão e o Hospital e Maternidade Dona Iris (HDMI) foram criadas com objetivo de oferecer atendimento humanizado e de referência. Dados da Secretaria Municipal de Saúde mostram que o número de partos normais nas entidades é alto e crescente. Jony Rodrigues Barbosa conta que 60% dos partos realizados na maternidade são por via normal. “Aqui é uma maternidade pública, então o atendimento é aberto a todos. Quando a gestante está sentindo mal, ela vem e consulta e é atendida por um médico que faz a avaliação. Ela é internada e vai ser acompanhada até o bebê nascer”, explica.

De acordo com Barbosa, não há uma orientação para que sejam realizados parto normais. Somente em casos necessários há a realização da cesária. “Se ao longo do trabalho de parto for constatada a necessidade de uma intervenção cirúrgica para salvar a vida da mãe e do bebê, então partimos para a cesárea”, elucida.


Você ainda acredita nisso?

Vários mitos cercam o rito do nascimento. Muitos deles, inclusive, contribuíram diretamente para a propagação da cultura cesarista. Mas, não precisa ser assim. Confira:

Vagina alargada e feia – Isso acontece imediatamente após o parto. Normal! Gradualmente, a musculatura volta à dimensão original. E quanto à aparência, nada de crise! 60% dos bebês nascem sem deixar nenhum arranhão na mamãe.

Incontinência urinária – Pode acontecer, assim como em casos de tosse crônica, obesidade, envelhecimento e prática de esportes de impacto. Em geral, quando ocorre, é temporária. Mas, quem opta pelo procedimento cirúrgico não está imune ao risco.

Pontinho do marido”? – Grosseiro e desnecessário. A episiotomia foi, e é feita ainda, sem consentimento, sem necessidade e sem anestesia. E depois do parto, alguns profissionais continuam a perpetuar essa mutilação que não ajuda em nada na vida sexual do casal.

VBAC – Quem nunca ouviu falar que uma vez cesárea, sempre cesárea? Mas, isso é mais um mito. O risco existe, porém o parto vaginal após uma cesárea (Vaginal Birth after Cesarean Section – VBAC) pode e deve ser realizado, caso seja a opção da parturiente.

Falta de dilatação – O que existe são tempos diferentes para cada mulher. Pode haver uma evolução difícil ou que estaciona, possivelmente ligadas a fatores emocionais ou do ambiente externo. Cabe à assistência eliminar as interferências e ajudar a mulher a ir em frente.

Cordão umbilical enrolado – O cordão umbilical é longo e preparado para isso. É por meio dele que o bebê respira no útero. Em casos extremamente raros, o cordão pode ser curto e impedir que o neném saia. Nesse caso, uma cesárea seria necessária.

Parto normal dói – Dói, mas ninguém pode saber qual a intensidade da dor até passar por ela. Um ponto interessante é que a dor do parto libera hormônios fundamentais que interferem, inclusive, na amamentação, como é o caso da endorfina.

Cesárea não dói – Na hora não dói, mas a recuperação do procedimento pode ser bem dolorida. O corte da cesárea, geralmente, dói de forma contínua por semanas ou até meses, o que pode atrapalhar o cuidado ao bebê.

Bacia estreita / Bebê grande – Essa desproporção pode acontecer, mas é raríssima. A grande questão é que não dá para saber se o neném vai passar, antes que a dilatação esteja completa. Então, isso só pode ser diagnosticado no final do trabalho de parto.

Parto demorado – Não existe um padrão de tempo para o parto acontecer. Cada mulher tem seu relógio biológico próprio para parir. Um parto pode demorar tanto uma hora, quanto três dias. O importante é acompanhar os sinais vitais da mãe e do bebê.

A via de nascimento não interfere na saúde – Pesquisas mostram que o parto normal fortifica o vínculo afetivo entre a mãe e o bebê, além de proteger o neném de possíveis complicações e diminuir o risco de depressão pós-parto na mulher.

Depois de 9 meses, o neném não nasce de normal – Mentira! A gestação vai de 37 a 42 semanas. Geralmente, os bebês nascem com 40 semanas. Mas, o tempo é todo dele. Caso chegue-se à 42ª semana, existem técnicas naturais para indução do trabalho de parto.

 

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