Sempre é tempo!

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Matriculada desde 2004 na Universidade para Terceira Idade (Unati), da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), Ana Cândida Sousa, de 75 anos, todos os dias, com toda a sua simpatia e jovialidade circula nas salas com o objetivo de dar as últimas informações da universidade para idosos e ainda vender uniformes para os alunos. “Tenho o prazer de vir até a faculdade para falar sobre as viagens e vender camisetas”, explica dona Ana, que carrega consigo folhetos e ainda uma sacola pesada, cheia de uniformes.

Com o sorriso sempre estampado no rosto, Ana Cândida esbanja determinação e força de vontade. “Esse é o meu trabalho, faço ele com todo o prazer do mundo, já estou acostumada e não preciso de ajuda para desenvolver minhas atividades”, pontua a aluna veterana.
Ana Cândida, nascida no Rio de Janeiro, mãe de uma filha e avó de três netos, hoje é moradora do Setor Universitário, em Goiânia. Ela conta que o coração do bairro onde mora são as universidades e que a Unati transformou a sua vida. “Após a minha família ter ido para os Estados Unidos (filha e quatro netas) e o meu marido falecer, acabei sozinha. Quase entrei em depressão, pois sempre tive uma rotina agitada”, explica Ana o motivo que a levou a voltar para a sala de aula.
Outra estudante assídua é Maria Siqueira do Val, de 70 anos, viúva há 2 anos. Mãe de três filhos e com oito netos, ela conta que conheceu a universidade no ano passado. “É uma delícia voltar a estudar, as oficinas oferecidas são ótimas, além disso, têm as viagens que são maravilhosas”, explica. Com os olhos marejados, Maria conta que a universidade ajudou a superar a perda de seu marido, luto que durou cerca de dois anos. Ao lembrar-se dos tempos difíceis, ela parafraseia um verso que ajudou a superar o trauma: “precisamos olhar para trás com gratidão, para os lados com o amor e para frente com esperança de um futuro melhor”, recita já com o sorriso e brilho nos olhos.
Maria acrescenta ainda que começou a assistir algumas aulas como ouvinte, “elas ajudam a ficar com a cabeça e saúde boa, vou deixar de vir à universidade apenas quando Deus não permitir mais”, pontua.
A aposentada Luciene Neves, de 64 anos, maranhense, formada em Pedagogia, mãe de dois filhos, conheceu a Unati quando precisava de horas complementares para concluir o curso na PUC. Ela conta que ficou apaixonada e desde que se formou decidiu dar aulas e também ser aluna na universidade para idosos. “A convivência, o ambiente e as pessoas possuem uma energia maravilhosa, acabei me apaixonando por esse lugar”, explica Luciene, que dá aulas sobre ‘Leitura e escrita na terceira idade’ todas as terças e quintas-feiras.

Um novo olhar
A representação dos mais velhos de forma curvada, apoiada em uma bengala, parece estar com os dias contados, ao menos é consenso entre as alunas da Unati: “Não vou ficar parada esperando a morte chegar, muito menos vou me entregar à velhice. A cada dia eu quero me superar, fazer o melhor, me sentir bem”, afirma a aluna Ana Cândida. Já para Maria Si­quei­ra, a vida é um aprendizado . “Não pretendo ficar em casa esquecida, quero sempre me superar e ainda receber o diploma da universidade”, acrescenta a idosa.
Para a psicóloga e coordenadora da Unati, Marli Bueno de Castro, os idosos que procuram a universidade precisam de um novo sentindo para viver. “Ao se aposentar, eles não querem deixar a vida ativa que antes possuíam. Com isso, chegam à universidade para dar um novo sentindo a vida”. Para Marli, o brasileiro está vivendo mais e sente a necessidade de melhorar a qualidade de vida.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro e Estatística (IBGE), os idosos são hoje no Brasil 26,3 milhões, que representa 13% da população. A expectativa é que o número deva quadruplicar até 2060, chegando a 34%, segundo o IBGE. “Precisamos ajudar os mais velhos a recuperar a autoestima, mostrar para eles que a vida não termina na terceira idade, pelo contrário”, destaca a coordenadora da Unati, que possui mestrado com ênfase em Desenvolvimento Social e da Personalidade, Marli Bueno.


O ensino para o idoso

 

 

No Brasil, a primeira iniciativa de oferecer educação a adultos maduros e idosos aconteceu na década de 1970, em São Paulo, pelo Serviço Social do Comércio (SESC). Em 1982, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é considerada a primeira instituição de ensino superior no Brasil a implantar a Universidade Aberta à Terceira Idade. Atualmente, por todo o país existem mais de 200 programas em instituições públicas e privadas.
Em todas as universidades católicas, a preocupação com o idoso, fez com que o modelo de ensino seja um padrão em todas as instituições. Na PUC Goiás, a Unati está em atividade desde 1992, promovida pelo Programa de Extensão de Gerontologia (PGS), hoje oferece 54 oficinas e cerca de 40 professores para 826 alunos matriculados.
Oferecida na área II da PUC, a formação tem a duração de dois anos e os alunos possuem o primeiro andar do prédio disponível para cumprir a grade de disciplinas que oferece atividades com o objetivo de auxiliar no convívio social, na qualidade de vida e saúde.
As faculdades voltadas para receber o idoso não possuem caráter oficial de graduação, as instituições ainda não foram regulamentadas pelo Ministério da Educação (MEC), por isso, os estabelecimentos de ensino são livres para criar a grade curricular e o tempo de duração de cada formação.
A coordenadora da Unati, Marli Bueno de Castro, explica que “esse é um modelo novo que a PUC está implantando, período em que muitos alunos ainda estão se acostumando com as novas diretrizes que vieram para melhorar o ensino”, explica. Segundo Marli, o programa tem o objetivo de proporcionar o envelhecimento saudável e transmitir conhecimento para melhorar a qualidade de vida.

Grade curricular
As oficinas oferecidas envolvem diversas modalidades, tais como Teatro, Envelhecimento Bem Sucedido, Equilíbrio, Nutrição, Inglês, Espanhol, Ioga, Hidroginástica, Fisioterapia Preventiva, Português, Memória, Coral, entre outras. As aulas são realizadas todos os dias da semana. Para participar das atividades da Unati, é necessário ter idade mínima de 50 anos e é permitida a inscrição em, no máximo, três oficinas. Os velhinhos também realizam viagens e apresentações em eventos, como em congressos dentro e fora da universidade, inclusive em outros estados.


Aprendizado mútuo

 

A estudante do primeiro período do curso de  fisioterapia, Anna Beatriz Gomes Barbosa, de 17 anos, presta serviço voluntário, toda terça-feira, na oficina promovida pelo seu curso.  A universitária, entusiasmada com o primeiro contato com a profissão que escolheu, faz massagens nos idosos escritos na oficina. Para a jovem, a Unati é uma oportunidade de colocar em prática a teoria, de ficar próximo da profissão que escolheu, além disso, “uma chance que eu tenho para ter contato com pessoas que possuem o conhecimento de vida que a universidade não consegue promover”, explica a Anna.
A professora de língua espanhola, Francisca Lais Alves, formada em letras aos 60 anos de idade, também fala do prazer que é dar aulas aos idosos. “Aqui eu tenho a possibilidade de ser também aluna. Os idosos trazem suas experiências para a sala de aula e o professor precisa respeitar”, lembra a professora.
Francisca Alves, emocionada, conta que as aulas que ministra na Unati é o seu primeiro emprego como professora, pois até então dedicou parte de sua vida na educação de seus cinco filhos e sete netos. “No começo eu era voluntária e depois me tornei efetiva. Fiquei emocionada quando pediram a minha carteira de trabalho, pois nunca precisei”, lembra a professora, que atualmente leciona duas vezes por semana.

 

 

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