“Nunca foi ventilado acabar com a Orquestra Sinfônica”

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Como está o cenário cultural de Goiânia, hoje?

Olha, há muitas intervenções artísticas. A Secult Goiânia, eu acredito, está recuperando um vácuo que ficou ao longo do tempo. Eu acredito que Goiânia passa por um momento muito bacana. Inclusive, uma coisa quase que inédita, é uma parceria entre Governo do Estado e Município, em que as duas secretarias trabalham em conjunto para o bem comum, numa cidade menina-moça, em que tudo está para fazer e, ao mesmo tempo, tudo está passado de hora, tudo amanhecido. É uma cidade muito nova e que tem uma diversidade cultural muito grande. Aqui nós temos do sertanejo ao rock. Do popular, ao erudito. E nós, Poder Público, de alguma forma, temos que ter a sapiência, a sabedoria de incentivar, ajudar a desenvolver, difundir, divulgar as artes em todas as linguagens. Eu acredito que nós estamos num momento muito bom. A cultura pode fazer com que Goiânia pode se tornar uma capital mundial. Tanto que nós estamos transformando em lei o Centro Histórico de Goiânia, tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), numa galeria a céu aberto, talvez a maior do mundo. Os encontros literários, o Goiânia em Cena. Há algumas semanas foi eleito um filme que será produzido na cidade, por meio de edital próprio da Prefeitura em parceria com o Ministério da Cultura, de R$ 1,05 milhão, que acredito será muito bom.

Como funciona esse projeto da galeria?

Todas as portas da Avenida Goiás, depois da efervescência do comércio latente e latejante, cada artista que mora em Goiânia por três anos ou mais, vai pintar uma porta e receber um subsídio da Prefeitura, além da tinta. Um valor simbólico, mas R$ 1 mil por porta, com edital específico. E vamos tornar Goiânia, talvez, a cidade com o maior número de obras de arte reunidas num só lugar no mundo.

Qual a temática que foi eleita? É levado mais para o lado do grafite?

Não, é exatamente isso que faz a diferença. Nós chamamos isso de arte urbana, mas é muito completa. Em Goiânia, nós demos um outro olhar, bem mais avançado. Por exemplo, nós temos Cléa Costa, Helena Vasconcelos, Santana… São inúmeros artistas de nome e renome nacional e internacional que estão pintando porta. Inúmeros artistas grafiteiros que estão pintando suas portas. Tudo passa por uma seleção e uma curadoria, que nós criamos aqui na Secult Goiânia para que também não haja incoerência. Suponhamos, tem uma loja que vende artigos evangélicos, não vai fazer lá uma pintura que não condiz com a porta. Já temos, praticamente, 120 portas já pintadas na Avenida Goiás, o que é um valor agregado muito grande reunido.

Isso depende do empresário?

Olha, mais de 70% aderiu. E outros empresários, talvez por não conhecerem o projeto, ou talvez não confiarem na coisa pública, não aderiram. Por isso, nós estamos enviando à Câmara Municipal um Projeto de Lei que torna obrigatório com que, depois de fechada a loja, o lado de fora não pertença mais ao empresário, mas à cidade. Por quê? A cultura vem para embelezar a cidade, para nos encher os olhos. E o papel da cultura é esse, por isso nós estamos tornando lei o Projeto Galeria Noturna, para que os empresários que não entenderam, venham entender melhor esse projeto, em que o prefeito Paulo Garcia determina que a gente reocupe o Centro de Goiânia pela cultura, pela arte. Por exemplo, os becos que eram local de moradores de rua, que eram local que as pessoas usavam para se esconder para usar como ponto de prostituição, e boca de fumo, hoje tem arte. Está acontecendo encontro de grafite, poesia, música, literatura. Nós estamos reocupando o Centro de Goiânia, para que não fique como outros centros urbanos que sofreram um verdadeiro abandono. A Avenida Goiás é um boulevard, é uma avenida maravilhosa. Então, estamos tentando devolvê-la à sociedade. A segunda parte desse projeto é fechar a avenida aos domingos, para que não entre carros, nem motos. Só bicicleta, patins, skate… A gente quer fechar para que as pessoas se apropriem dela.

O senhor falou em off que, hoje, a Secult Goiânia é uma das mais enxutas do Brasil, pois está com as dívidas todas pagas e tudo mais. Esses cortes recentes de orçamento que houve desde a esfera federal, até os municípios, em Goiânia com a reforma administrativa, não tiveram tanto efeito ou foi uma questão de adaptação da gestão?

Acho que foi o casamento. Quando nós tivemos, no ano passado, uma mudança, uma mexida estrutural na Prefeitura de Goiânia, em que foram extintas várias secretarias, a de cultura permaneceu como pasta prioritária. E, agora, está tramitando na Câmara, de novo, um enxugamento da máquina administrativa, necessário em todo o Brasil, para que o dinheiro público seja repatriado, seja voltado para a população com mais qualidade, de novo dez secretarias sendo extintas ou acopladas, sendo absorvidas por outras, o prefeito Paulo Garcia mantém a Secult Goiânia como pasta prioritária. Isso é avanço. Isso é uma Prefeitura que entende que cultura não é gasto, é investimento. Nós readequamos e elencamos as prioridades. Praticamente, depois que eu entrei aqui, não gastamos dinheiro com eventos, mas na formação. E os eventos que tivemos foram de massa, encontros de catira, de folia, reuniões literárias.

Quais são os espaços que o município tem dedicados às artes, hoje?

O Grande Hotel que, numa parceria muito legal entre a prefeitura e o governo federal, conseguimos retomar, que era do Instituto Nacional do Seguro Social, e que já estamos realizando vários espetáculos de formação. Mantemos junto com a Secretaria Municipal de Educação, o Goiânia Ouro. Devemos começar na semana que vem, de fato, a primeira obra pública municipal destinada às artes, que é a Casa de Vidro, ali na Jamel Cecílio. Goiânia pulsa. Mandamos já para o Iphan, o projeto da reestruturação e da reforma, pelo PAC das Cidades Históricas, da Estação Ferroviária, que abrange a Praça do Trabalhador, também. E temos o projeto de tocar junto com o governo do Estado o Teatro Goiânia e a Vila Cultural.

Sobre essa questão do Teatro Goiânia e da Vila Cultura, é sabido que o Estado estava com dificuldades orçamentárias para administrar os espaços. Então, a entrada do Município numa parceria para a gestão de ambos, de certa forma, soa como uma resposta estratégica, uma vez que as despesas passarão a ser compartilhadas. O que quero saber é, se isso é apenas uma jogada para tirar o peso do governo estadual, ou se vai beneficiar o cidadão, realmente. Essa gestão compartilhada irá trazer a retribuição, da qual o sr. falou mais cedo, para a sociedade?

Acredito que nós que estamos pedindo ajuda ao Estado. O Estado é muito mais forte que o Município. Agora, o que eu relatei para a secretária Raquel Teixeira é que o Teatro Goiânia na nossa mão, terá uma efervescência muito maior, porque a gente lida com o artista no dia a dia. Então, acredito que será, já está quase certa, uma parceria de mão dupla, em que o Estado ajuda o Município, o Município ajuda o Estado, e nós, Poder Público, ajudamos a população de Goiânia. Olha que bacana, nós termos espetáculos todos os dias. Por exemplo, nós temos a nossa orquestra sinfônica, imagina que legal a gente abrir todos os ensaios para as escolas e lá os alunos aprenderem sobre música. Saber o que é um oboé, o que é um violoncelo, o que é um violino. É um avanço muito grande. Claro que, com essa gestão compartilhada, nós não vamos nos fechar para obras nacionais e internacionais, mas vamos ter um olhar muito severo na questão de valorar o artista dessa capital, que precisa tanto ter feito uma peça, ou uma palestra, no seu currículo.

Essa parceria vai, mesmo, implicar no fechamento do Goiânia Ouro?

Nem pensar! Isso não foi ventilado. Hoje, ele nos traz um custo só de aluguel de quase R$ 30 mil, quer dizer, num futuro muito próximo a gente precisa é de comprar o Goiânia Ouro. Agora, a gente não sabe se querem vender. Eu acho que a Prefeitura não pode ficar sem uma sala de cinema. Nós temos que ter uma que fuja da lógica de mercado, uma sala em que serão exibidos não somente filmes de mercado, os blockbusters, mas precisamos de filmes culturais.

Mas, a Vila Cultural tem sala de cinema…

É muito pequena. E não tem a qualidade do Goiânia Ouro. Então, até que a Prefeitura de Goiânia tenha uma sala de cinema de qualidade equivalente ou superior, não se tem a cogitação de se fechar o Cine Ouro.

Recentemente, houve uma polêmica com relação à extinção de cargos de musicistas na Orquestra Sinfônica de Goiânia, que seria causada devido à reforma administrativa proposta pela Prefeitura de Goiânia, e que foi desmentida logo em seguida pela gestão. O sr. poderia comentar o assunto?

Foi mais ou menos o que aconteceu no caso do Cine Ouro. Às vezes, sai alguma coisa na imprensa totalmente descabida. E temos essa cultura de que se saiu no jornal, então é verdade. Em nenhum momento, o prefeito, ou o secretário de finanças, ou eu falamos em acabar com a Orquestra Sinfônica. O que eu pedi na mudança da secretaria, é que a orquestra virasse uma fundação, a Fundação Orquestra Sinfônica Goiânia. Porque, ela tendo um CNPJ, pode entrar em editais específicos e angariar dinheiro. Fica muito mais fácil. Para isso, precisa de ter sede. Então, já começamos a fazer pesquisas, no sentido de que o nono andar do Pathernon Center, onde a orquestra já realiza seus ensaios, seja escriturado para a Orquestra.

Isso vai implicar numa desvinculação do Poder Público?

Não, não. Ainda é um braço da Prefeitura e da Secult Goiânia. Só que aí ela passa a ter pernas. Com seu CNPJ, pode entrar num edital, por exemplo, para música de um filme, ou para um concerto que vá ter em qualquer lugar do mundo. Mas, continua sendo um braço da Secult Goiânia. Todos os salários são pagos pela Prefeitura, por meio do orçamento da secretaria. Como não estava no papel da mudança, porque havia essa possibilidade de virar Fosgo, saiu aquela notícia horrível, que deixou as pessoas com os cabelos eriçados. Inclusive, um dos músicos foi para as mídias sociais falar da maldade que foi aquela reportagem. Então, não foi cogitado.

Houve uma crítica, recentemente, falando sobre a falta de acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida no Grande Hotel. Mesmo sendo um prédio tombado pelo Iphan, há meios de a Prefeitura apresentar um projeto que possibilite esse acesso a cadeirantes?

 Nós já viemos pensando nisso. Todas as atividades que são realizadas no Grande Hotel ocorrem na parte inferior. A parte superior nós cedemos a artistas e grupos de teatro que fazem reuniões, ensaios, etc, mas mais no sentido de formação. Agora, o que tem de acessibilidade, que nós já estamos providenciando, é uma rampinha ali na porta, junto com um projeto muito maior que é o projeto de revitalização das calçadas do centro, mas que diz respeito à outra secretaria específica, que é tocada pela ex-vereadora Cidinha Siqueira (Secretaria Municipal de Políticas para as Pessoas com Deficiência ou Mobilidade Reduzida).

 

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