“O respeito e a tolerância à diversidade religiosa só vem com o conhecimento”

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Um estudo recente da Pew Research Center, a pesquisa “The Future of World Religions: Populations Growth Projetions, 2010 – 2050”, mostra que a religião muçulmana alcançará o mesmo número de cristãos no mundo em 2050, e possivelmente, pela primeira vez na história, vai predominar como a maior em 2070. Qual, na sua análise, será o impacto desse crescimento no mundo? Poderá acirrar uma pretensa disputa ocidente x oriente?

Como o estudo do Pew Center indica, a previsão de forte crescimento do islamismo se baseia na alta taxa de fertilidade das populações muçulmanas em países africanos e em alguns países asiáticos. Outro fator previsto para tal crescimento é o aumento endógeno e por imigração dos muçulmanos na Europa e na América do Norte. Tirar desses dados a conclusão de que aumentará a disputa ocidente versus oriente, é imaginar que o islamismo ao longo desse largo processo continuaria sendo um bloco igual em todas as partes, não se transformaria, não se adaptaria e manteria sempre uma posição beligerante em relação ao “ocidente”. O que nós observamos hoje é o contrário: há grandes divisões no mundo islâmico, há rivalidades fortíssimas entre facções ou grupos sunitas e xiitas, entre sunitas entre si, mescladas com conflitos entre tribos e grupos étnicos locais, como no Iraque e no Afeganistão. Além disso, é preciso lembrar que o islamismo na Europa, por exemplo, é muito diferente do islamismo praticado na Arábia Saudita e em outros países do Oriente Médio. De certa forma, o islamismo já pertence a essa categoria vaga, chamada “ocidente”. Por outro lado, creio sim que o crescimento islâmico em países da África como a Nigéria pode favorecer uma agressividade maior de grupos fundamentalistas, como o Boko Haram, no sentido de forçar a adoção de uma política estatal islamizante, ou seja a introdução da sharia. Há um fator que não está claro nessas previsões e que pode alterar esse quadro, para um lado ou para o outro: é o futuro do cristianismo ou do islamismo na China, e mesmo na Índia.

Isso significará um enfraquecimento do cristianismo?

Em termos demográficos e políticos, sem dúvida, sobretudos nos países afetados pelos conflitos étnico-religiosos entre cristãos e muçulmanos. Isso também vai afetar a política interna ou regional dos países. Uma população muçulmana maior vai pressionar por maior representatividade, maior presença na esfera pública, na mídia, maior acesso a políticas públicas, financiamentos, etc. É o normal, como já acontece por exemplo na Alemanha. Mas os países ditos “cristãos” ainda permaneceriam os mais poderosos em termos de riqueza, tecnologia e poder militar. Aliás, o que significa “enfraquecimento do cristianismo”? o termo “cristianismo” é muito vago para englobar uma enorme diversidade de igrejas, credos, práticas e teologias. O protestantismo branco clássico norte-americano (WASP) está bem distante do catolicismo popular latino-americano ou africano. É preciso lembrar que o cristianismo, assim como o islamismo, não tem uma instância central de representação ou de controle. Os diferentes segmentos dentro deles não estão em conflito apenas com entidades externas, mas entre si mesmos, dentro do próprio campo religioso. Nesse sentido fica difícil uma igreja, ou mesmo o Papa, falar em nome de todo o “cristianismo”. Mas se essa polarização simplista aumentar, sem dúvida o Papa vai ser pressionado para assumir um tipo de papel de porta-voz do “mundo cristão”…

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disse em Fátima distrito de Santarém, que o cristianismo é a religião mais perseguida em termos globais. A International Society for Human Rights, uma ONG de Frankfurt, na Alemanha, estima que 80% da discriminação religiosa que acontece atualmente no mundo é voltada contra os cristãos. De que forma essa perseguição pode alterar ou impactar esse cenário?

Os principais responsáveis pela intolerância religiosa e pela perseguição aos cristãos na África, no Oriente Médio e na Ásia são os diversos grupos fundamentalistas, sobretudo islâmicos, mas também hindus. Na Síria e no Iraque o Estado Islâmico e a Al Qaeda, na Nigéria e Camarões o Boko Haram, no Afeganistão os Talebãs, nas Filipinas os diversos grupos guerrilheiros islâmicos. Também há perseguição na Somália, no Sudão, na Arábia Saudita, no Irã, no Paquistão, na India e até por parte do Estado na Coréia do Norte. O fundamentalismo terrorista também é um resultado de políticas colonialistas fracassadas da parte das potências ocidentais, desde o desmoronamento do império turco em 1917 até hoje. O fundamentalismo religioso não significa uma volta a um passado “medieval”, é um fenômeno bem moderno, é uma resposta equivocada à avalanche desenraizadora e arrasadora da modernização capitalista. Mas na medida em que a cruel perseguição aos cristãos, por exemplo na Nigéria, Síria e Iraque, se torna conhecida, e ganha a grande mídia, isso pode fortalecer uma atitude de rejeição (simplista) de todo o Islam, bem como justificar ataques de retaliação. Em contextos complicados, de mudanças muito rápidas e polarização dos conflitos, a coisa mais fácil de acontecer é encontrar bodes expiatórios, demonizar o outro como causa ou representante dos males. Esta é exatamente a lógica seguida pelos fundamentalistas.

Samuel Huntington propõe uma teoria a que chama de choque de civilizações, que de forma bem simplória, propõe que as identidades culturais e religiosas dos povos serão a principal fonte de conflito. Este fenômeno analisado pela pesquisa pode concretizar essa teoria, na sua visão? Qual a análise que faz disso?

Acho que a teoria de Huntington do choque de civilizações é um tanto simplista; ela supõe que a modernidade ocidental é uma conquista única da civilização ocidental, fundada na tradição do Judeu-Cristianismo, e que por isso seria incompatível com outras civilizações, que estão fundadas em outras tradições religiosas, como o islamismo ou o confucionismo. Isso tornaria tais civilizações incompatíveis entre si e condenadas a entrar em luta pela hegemonia global. Ora, o capitalismo, um sistema socioeconômico, baseado na racionalidade instrumental, típica do ocidente, foi assumido tanto por chineses, japoneses, como por russos, indianos, sauditas e outros tantos povos que seguem outras tradições religiosas. Não quero dizer que a religião e a cultura não tenham um papel decisivo na reposição da identidade dos povos, mas que a variável religiosa é insuficiente para esclarecer os conflitos pela hegemonia mundial. Há muitas outras motivações menos nobres nessa geopolítica. Por exemplo, o acesso a recursos naturais, a mercados, o controle de zonas estratégicas, etc. Por exemplo, dentro do paradigma de Hungtington não dá para entender como os Estados Unidos, de matriz cultural cristã, defensores da “livre” iniciativa, do “livre” mercado e da democracia liberal cooperam e compactuam há décadas com o regime da monarquia saudita, de matriz sunita superconservadora, que implantou um regime autoritário e violento no país. E foi justamente desse meio que surgiu o saudita Bin Laden e a Al Qaeda, que aliás até hoje é fortemente financiada com recursos vindos de grupos político-financeiros da Arábia Saudita.

Neste sentido, acredita que as disputas religiosas podem ser responsáveis por uma nova Guerra Fria?

As disputas religiosas raramente são apenas religiosas, quase sempre envolvem outros interesses e motivos, reais ou fictícios. A Guerra Fria aconteceu num horizonte histórico onde dois blocos de países, claramente delineados e antagônicos, se enfrentavam. Aqui não creio que se formem blocos de países, a realidade é muito mais porosa, instável e com fronteiras políticas indefinidas. Afinal, conseguirá o Estado Islâmico na Síria e no Iraque se afirmar como tal, como um estado? Qual o futuro do islamismo no Irã, um país-chave no Oriente? Parece que ele se aproxima cada vez mais do estilo consumista liberal, típico do “ocidente”. Em todo caso, acredito, sim, que os conflitos de origem religiosa ou mesclados com uma justificativa religiosa podem contribuir muito para o aumento das tensões mundiais no futuro próximo.

Uma dessas situações de tensão já vem ocorrendo na Austrália, onde o coletivo Recuperar a Austrália organizou uma série de protestos contra as manifestações extremistas da confissão religiosa. Os manifestantes alegam não estar contra uma raça ou religião, em particular. Mas, essa abordagem já trouxe efeitos negativos, como contramanifestações da comunidade islâmica no país, acusando o coletivo de ser antimulçumano. Essa pode ser considerada uma amostra de um cenário internacional de conflitos entre identidades culturais, como descreve Huntington?

Uma das consequências do processo de globalização é a desterritorialização das religiões e o desenraizamento cultural generalizado, que também reforça o seu oposto. É interessante notar que boa parte dos militantes de organizações muçulmanas radicais vêm das populações de imigrantes, que nos diferentes países não conseguiram ser integrados como “francês” ou “inglês” ou como “australiano”, em pé de igualdade com a população “nativa”, e por isso vivendo sempre entre dois mundos, na indefinição da lealdade, da identificação, do pertencimento. Nesses grupos a afirmação de pertencimento incondicional ao Islã (violento) é uma constante. As políticas fracassadas de integração dos migrantes contribuem fortemente para o surgimento de tais grupos. Não resolve culpabilizar os migrantes por serem islâmicos e fortalecer a islamofobia, isso só vai cobrar caro mais tarde.

Hoje, a imagem que temos do Islamismo está muito ligada à abordagem midiática que traz a vertente mais tradicional e extremista. Mas, a religião, em si, não está necessariamente relacionada a isso. Acredita que o crescimento vai contribuir para ampliar o conhecimento sobre a religião?

O respeito e a tolerância à diversidade religiosa só vem com o conhecimento, e este é impossível sem a aproximação e o diálogo. O Islam não é só e nem principalmente o talibã, assim como o Cristianismo não foi só e nem principalmente a inquisição. Há também extremismos e fundamentalismos dentro do Cristianismo, por exemplo contra as religiões afro-brasileiras, que devemos enfrentar e combater. O Islamismo é uma religião que aparece a muitos como simples e vantajosa, ela é extremamente portátil, o indivíduo pode levá-la consigo a qualquer lugar, não é complicada e também prega a misericórdia e a bondade, como a religião cristã. Não haverá paz no mundo sem que haja paz entre as religiões, isso é certo. Portanto, está na hora de cobrar dos nossos líderes religiosos o que estão fazendo e podem fazer a mais para diminuir a intolerância e aumentar a paz entre as religiões.

Uma reportagem recente do Le Monde, trouxe a perspectiva da religião no Brasil. Sob o título “Feliz como um muçulmano no Brasil”, o jornalista Nicolas Bourcier explica que a religião tem atraído cada vez mais adeptos nos últimos quinze anos. Além disso, ele lembra que “o primeiro país católico do mundo é poupado pela islamofobia”. Nesse contexto, você acredita que o Brasil seria neutro numa situação de tensão internacional?

O Brasil tem uma formação religiosa sincrética, simpática às religiões, tolerante e receptiva. Além do mais tem se posicionado, a meu ver corretamente, sempre a favor da causa palestina e com simpatia pelos países do mundo árabe. Nosso governo poderia fazer muito mais, tomar uma posição mais firme nessa questão das minorias religiosas perseguidas no Oriente Médio e na África; experimento a situação atual como neutra em excesso, ou seja, de lavar as mãos. Não sei como um possível futuro governo de centro-direita reagiria.

Segundo uma pesquisa do instituto Gallup International, que entrevistou mais de 50 mil pessoas em 57 países, o número de indivíduos que se dizem religiosos caiu de 77% para 68% entre 2005 e 2011, enquanto aqueles que se identificaram como ateus subiram 3%, elevando a 13% a proporção dessa parcela. Qual será o papel da não-religião nesse processo?

Segundo a mesma pesquisa que você mencionou no início, do Pew Center, os sem-religião, embora aumentando muito nos Estados Unidos, na Europa e talvez também no Brasil, em termos estatísticos mundiais vão perder relevância, pois os fiéis das religiões vão crescer a taxas muito mais altas até 2050. Mas os sem-religião definida, que só raramente se confessam ateus, são muitas vezes pessoas que passaram pelo trânsito religioso, fizeram a experiência religiosa e sabem prezar o respeito a cada tradição religiosa e sobretudo à espiritualidade, que vai além da religião isolada. Tais pessoas, também por seu nível de escolaridade, podem dar uma contribuição valiosa no sentido de aproximar os diferentes grupos religiosos, favorecer o diálogo e diminuir o preconceito existente nas religiões e na sociedade.

 

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