“Objetivo é trabalhar para contribuir”

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718 - E4 e E5 - ALBA CRISTHIANE-PSICOLOGA PUC-FOTO PAULO JOSE -21-05-15 57Recentemente foi realizada uma audiência pública para debater demandas apresentadas pelo Conselho Regional de Psicologia (CRP-09). Durante a audiência, boa parte do debate foi sobre a necessidade de implantar o cargo de psicólogo educacional em Goiás, devido a grande necessidade, apontada por estudiosos da área, desse profissional nas escolas municipais e estaduais para ajudar em questões ligadas ao desenvolvimento humano e comportamental.

Para entender de que forma o psicólogo educacional pode contribuir para a formação dos estudantes, o Escola realizou uma entrevista com a professora e doutora em Psicologia do Desenvolvimento, Alba Cristhiane Santana. Durante a entrevista, Alba apontou os principais benefícios que os professores, alunos e familiares teriam com a presença diária do psicólogo na escola. Além disso, explicou a diferença entre o psicólogo especialista em educação e o psicopedagogo, e também fez um panorama da atual situação desses profissionais no estado de Goiás.

Fale um pouco sobre a principal função do Psicólogo Educacional dentro das escolas?
A escola é um espaço de formação e desenvolvimento humano, tanto do aluno quanto do professor. Sendo assim, existem questões subjetivas que acontecem ali que a educação não consegue resolver. A função da educação é trabalhar com o conhecimento e esquematizá-lo, falar de conteúdo curricular. E nós, psicólogos educacionais, estamos falando de pessoas; crianças, adolescentes e adultos que estão se relacionando, vivendo conflitos, e todas as questões próprias do desenvolvimento humano. E a ideia é essa, trabalhar essas questões interpessoais, as questões subjetivas que estão embutidas no processo de ensino e aprendizagem. O objetivo é trabalhar para contribuir com os processos de ensino e aprendizagem e a qualidade desses trabalhos. Às vezes, quando falamos nisso, os profissionais da educação não se sentem confortáveis, pois fica parecendo que eles não dão conta do trabalho. Mas não é essa a ideia. Não cabe ao psicólogo ensinar o trabalho do professor. Nós estamos lá para exercer um trabalho de parceria, pois existem algumas questões referentes ao âmbito das relações que deixam os professores sem ações, e nosso trabalho seria ajudar a pensar e trabalhar o coletivo. E também acho importante dizer o que não é papel desse trabalho: não é para consertar o aluno que tem problema, nós não temos que consertar ninguém.

E como está a situação da psicologia educacional em Goiânia?
Hoje a situação dos psicólogos nas escolas em Goiânia está um pouco complicada. Nas escolas estaduais existe uma equipe de profissionais, e cada psicólogo fica responsável por cinco ou seis escolas, em alguns casos até mais que isso, e eles são contratados para trabalhar apenas com inclusão. E nas escolas municipais não existem psicólogos educacionais. Em escolas particulares, algumas têm e outras não, mas em muitos casos o psicólogo está lá para trabalhar problemas pontuais, e não é esse o trabalho que devemos exercer. Quando nós exigimos a institucionalização dos psicólogos na escola, o que queremos é que não exista mais a opção de ter ou não ter o psicólogo na escola: o município terá que ter, o estado terá que ter. E será um psicólogo por escola, e não um para seis escolas. Imagine: a semana tem cinco dias, um psicólogo responsável por seis escolas não consegue ir nem uma vez em cada escola. E mesmo indo uma vez, o que ele pode fazer em um dia na escola?

Como esse contingente maior de psicólogos atuaria na escola?
A ideia é que o psicólogo seja parte da equipe, que esteja lá todos os dias, convivendo com aquele cotidiano, para que possa participar dos projetos variados daquela escola, projetos que possuem a função de criar um espaço favorável para que o aluno possa aprender e o professor possa ensinar, porque às vezes não é favorável para nenhum dos dois. Temos visto pesquisas que mostram o adoecimento de muitos professores, porque é muito pesado ele ficar ali o dia inteiro com tantas atividades a se fazer, cronogramas, dar aula e lidar com o aluno que está brigando, que tem problemas de sexualidade, que sofre bullying e violência. E o professor não tem formação para trabalhar com essas coisas. O professor da licenciatura estuda conteúdo curricular, ele faz uma ou outra matéria de psicologia, mas que não da conta de trabalhar essas questões. Mas se ele trabalha junto com o psicólogo, que tem uma formação específica de desenvolvimento humano e comportamento humano, é possível fazer um trabalho interdisciplinar e de parceria.

E com o psicólogo dentro da escola, quais seriam as vantagens que o aluno, os professores e os pais teriam?
Com o psicólogo na escola é possível criar situações de discussão, de reflexão, de planejamento de ações e projetos. As escolas até têm esse tipo de espaço, na forma de reuniões de professores, onde eles levam essas questões e discutem isso, tentando planejar ações. Mas eles ficam limitados em determinados momentos, pois não conseguem enxergar algumas questões que não têm relação com a formação deles. Então, o benefício seria contribuir com a escola na criação desses projetos e na superação desses problemas relacionados ao desenvolvimento humano. E não é só a escola, e seus atores, mas a família também. Porque a família faz parte da escola de forma indireta, e podem ser beneficiados também. Os pais também estão sofrendo, pois não é fácil educar uma criança no contexto de violência e capitalismo em que vivemos. Então, imagine o quanto seria interessante se os pais tivessem esse espaço na escola para discutir essas questões. E não só ir até lá para ouvir reclamações e problemas dos alunos, mas para participar de uma discussão ou um debate em que nós psicólogos podemos contribuir.

A escola possui muitas demandas para administrar…
Não é que a escola não possa fazer isso sozinha, mas ela já está tão atarefada, tão cheia de funções, que o psicólogo seria um profissional que iria ajudar nesse contexto, iria propiciar a divisão de tarefas. Muitas vezes percebo coordenadores de turno e coordenadores disciplinares que ficam sobrecarregados, muito presos com as regras rígidas, transformando o trabalho num desgaste com os alunos, pois são obrigados a chamar a atenção do aluno porque o mesmo vai de boné, não está com uniforme, ou está usando o celular. E nós podemos contribuir realizando ações para ajudar nas questões subjetivas, que não cabem a esses profissionais, pois estudamos muito sobre adolescentes, que já possuem uma cultura de não respeitar regras.

Existe algum amparo legal para os Psicólogos Educacionais?
Existe um Projeto de Lei (PL) que tenta tornar obrigatória a presença do Psicólogo Educacional dentro das escolas. É o PL 3.688/2000, que já foi aprovado em todas as instâncias, ou seja, todos os políticos concordaram que é necessário um psicólogo em todas as escolas. Mas o que está barrando o PL agora é o financeiro. Na última votação, o Ministro da Educação pediu para suspender o projeto, dizendo que os estados e municípios não teriam dinheiro para pagar esse profissional. Então o projeto continua suspenso por esse motivo, falta de dinheiro. Aqui no estado nós já tivemos uma conversa rápida com alguns assessores, e tivemos a resposta de que ninguém duvida que seja necessário, mas também alegam não ter dinheiro para pagar mais esse profissional. Já o município alega que as escolas não precisam de psicólogos, os psicólogos estão todos alocados nos Centros Municipais de Apoio à Inclusão (CIMAI).

Qual o tipo de formação exigida para o psicólogo educacional?
Ele precisa saber sobre as questões básicas da psicologia, que têm a ver com desenvolvimento humano, personalidade e questões sociais. Mas além dos conhecimentos básicos de psicologia, ele deve entender sobre os processos básicos de educação, de processos educacionais, processo ensino-aprendizagem, ação do professor no contexto escolar, história da educação no Brasil, aprendizagem humana e políticas educacionais. Mas para aprofundar mais nesse aspecto, foi elaborada uma nova diretriz curricular para os cursos de psicologia, obrigando todas as universidades a disponibilizar a licenciatura em psicologia. Oferecendo essa opção, o aluno que tem interesse em educação irá fazer também a licenciatura, e fazendo isso, ele irá focar nessas questões que apontei. Em Goiânia a Universidade Federal de Goiás (UFG) já possui essa opção, e a Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás irá disponibilizar a partir do semestre que vem. Hoje em dia o psicólogo está sendo exigido em diferentes instâncias educacionais, não só nas escolas, mas também para dar aulas de psicologia em diversos lugares, em cursos técnicos, superiores. Então foi essa a necessidade que exigiu a obrigatoriedade da licenciatura.

A senhora pode me explicar qual a diferença entre o Psicólogo Educacional e o Psicopedagogo?
A psicopedagogia é um curso de especialização, que segundo o Ministério da Educação (MEC) necessita ter 360 horas, e que qualquer profissional que tenha um curso superior pode fazer, como Engenheiro, Médico, Odontólogo, Pedagogo, Psicólogo. E como especialização, ele tem uma parte das disciplinas para a educação, e outra parte para processos de desenvolvimento humano e ensino-aprendizagem. O que está acontecendo frequentemente, é que as escolas têm contratado alguém com a especialização em psicopedagogia, seja ele formado em letras, pedagogia ou outra licenciatura. Então essa pessoa estudou algumas disciplinas durante um ano que abordam todas as questões que eu disse, mas são só algumas disciplinas. E a psicopedagogia, principalmente aqui em Goiás, assumiu um caráter muito clínico, então eles estão na escola fazendo um trabalho específico com aquele aluno com problema também específico. Isso é uma prática que contribui sim para a escola. Mas o que nós estamos falando é sobre Psicologia Escolar, e psicopedagogo não exerce essa função. A psicologia escolar é uma especificidade do psicólogo, que estuda por cinco anos para trabalhar com isso, e alguns ainda realizam a especialização em Psicologia Educacional, que é uma formação específica para psicólogos.

Como a senhora imagina o futuro da Psicologia Educacional no Brasil?
Eu trabalho nessa área há 20 anos, e percebo que a situação está muito melhor que anos atrás. As pessoas estão falando disso, as pessoas estão discutindo esse tema, tem o Projeto de Lei tramitando, grupos no Estado trabalhando com isso. Eu percebo que a escola está chegando numa situação muito dramática. Nós nunca estivemos numa situação tão dramática quanto, nós não temos professores. Eu dou aula em cursos de licenciatura também, e os alunos não querem ser professores. Eu tenho uma turma de 40 alunos e todos eles dizem que não querem trabalhar em escolas públicas. Alguns alunos dizem que estão na universidade, estudam muito para se formar, e o que eles querem é trabalhar num lugar que dê condições de saúde mental para se trabalhar. Então, eu acho que esse cenário tende a contribuir com a psicologia escolar. Porque acredito que vai chegar um momento em que as pessoas vão jogar a toalha e dizer que nós somos necessários, e irão conseguir dinheiro de algum lugar para nos contratar. Além do mais, estamos com a esperança de que irá vir mais dinheiro vindo do Pré-Sal, aumentando a verba das escolas. Então, tudo isso é muito positivo. Mas eles só vão nos enxergar se não pararmos de gritar. Sendo assim, se nós fizermos a nossa parte aqui, acredito que o cenário irá sim melhorar.


Quem é e o que faz?

 

Doutora em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade de Brasília. Possui graduação em Psicologia, especialização em Psicopedagogia, mestrado em Psicologia do Desenvolvimento, todos pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PCU – Goiás). É professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Pontifícia Universidade Católica Goiás. Tem experiência na área de psicologia educacional, com ênfase no ensino de psicologia, atuando com os seguintes temas: formação e desenvolvimento de professores, orientação de estágios curriculares, psicologia escolar e educacional, psicopedagogia, orientação profissional e educação básica. Atualmente é vice-coordenadora da Associação Brasileira  de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE) Representação Goiás.

 

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