“É a chance para valorizar nosso cinema”

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Desde o dia 27 de junho do ano passado, todas as unidades públicas de Ensino Básico  estão obrigadas a exibir ao menos duas horas mensais de conteúdo audiovisual produzido no país. Quase um ano após a sanção da lei, um grande número de escolas esbarra na falta de estrutura para exibir os filmes. De acordo com o Censo Escolar 2013, coordenado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), cerca de 43 mil escolas não possuem televisores, tornando praticamente impossível o cumprimento dessa lei.

Para o professor e doutor em cinema, Lisandro Nogueira, apesar de acreditar que a iniciativa é de fato muito importante para a educação, a principal questão que atrapalha a exibição de filmes nas escolas não é a falta de equipamentos, e sim a forma como a lei foi imposta às escolas. Segundo o professor, as escolas já possuem matérias demais em suas grades curriculares, e inserir mais uma atividade só faria com que os alunos ficassem ainda mais sobrecarregados. Em entrevista ao Caderno Escola, Lisandro ainda comenta os benefícios da exibição de filmes nacionais nas escolas, sugere algumas alternativas para contornar os problemas para o cumprimento da lei, e ainda comenta sobre as mudanças na edição desse ano do Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA), que ocorre no mês que vem.

Essa iniciativa é importante?
Isso aí é o seguinte, primeiro que a intenção é muito boa, mas não podemos nos esquecer que as escolas já têm um currículo muito “elástico”, e isso acontece porque os políticos, muitas vezes, sobre pressão de vários setores da sociedade, acabam adotando e criando essas leis que na prática não são possíveis de se aplicar. Uma lei como essa é muito boa, muito bem pensada, mas na prática ela não funciona, exatamente porque o filme é longo, e os currículos já são lotados. Então hoje os políticos querem colocar qualquer atividade no segundo grau. Os currículos já transbordam de disciplinas e atividades, e isso faz com que muitas vezes as escolas não suportem, e os próprios alunos não conseguem assimilar tudo isso, se tornando um grande problema. Não é só o cinema brasileiro, a grade curricular nas escolas está totalmente sobrecarregada. O ideal, nesse caso, seria elaborar uma mudança curricular no sentido de implementar atividades artísticas que não fossem obrigatórias, e sim que fossem estimuladas. E não só dentro das escolas, mas também dentro da própria comunidade, com o apoio de associações culturais e artísticas. Essa maneira de querer, coercitivamente, colocar nos currículos das escolas, não só cinema, mas também determinadas disciplinas que apenas servem para encher o quadro de matérias, acaba não trazendo nenhum benefício para os alunos. Eu reforço, uma ideia boa, mas não é exequível.

A ideia é boa por quê?
Ela é boa porque nós vivemos sob o colonialismo do cinema norte americano, então, a população brasileira desconhece muito da sua própria cultura, do seu cinema, da sua literatura. E é importante conhecer o cinema brasileiro, pois ele é muito antigo e muito rico. Nosso cinema se inicia quase junto com o nascimento do cinema, cinco anos após o surgimento do cinema na França, nós já tínhamos o cinema no Brasil. Então o país tem uma grande história nessa área, mas a população não conhece. Essa é a chance para valorizar nosso cinema, que precisa ser conhecido, também é uma forma de mostrar aos alunos, de forma mais prazerosa, a cultura brasileira. Eu trabalhei um tempo com formação de professores da escola pública, e pude perceber que quando se exibe filmes, é algo extraordinário. Existe uma grande aceitação por parte dos professores por utilizar filmes como ferramenta didática.

De acordo com o Censo Escolar 2013, cerca de 43 mil escolas brasileiras não têm  equipamentos para exibição de filmes…
Esse resultado é curioso, porque no final dos anos 90 e início dos anos 2000 eu realizei um trabalho de formação de professores no sul de Goiás, e todas as escolas que trabalhei tinham aparelhos de projeção. O que eu percebo é que esses equipamentos não são utilizados ou não possuem manutenção, mas os equipamentos existem. O que falta também, mas que não é fácil, é fazer mudanças curriculares. Na minha concepção, a ênfase dada nas escolas deveria ser em disciplinas como Português, Matemática e História, e não ter essa infinidade de disciplinas que só cansam os alunos, e fazem com que eles aprendam tudo apenas superficialmente. A educação deveria dar enfase em disciplinas básicas, as outras deveriam ser acessórias.

Voltando ao que o senhor disse sobre o cinema brasileiro, que é muito antigo e rico, podemos acreditar que filmes para serem exibidos não irão faltar?
Nós temos muitas produções, e hoje muito mais acessíveis por meio de DVD’s e da Cinemateca brasileira. Também temos um projeto chamado Programadora Brasil, que é uma central de acesso a filmes brasileiros para espaços de exibição não comercial, onde estão disponíveis mais de 400 títulos sobre diversas temáticas, e que já estão nas escolas, pois foram distribuídos no Brasil inteiro. Então as escolas possuem os equipamentos, agora precisamos descobrir como utilizar. Não simplesmente impor às escolas mais essa obrigação, pois já se impõe outras diversas atividades complicadas de se executar na atual situação das escolas públicas.

E quanto ao cinema goiano? Nós temos títulos para exibição nas escolas?
Eu acredito que sim. Hoje o estado já possui uma boa produção cinematográfica, temos sim filmes interessantes que podem ser usados em sala de aula, principalmente documentários.

Alguns educadores e especialistas alegam que os professores, muitas vezes, não possuem um conhecimento para trabalhar esses filmes com os alunos. Eles não conseguem explorar o conteúdo trabalhado nos filmes. O senhor possui alguma sugestão de como os professores podem trabalhar com o cinema dentro da sala de aula?
Sempre existem filmes que os professores podem usar em disciplinas como História e Geografia. Na área de humanas como um todo existe um grande leque de opções. Mas eu não sugiro utilizar os filmes apenas dentro da sala de aula, e sim dentro da escola. Eu acredito que há espaço para exibir para os alunos esses filmes fora das disciplinas, por exemplo, criando projetos para exibir filmes do cinema brasileiro para todos os alunos da escola na forma de mostras de cinema, como parte das atividade extraclasse, convidando também a comunidade e não apenas os alunos. Isso é algo que não precisa ser dentro do currículo das disciplinas.

E já que estamos falando de exibição de filmes educativos, a Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) reduziu o número de grandes shows da edição do FICA desse ano, alegando que gostaria que o evento voltasse às suas raízes, que é exibir filmes de caráter ambiental, palestras e exposições de arte. Segundo a Secretaria, os shows estavam tirando o foco do evento. Mas será que os shows não funcionavam como uma forma de chamar a atenção para novos admiradores do cinema?
Eu acredito que não. Muito pelo contrário, na verdade. As pessoas que vão ao FICA para os shows, vão exclusivamente para eles. E o que aconteceu nos últimos 10 anos do Festival foi que houve um exagero com os shows. Então a pergunta que devemos fazer é: nós queremos um festival de cinema ambiental que educa ou nós queremos uma festa multicultural? Pois o que temos visto todo ano é um festival onde o cinema e o meio ambiente não são os protagonistas, fazendo com que o evento perca sua credibilidade. Sendo assim, a atitude da Seduce é a mais correta possível. Não é retirar a música do Festival. Continuamos com a música, mas ela agora é coadjuvante, e não protagonista. Se não for assim, se cria um problema muito sério, onde a maioria do público vai apenas para assistir aos shows, e o evento não consegue atingir seu objetivo, formando os participantes numa temática que é séria e fundamental.

E para finalizar, o senhor teria sugestões de filmes e temáticas importantes que deveriam ser exibidos nas escolas?
Olha, como disse, o cinema brasileiro é muito rico. Nós temos uma infinidade de temas para serem trabalhados, tanto na forma de documentário como ficção. Temos filmes que retratam períodos da história do Brasil, documentários com temáticas ambientais, entre diversos outros. Mas a dica que eu dou é que os professores entrem em contato com a Cinematéca Brasileira e adquiram o catálogo, que possui mais de 500 títulos, para poder conhecer o que nós temos disponível e o que mais se adéqua ao que está sendo trabalhado em sala de aula. Mas reforço, trabalhar os filmes dentro da sala de aula não é tão funcional quanto criar eventos educativos cujo tema seja cinema. Minha sugestão continua sendo que as escolas exibam os filmes em festivais periódicos, para que não haja uma sobrecarga dentro das salas de aula.


Quem é e o que faz?

 

Lisandro Nogueira é professor de cinema na Universidade Federal de Goiás (UFG) desde 1989. É mestre em Cinema e Televisão pela ECA/USP. Doutor em Cinema e Jornalismo pela Pontifícia Universicade Católica (PUC) de São Paulo. É professor no programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da UFG e no Mestrado e Doutorado em Performances Culturais da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG. Também dirigiu a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, nos anos de 2013 e 2014. Teve sua dissertação de mestrado transformada no livro O Autor na Televisão, editado pela USP-UFG. Consultor de cinema do Festival Internacional de Cinema e Video Ambiental (FICA) desde 2003. Também criou em 2002 a mostra O Amor, a Morte e as Paixões, que exibe anualmente filmes inéditos e promove debates em Goiânia. Foi também coordenador de várias mostras do Cine-UFG. Criou e executou o projeto do Centro de Documentação e Informação do Grupo Jaime Câmara-Rede Globo. E criou o projeto Café de Ideias no Centro Cultural Oscar Niemeyer, com o objetivo de debater temas contemporâneos.

 

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