Escola versus Violência

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Bernadete Silva, estudante de engenharia civil, 19 anos, já foi testemunha em um processo judicial por filmar uma briga entre colegas na escola em que estudava. Ela conta que estava no ensino fundamental, e possuía um blog que noticiava os últimos acontecimentos. “Na época, a vítima de agressão foi parar no hospital, eu e um amigo filmamos toda a confusão desde o início e publicamos na internet. O caso teve grande repercussão e marcou a minha adolescência”, lembra a estudante que mora na cidade de Goiânia.
Casos como o relatado pela universitária Bernadete Silva são cada vez mais comuns no Brasil. A publicação de vídeos entre alunos envolvidos em brigas já virou até rotina no maior site de compartilhamento de vídeos na internet, o Youtube. A plataforma chega a oferecer cerca de 200 mil resultados com cenas corriqueiras de brigas entre alunos e até envolvendo professores.
Segundo dados do Mapa da Violência de 2012, a escola é o quarto local onde há mais ocorrência de violência contra crianças e adolescentes entre zero e 19 anos. Em primeiro lugar, de acordo com a pesquisa, está a casa das vítimas, com o total de 64% dos casos. Na segunda posição aparecem as vias públicas, outros ambientes ficam em terceiro lugar e na quinta e última colocação, aparecem os bares.
De acordo com o levantamento,  dos 5 aos 9 anos de idade a violência entre colegas de escola chega a representar 50% das ocorrências de agressão no ambiente escolar. Já entre a faixa etária de 10 a 14 anos de idade, a ocorrência é de 61%, e dos 15 aos 19 chega a 20%, segundo aponta o estudos.
“A sociedade brasileira possui uma cultura de violência, por isso ela chega em todos os espaços públicos e privados”, explica a pedagoga, filósofa e mestre em Ciências da Religião, Suely Amado, que já desenvolveu pesquisa sobre violência no contexto escolar.
Para Suely, a violência é um comportamento complexo de se resolver, que  muitas vezes passa despercebido no cotidiano das pessoas e até em todos os espaços de educação. “Apenas o fato do professor reclamar de um aluno na frente dos colegas é um tipo violência”, esclarece a professora da PUC Goiás que possui pesquisas na área de psicologia da educação, formação de professores, teorias educacionais e filosofia da educação.

Mais violência
Ainda segundo o Mapa da Violência, as agressões por parte de pessoas da própria instituição, como professores, chega a alcançar 8% na faixa dos 5 aos 9 anos, 6% dos 10 aos 14 anos e 6% entre os de 15 e 19 anos.
Para o cientista social e mestre em Filosofia, Sílvio Costa, a violência está naturalizada pela sociedade, que, segundo ele, incentiva o comportamento violento através dos meios de comunicação, por exemplo. “Não é tão simples resolver o problema, em razão de não depender de uma única vontade. Por isso, a escola não deve ser exclusivamente responsável para combater a violência na sociedade”, alerta o professor da PUC-GO.


Agressão contra professor

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Em uma pesquisa global que envolveu 34 países, realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil aparece em primeiro lugar no ranking da violência contra professores. Cerca de 13% dos educadores ouvidos no país disseram ser vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana, a média mais alta, segundo a OCDE.
Em Goiânia, numa pesquisa de 2010, realizada em escolas da rede estadual, de autoria da doutora em Psi­co­logia e professora do Instituto Federal de Goiás (IFG), Maria Gondim da Cos­ta, 61% dos entrevistados admitiram ter sido vítimas de violência praticada por alunos, 92% dos professores disseram ter sofrido alguma violência verbal e 12% deles foram vítimas de violência física.
Por conta do alto índice de violência do ambiente escolar, a educadora Suelly Amado acredita que o professor necessita do auxílio de todos os profissionais da educação, como assistentes, diretores, secretários e principalmente dos psicopedagogos. “O professor já tem o desafio diário de trabalhar com a interdisciplinaridade e dar atenção aos 40 alunos na sala de aula, em casos de violência, ele ainda é obrigado a deixar o conteúdo em segundo plano, prejudicando o rendimento escolar de toda a turma”, aponta a especialista em violência.

O papel do psicopedagogo
O psicopedagogo é responsável pela identificação das dificuldades e dos transtornos de aprendizagem nas escolas, utilizando conhecimentos da psicologia e da antropologia para analisar o comportamento dos estudantes.
Mestre em educação e especialista em psicopedagogia, a professora e psicóloga Janete Carrer explica que “o profissional em psicopedagogia pode ajudar na metodologia de ensino que o professor utiliza dentro de sala de aula”, com o uso de matérias que mostrem o contraponto da cultura de violência que crianças, jovens e adultos estão expostos todos os dias. “O psicopedagogo pode auxiliar o educador na organização de debates, análise de filmes, desenhos, textos e gincanas para que alunos possam lidar com os desafios, frustrações e que estimule uma cultura de paz”, explica Carrer que leciona na PUC Goiás.


Como coibir os atos violentos na escola?

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Os especialistas acreditam que os principais fatores que contribuem para o aumento da violência são: a baixa qualidade da educação recebida em casa, a falta de perspectiva em relação ao futuro profissional e principalmente a naturalização da violência pela sociedade.
Mestre em Educação, Janete Carrer acrescenta que “é necessário o envolvimento dos alunos em atividades como filmes, livros, textos, desenhos, teatro, músicas e gincanas, por exemplo, que  incentivem a cooperação e a solidariedade” ao invés da competição, com a finalidade de desmistificar a violência.
Falar sobre o assunto dentro da sala de aula é uma maneira de desenvolver momentos de reflexão e ajudar na conscientização dos alunos, apontam especialistas. Para colaborar com o tema, o Escola elencou algumas dicas que po­dem ser aplicadas pelo professor. Confira no quadro abaixo!


Debater é importante

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Promover a conversa entre os alunos é um modo de alertar sobre os efeitos da violência. O bate-papo pode começar com o exemplo de um caso que ocorreu na escola.

Textos e livros

Uma boa opção é usar a temática da violência para a elaboração de textos. Assim, o professor pode visualizar a opinião e o ambiente em que os alunos vivenciam. Uma outra dica é recomendar livros que abordam o assunto. ÂÂÂ

Eventos

Realização de gincanas que incentivem a cooperação ao invés da competição. Consiste em uma boa chance para a escola incentivar a solidariedade e o companheirismo entre o aluno e professor.   ÂÂÂ

Filme e desenhos

Um modo de expressão da sociedade capaz de mostrar a realidade cotidiana, a escolha de um bom filme ou desenho pode gerar o debate em sala de aula, além de ajudar no reconhecimento de problemas dos alunos.

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