‘Precisamos investir na qualidade’

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Nos últimos 12 anos, o Brasil passou por uma transformação no sistema federal de educação. A expansão das universidades e dos institutos federais ampliou o acesso ao ensino público no país. Considerado o maior programa de formação profissional do Brasil com 864 tipos de cursos – 220 técnicos e 644 de formação inicial e continuada; a meta do governo é que até o final de 2015 sejam oferecidas 12 milhões de vagas em cursos pelo Pronatec 2.

A verba orçada para ser utilizada este ano na versão 2.0 do programa ainda não foi definida. Além disso, até o momento, a educação está com verbas atrasadas e a situação é de indefinição para o ensino técnico no país. Para tratar do assunto, o Escola conversou com o reitor do Instituto Federal de Goiás (IFG), professor Jerônimo Rodrigues da Silva, que falou sobre o impasse nos recursos oriundos da esfera federal. Experiente como educador e gestor, o reitor afirma que o IFG já passou por situações piores e que o atual momento será passageiro.
Nesta entrevista, ele também falou sobre a importância do ensino técnico profissionalizante e a respeito dos desafios a serem superados pelo setor.

Reitor, fale um pouco sobre a situação da educação tecnológica no país?
Esse é um assunto discutido em todos os institutos federais de ensino, inclusive entre os reitores. Tema de todos os encontros do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (CONIF), na qual faço parte da diretoria. O consenso entre todos os reitores, até o momento, é que precisamos consolidar a rede de ensino desenvolvida durante esses últimos anos. Temos um grande desafio, com o papel maior que as universidades federais, não tirando nenhum mérito, afinal os institutos são responsáveis pela formação de trabalhadores, com os cursos técnicos profissionalizantes, cursos superiores de graduação em nível de licenciatura e bacharelado e também na formação de mestrado e doutorado.

De que maneira essa consolidação deve ocorrer?
Precisamos investir na qualidade do ensino para depois pensar em novas expansões. Os institutos federais saem inicialmente, desde a sua criação, de 140 unidades espalhadas no Brasil chegando hoje há 562 unidades ou campus. Essas unidades são pertencentes há 38 institutos federais, dois centros de educação tecnológica (Rio de Janeiro e Minas Gerais) que ainda não fizeram a adesão para se transformar em Institutos. A rede se desenvolveu e um curto período de tempo, tudo isso para gerar desenvolvimento não só nos grandes centros, mas também no interior do país.
Precisamos continuar esse desenvolvimento que gerou impacto na economia das pequenas cidades sem deixar de dar maior atenção ao tipo de ensino que é oferecido aos estudantes. Hoje, muitos municípios deixaram de ser cidades dormitórios e muitos jovens não estão migrando para os grandes centros urbanos para estudar. Esse efeito é, em parte, por conta do governo federal, que tem se preocupado com ensino profissionalizante.

Existe algum plano de expansão do IFG em Goiás?

O Estado de Goiás já está bem servido com dois Institutos Federais, mesmo assim ainda são observadas a necessidade de implantação de mais uma unidade na região de São Miguel do Araguaia (GO), mas ainda estamos fazendo estudos. Vale lembrar que ainda não se tem previsão da implantação. Tudo vai depender das diretrizes do governo federal para este ano.

Como o IFG escolhe as cidades que merecem uma unidade do Instituto?
Possuímos um grupo de estudos chamado de ‘observatório no campo de trabalho’, responsável por fazer inicialmente uma pesquisa da região em que pretendemos instalar uma unidade do IFG. Além desse estudo regional, o observatório também é responsável por fazer um estudo sobre a condição da instituição em ofertar os cursos e suas demandas.

Qual o período de implantação de um campus?
Temos um período de cinco anos para fazer a implantação de um campus, o IFG possui seis anos de vida e por consequência possuímos várias unidades na fase de implantação. Os institutos foram criados na perspectiva de provocar o desenvolvimento regional, em Uruaçu, norte de Goiás, que é uma região pouco atendida pela educação superior, por exemplo, foi implantado o curso de engenharia civil com cerca de 90 vagas para que possa atender a uma oferta. No total, hoje possuímos aproximadamente 12 mil alunos presenciais e mais de quatro mil alunos a distância.

As instituições de ensino federais de educação sofreram um corte no orçamento em 2015, qual foi o impacto disso no IFG?

Quando se fala em cortes é em função do momento em que o Brasil está passando. Ainda não se sabe as prioridades de ensino para esse ano e muito menos foi divulgado o orçamento da União, que ainda precisa passar pela câmara dos deputados e do senado para ser sancionado pela presidente Dilma. Ainda não está definido quais programas do MEC sofrerão com os cortes no orçamento. Esse ano houve atraso na definição do orçamento que deveria ser sancionado no final do ano passado, o que não aconteceu. Enquanto o Ministério do Planejamento não é ciente do orçamento anual, ele libera um orçamento para as autarquias para que elas não parem de funcionar e deem continuidade às atividades. Todo ano, o governo libera 12 avos do orçamento geral, esse ano foi diferente. Temos dois decretos que definem como liberação de apenas 1/12 (um doze avos) quando não for aprovado, a diferença é de 1/18 (um dezoito avos), por isso, a imprensa publicou que houve o corte de 30%. Esse dinheiro é o que o MEC está nos liberando para ao longo desse período que antecede a sanção oficial do orçamento. Lógico que isso dificulta e o IFG é obrigado a segurar o pagamento de um fornecedor, por exemplo. Atrasa e tem um impacto no desenvolvimento das atividades, mas nós estamos com a expectativa para que a presidente Dilma Rousseff sancione a lei ainda esse mês para termos um noção das condições do instituto e fazer um planejamento para 2015.
Esse momento em que a educação no país passa por falta de repasse de verba é um dos piores já passados pelo IFG?
O IFG já teve momentos mais críticos em governos anteriores, ficamos até cinco meses sem pagar energia, água e telefone, por exemplo. Não tínhamos condições de fazer concurso público para contratar novos servidores. Hoje temos uma boa situação, inclusive nós vamos lançar um edital de contratação de novos servidores no próximo semestre. Ainda não posso dar mais informações sobre o novo concurso publico até a publicação do edital, mas o certo é que iremos oferecer vagas para preencher o nosso quadro de professores.

O Pronatec foi um dos mais atingidos, até o momento, pelo corte na verba. Os alunos do IFG serão prejudicados?
O pedaço do IFG do Pronatec é pequeno, ele está mais presente no Sistema S e nas escolas particulares, mas a bolsa formação é um programa desse plano de governo. Em função de repasses houve atrasos na instituição, mas desde dezembro do ano passado o governo pagou todas as bolsas e não existe nenhuma pendência, diferente das demais instituições. Acredito que o beneficio será reformulado e o controle será mais rigoroso esse ano. Hoje, o aluno recebe cerca de 120 reais e pode receber até três auxílios, para isso é necessário comprovar renda para as assistentes sociais. Existe também a discussão para que todos os alunos carentes recebam a bolsa independe dos recursos repassados, mas ainda é incerto.

O governo federal elegeu a Educação como lema principal, qual a visão da presidente para os institutos federais de educação?
Participei da posse do novo ministro da educação, Renato Janine. Na fala da presidenta Dilma, ela garantiu que para educação, os programas estruturais não sofrerão nenhum impacto com os cortes que irão acontecer. Isso é de se esperar, afinal o lema do governo é a educação, sinal de que teremos uma atenção ainda maior. Já na fala do atual ministro o momento é de consolidar o que já existe. Isso quer dizer que é a hora de investir na qualidade de ensino, esse é o nosso desafio para se tornar um país de primeiro mundo, afinal não é suficiente apenas preparar o aluno para o mercado de trabalho sem oferecer um ensino de qualidade. Eu entendo a preocupação, a carga de uma reitoria é pesada, estamos no interior do país e mesmo assim só atingimos 10% dos municípios, ainda é necessário crescer, mas a qualidade também precisa seguir esse crescimento.
O IFG enfrentou recentemente uma paralisação dos servidores administrativos, qual a situação das negociações?
Houve uma paralisação de três dias, nesse mês, de nossos servidores administrativos, é um direito e nós da reitoria respeitamos as reivindicações. A paralisação fez aparte do cronograma de ações do sindicato dos servidores que reivindicam melhores salários. Tenho conhecimento de que os servidores abriram negociação e o cronograma foi antecipado.
Vale destacar que no ano passado devido a greve dos servidores federais atrasou o calendário escolar do IFG, não foi por conta do orçamento como tem acontecido em instituições particulares credenciados pelo governo. Na época, alguns campus aderiram e por isso tivemos datas de início do ano letivo diferentes em cada unidade do IFG, mas todos já estão dentro do seu calendário 2015, algumas iniciaram as aulas em fevereiro e outras em março.

O IFG abriu um edital para preencher vagas através das notas do Enem, essas vagas eram ociosas, por que isso ainda é recorrente?
Infelizmente muitos alunos ainda não conhecem os Institutos Federais de Educação. Somos cientes do problema, pois são oferecidas muitas vagas e grande parte não é preenchida. Temos varias ações para chegar até o aluno, uma delas é uma campanha conjunta com as outras instituições publicas, com o lema: É público, é gratuito, é de qualidade. A campanha tem o objetivo de tentar tirar essas dúvidas do aluno que muitas vezes desconhece o serviço de educação federal pública que oferece uma educação de qualidade.

 

 

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