Alunos desmotivados

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Perguntar para um estudante se ele gosta de estudar é uma atitude que pode gerar constrangimento entre alunos do ensino médio de escolas públicas e particulares no Brasil. É o que revela uma pesquisa realizada pela empresa Multifocus Inteligência de Mercado com jovens de escolas de ensino fundamental e médio em 12 capitais brasileiras. O estudo traz números que fazem refletir sobre o ensino médio, apontando suas principais lacunas e desafios.

Segundo a pesquisa, 52% dos alunos de escolas públicas declararam ter gosto pelos estudos, enquanto na rede particular o número foi de 51%. Ou seja, metade dos jovens entrevistados declarou gostar de estudar. O estudo também revelou que com o passar dos anos o gosto pelo estudo diminui entre os alunos. 56% das crianças de ensino fundamental declararam que gostam de estudar; já no ensino médio, esse número cai para 42%.
“O ensino médio é um período conturbado na vida do jovem, grande parte começa a se inserir no mercado de trabalho. Conciliar duas atividades, trabalhar e estudar produz fadiga. Esse pode ser um dos motivos pelo desinteresse nos estudos”, aponta a doutora em Educação, Amone Inácia Alves, professora de Universidade Federal de Goiás (UFG).
O exemplo citado acima é o caso da estudante Thayná Rodrigues, de 18 anos, que cursa o último ano do ensino médio no Colégio Estadual Solon Amaral, no setor Conjunto Vera Cruz II, em Goiânia. Thayná começou a trabalhar aos 16 anos em uma empresa de telemarketing. Hoje, ela é vendedora em uma loja de bolsas e acessórios na região da Avenida Bernardo Sayão. “Sempre tive o desejo de deixar de depender dos meus pais. A vontade de ter as minhas coisas e realizar conquistas com o meu próprio suor me fizeram ir trabalhar cedo”, conta a estudante, que possui uma jornada de trabalho de 10h.
A jovem Thayná contou a reportagem que sonha em ser aeromoça, e que para isso ela precisa fazer sacrifícios para dar conta da dupla jornada. “É muito cansativo trabalhar e estudar, mas deixo minhas horas de sono para poder me empenhar nos estudos”, revela a estudante que precisa pegar todos os dias de 3 a 4 ônibus do trabalho até a sua escola.

Problema
Uma série de fatores colaboram para perda de interesse com o ensino escolar, acredita a Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), Claudia Valente Cavalcante. Dentre eles, segundo ela, está o fato dos alunos de camadas mais baixas da população precisarem trabalhar. Além disso, ela explica que a escola não acompanha as mudanças sociais que estão presentes no dia a dia dos alunos.
“É necessário que as escolas entendam os processos informais de aprendizados. Hoje, os jovens são capazes de aprender fora da escola, como na internet. Além disso, é preciso que haja uma reestruturação pedagógica no ensino básico, para estimular o jovem a continuar nas salas de aula”, destaca a Doutora.


Números alarmantes

 

 

Dados do Ministério da Educação (MEC) também desenham o cenário assustador do ensino médio no Brasil. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) permaneceu em 3,7 pontos, numa escala de 0 a 10, entre 2011 e 2013, o que sintetiza a estagnação dessa etapa escolar.
Ainda segundo dados do governo, um em cada dez estudantes do antigo segundo grau abandona as salas de aula antes do término do ano letivo. Além disso, 12% reprovam e 30% dos matriculados estão com atraso de mais de dois anos no fluxo regular. Hoje, no Brasil, apenas 50,2% dos jovens matriculados no ensino médio terminam os estudos.
Diante de um novo aluno, a escola já não consegue mais atrair o jovem brasileiro que cursa o ensino médio, essa é a visão de muitos especialistas. Na opinião da professora Amone Alves, doutora em Educação, o problema está impregnado em toda a rede de ensino básico e não está presente apenas no ensino médio. “Infelizmente, a educação no Brasil se avalia o resultado e não o processo. Existe uma grande preocupação com a prova, com a nota, com o boletim, e não se têm preocupação com o aprendizado. O aluno não consegue ver significado no conteúdo e acaba deixando a escola para ir ao mercado de trabalho”, enfatiza a especialista.

Novo ministro
Renato Janine Ribeiro, atual ministro de educação que assumiu a pasta no começo deste mês de abril, também possui a mesma opinião da professora Amone. Em sua primeira entrevista após assumir o cargo, afirmou que a educação tem se tornado cada vez mais uma obrigação e menos um prazer. “Acre­dito na educação como libertação. Saber não é uma transmissão de conteúdos, não é uma padronização. Penso que um dos pontos importantes é como a gente aproxima isso do mundo da cultura”, explicou o ministro.
A preocupação do governo é geral e não se restringe apenas ao MEC. A reforma do ensino médio também foi uma das principais bandeiras da campanha à reeleição da presidente Dilma Roussef, que inclusive elegeu o lema “Brasil, Pátria Educadora” para o seu segundo mandato.


Medidas necessárias

 

Em 2013, uma comissão eleita pela câmara de deputados federais estudou o problema do ensino médio e apresentou um relatório com sugestões para a solução da educação nesta etapa de ensino básico. A educação em tempo integral, melhoria no ensino profissionalizante e uma grade curricular flexível foram as sugestões levantas pela comissão. A proposta se transformou em projeto de Lei 6840/13, que foi analisado por uma nova comissão e foi arquivado antes mesmo de ser votada em plenária.
Claudia Valente Cavalcante explica que antes de mais nada, se deve analisar a proposta da escola. Ela destaca que diferente das instituições particulares, nas públicas o foco não é o vestibular. “Tornar a escola integral é uma realidade que pode afastar os alunos do ensino médio, afinal os jovens de classe mais popular precisam trabalhar para ajudar na renda familiar”, completa a professora.
Para a professora Amone, existe um grande equivoco de toda a sociedade sobre a educação. “Precisamos entender que o ensino médio, assim como o ensino fundamental, faz parte da educação básica. Ela não educa apenas para o mercado de trabalho, ela educa para a vida e assim mostrar como ele participa como cidadão na sociedade”, aponta.


Ações em Goiás

 

No estado, a reforma do ensino médio é foco desde 2009 com o programa do governo federal chamado “Ensino Médio Inovador”, que tem o objetivo de induzir a reestruturação dos currículos nas escolas brasileiras. Hoje, o programa porta-voz do MEC é o Pacto Nacional de Fortalecimento do Ensino Médio (PNFEM), desde 2013, que propõe oferecer formação continuada aos professores do ensino médio.
“O PNFEM busca a integração do ensino, através de um conteúdo interdisciplinar, assim como é feito no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), agrupando as disciplinas nas áreas de Ciências da Natureza, Humanas, Linguagem e Matemática”, explica a especialista em Educação Amone Alves.
O Estado de Goiás também aderiu ao pacto, segundo a Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce), 13 mil professores de ensino médio da rede pública estão participando do projeto que disponibiliza uma bolsa de estudos no valor de R$ 200, materiais pedagógicos e ainda um tablet.
Wisley João Pereira, supervisor do Pacto Nacional de Fortalecimento do Ensino Médio da Seduce explica que o ensino médio possui um currículo bastante extenso. Para o supervisor, o maior desafio “é fazer com que o ensino para jovens crie identidade e possua um currículo menos extenso e mais profundo”, acrescenta.

 

 

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