Sem causar incômodos

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A relação entre o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT), e o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), anda de vento em popa, se compararmos a mesma há alguns meses. A aproximação recente é vista com bons olhos por lideranças de PT e PSDB, que acham que ela, até mesmo, demorou. Apesar disso, aliados acreditam que a união tucano petista é apenas para cooperação administrativa e não será extendida para uma aproximação política.

É exatamente por isso que o PMDB, principal aliado do PT na administração municipal, não enxerga dificuldades nessa aproximação. Para a legenda, o fato dessa ligação entre ambos ser cada vez mais evidente, não deverá atrapalhar os diálogos entre os dois partidos sobre uma possível parceria na sucessão municipal em 2016. Entretanto, ressaltam que esta discussão será feita em outro momento.

Acompanhado de perto a boa relação entre Marconi e Paulo Garcia, o vereador Clécio Alves (PMDB), ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia, não vê problemas na relação entre os chefes do executivo municipal e estadual. Para ele, o fato de o PMDB atualmente ser aliado do PT na administração no município, essa aproximação não poder ser pensada de forma eleitoral.

Clécio não enxerga cunho político nesse sentido e observa que os diálogos para as eleições do ano que vem não devem ser afetadas. “Não podemos pensar nisso agora. A discussão de aliança ou não deve ser feita em outro momento e isso não deve prevalecer. Eu não penso eleitoralmente nesse sentido”, expõe.

Já o deputado estadual Bruno Peixoto (PMDB), presidente metropolitano do PMDB, observa que Paulo Garcia e Marconi Perillo fazem algo que favorece a administração de ambos e que o PDMB não se posiciona de forma contrária nesse sentido. “Os dois formam uma parceria administrativa. É uma aproximação institucional. De forma alguma isso atrapalha os diálogos sobre 2016”, declarou Bruno Peixoto.

As lideranças peemedebistas não veem possibilidade de aliança política no fato de Marconi e Paulo se aproximarem, apesar de Clécio Alves não descartar uma aproximação futuramente. “Em política você jamais pode fechar as portas, adversários podem se tornar aliados. Eu não sei se é. Pelo menos eu espero que não seja,” opina.

Esse momento bom entre os dois chefes se deve em parte ao secretário Vilmar Rocha (PSD). Vilmar comanda a secretaria estadual do Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos que tem relação constante com a esfera do município. O mesmo, inclusive, disse à Tribuna há duas edições, que a relação entre prefeitura e Estado anda muito bem.

No início do mês de abril, o prefeito Paulo Garcia levou o secretário para visitar algumas obras da capital. Naquela ocasião Vilmar defendeu a postura do governador de não fazer discriminação político partidária. “O Marconi Perillo nunca discriminou ninguém por questões político-partidárias. Governo não faz oposição a governo”, disse o secretário.

Divergências

A aproximação entre Marconi e Paulo chama atenção, principalmente, porque eles pertencem a partidos antagônicos no Estado e no Brasil. Quando o PT se aproximou do PSDB em Goiás, historicamente as coisas não renderam. No início dos anos 2000, a tentativa de aproximação entre governo e município foi testada entre o então prefeito de Goiânia Pedro Wilson (PT), o deputado federal Rubens Otoni e Marconi Perillo. Entretanto, essa tentativa não deu certo (veja quadro).

Para o secretário de Go­verno da prefeitura de Goiânia, Osmar Magalhães (PT), a aproximação não lhe causa estranheza. Osmar não leva em conta o contexto histórico e defende a postura de Paulo Garcia no sentido de sempre ter estado aberto. “Essa relação entre Paulo e o governador está dentro da normalidade. O prefeito nunca se negou a ter um relacionamento com o governador”, disse Osmar.

Para o deputado estadual Humberto Aidar (PT), o fato dessas aproximações em gestões anteriores não terem surtido efeito não indica e nem impede que elas sejam tentadas novamente. “O que foi tentado e que não deu certo não pode ser empecilho para que se tente de novo. Aproximação não existia antes por conta de Iris Rezende”, revela Humberto Aidar, se referindo ao ex-governador peemedebista.

No PSDB, o presidente regional do partido Paulo de Jesus não enxerga dessa maneira. Para ele, a abertura do prefeito Paulo Garcia ocorreu recentemente, mas que foi sempre tentada por Marconi Perillo. “Agora que ele está vendo que a relação entre dois governos tem que ser assim. O governador sempre tratou os prefeitos de todos os municípios de forma republicana”, explica.

Rusgas antigas

O fato é que o convívio entre a administração petista e o governo tucano nem sempre foi harmonioso. A relação entre Marconi Perillo e Paulo Garcia apresentou mudança considerável desde o fim do processo eleitoral do ano passado até aqui. Durante a campanha, os dois trocaram farpas diversas vezes (veja quadro).

Para aliados, o fato faz parte do passado e que na campanha a história é escrita de outra maneira. “Na campanha os ânimos se exaltam mesmo. Eleição é eleição, administração é administração”, declara Humberto Aidar (PT). Segundo ele, o momento financeiro não permite divergências. “É hora de unir forças”, afirma.

Para Osmar Magalhães, a aproximação não se da por conta de favores financeiros. Segundo ele, a exemplo do que ocorre entre Marconi e Dilma, a relação é apenas republicana. “Essa relação não busca obter ganhos financeiros. É um tratamento republicano. Isso talvez tenha se criado em função da visita da presidente aqui em Goiânia”, lembra.

Pelo lado dos governistas, a opinião de que o governo ganharia pontos com Dilma se aproximando de Paulo é descartada. O vereador Thiago Albernaz (PSDB) afirmou que a relação entre Dilma e Mar­coni sempre foi positiva e que isso descaracteriza uma aproximação por interesse. “Essa relação não garante convênios. O governador nunca precisou disso para conseguir recursos. Dilma sempre nos tratou com republicanismo”, disse.

A posição é endossada pelo deputado federal Fábio Sousa (PSDB). Para o parlamentar, não há esse argumento justamente pelo fato de a relação entre a presidente e o governador sempre ter sido positiva. “Não vejo nesse sentido. Até por­que o governo sempre contou com uma relação republicana entre executivo federal e estadual”, afirmou Fábio Sousa.

Contrassenso?

No momento em que parte do PSDB nacional se posiciona a favor do impeachment da presidente da República, os discursos do tucano Marconi Perillo somados a sua aproximação com o petista Paulo Garcia e sua relação com Dilma Rous­seff se mostram contrários aos ideais da cúpula nacional da legenda. Para as lideranças regionais, entretanto, não há contrassenso.

Fábio Sousa defende que as relações entre administradores devem ser bem distinguidas. Segundo ele, o fato não deve ser confundido com o momento em que a cúpula nacional é a favor do afastamento da presidente. “O bom relacionamento entre governos deve existir”, observa.

Paulo de Jesus observou que o PSDB sempre foi crítico ao modo de governo dos petistas, mas ressaltou que a relação entre poderes administrativos não deve ser confundida com os ideais partidários. “Governo não pode de forma alguma fazer oposição a governo. Nós não fazemos isso” defende-se Paulinho de Jesus.

Para o vereador Thiago Alber­naz, questões políticas e partidárias precisam ser separadas de gestão. “Não cabe a nós fazer oposição administrativa”, disse o líder do PSDB na Câmara.


Aliança com Anselmo incomoda base na Câmara

Na Câmara de Goiânia, não é a aproximação de Paulo Garcia com Marconi Perillo que incomoda a base do petista, mas sim a boa relação do prefeito com outro tucano, o presidente da Casa Anselmo Pereira.

Ele estaria sendo o principal articulador do prefeito no legislativo goianiense nas últimas semanas, o que fez com que os vereadores da base se sentissem ‘descartados’, de­pois de tantos sacrifícios realizados para defender matérias impopulares da prefeitura.

A maior mostra desta insatisfação ocorreu na segunda, 4, quando o prefeito foi à Câmara para prestar contas em relação ao último quadriênio de 2014. Durante a sabatina, Paulo foi veementemente questionado e confrontado por vereadores da oposição, enquanto todos os vereadores da base assistiam a tudo sem se manifestarem, ao contrário do que ocorreu em sabatinas anteriores, quando a base blindava o prefeito.

Para um vereador da base aliada da prefeitura, o prefeito erra ao descartar a articulação de sua base na Câmara e ao colocar de lado seu líder, o vereador Carlos Soares (PT). “O que o prefeito vem fazendo é perigoso. Ele descartou o trabalho de seu líder e de sua base aqui na Casa e confia apenas na força do presidente. Sinceramente, não sei se ele contará com os nossos votos em projetos polêmicos futuros”, indica o aliado, que preferiu não se identificar.

“Se o prefeito quer se aproximar de Marconi Perillo, que se aproxime, mas é importante que lembremos que o governador nunca foi de ‘ajudar’ um adversário político. Se o prefeito quiser confiar nele, que o faça. Eu não confiaria”, complementa o vereador pertencente à base aliada. (Fagner Pinho)


Aproximação eleitoral entre PT-PSDB na História

 

 

Goiânia 2004

Pedro Wilson e Marconi Perillo
A primeira aproximação se deu durante a campanha para a prefeitura de Goiânia em 2004. O então prefeito de Goiânia Pedro Wilson (PT) rejeitou o apoio do PMDB – se recusou a ceder sua vice na chapa de reeleição ao partido – pois esperava um apoio do PSDB à sua candidatura. Em um primeiro momento houve sinais de que A chapa PT-PSDB poderia vingar, mas depois a discussão esfriou, principalmente do lado tucano. A articulção de Wilson com o PSDB acabou afastando uma aliança do PT com o PMDB e colocou Iris Rezende no jogo eleitoral. O peemedebista foi o principal adversário do petista na campanha e o venceu no segundo turno. Nesta etapa, o PSDB chegou a apoiar o PT, mas já era tarde demais para reverter a situação pró-Iris na capital. Pode-se dizer que o PSDB deixou o PT “no altar”, e o PMDB, preterido, acabou vencendo a disputa.

Anápolis
2004 Rubens Otoni e Marconi Perillo
O deputado federal Rubens Otoni, um dos fundadores do PT em Goiás, contou com o apoio do então governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), para a disputa pela prefeitura de Anápolis, contra adversários fortes como Pedro Sahium (PSB), Frei Valdair (PFL) e Onaide Santillo (PMDB). Para poder contar com o apoio de Marconi Perillo, Rubens Otoni tomou uma decisão inédita, que segundo fontes ligadas ao PT, pode ter sido uma das razões de sua derrota: ao invés de utilizar a cor vermelha, tradicional do partido, Otoni adotou o azul em sua campanha, cor historicamente ligada ao PSDB e ao governador Marconi Perillo. O problema é que, segundo informações de bastidores daquela eleição, o governador Marconi Perillo também apoiou extraoficialmente a candidatura de Pedro Sahium, que acabou vencendo a eleição com 54.386 votos contra 42.097 de Rubens Otoni.

Goiânia 2014
Iram Saraiva Júnior e Marconi Perillo
Durante as eleições de 2014, o então chefe de gabinete do prefeito Paulo Garcia, Iram Saraiva Júnior (PT), deixou seu cargo para apoiar a candidatura de Marconi Perillo ao governo estadual. Sua intenção, porém, era atingir o adversário do tucano, Iris Rezende, desafeto de seu pai, o ex-senador e ministro do TCU, Iram Saraiva, no PMDB. Marconi se reelegeu, mas Iram não conseguiu nomeação para nenhum cargo do governo estadual, no entanto.


Confira algumas trocas de farpas entre Marconi Perillo e Paulo Garcia

A prefeitura de Goiânia, devido a ações do passado, está passando por dificuldades. Chegaram até a cortar benefícios. A equação financeira de um governo, de uma prefeitura, não é algo simples. Aliás, governar não é para qualquer um”,
Marconi Perillo, em crítica indireta a Paulo Garcia em março de 2014.
A saída para a GO-070 e GO-060 são obras do governo estadual que, como consequência, deveria fazer todos os ajustes necessários na vizinhança e não o fizeram. Se o caos ali está instalado é por que não foi planejado por quem executou as obras”,
Paulo Garcia em crítica a Marconi Perillo em novembro de 2014.
A cidade de Goiânia está órfã e mal cuidada”, Marconi Perillo, agosto de 2014.

O governador vem de uma linha de desenvolvimento da qual eu não concordo”, Paulo Garcia em 2013.

 

 

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