Celular em sala: como lidar?

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E1 01Segunda-feira, 8 horas da manhã. Sala lotada com adolescentes e um professor tentando ministrar uma aula. Parte da turma está realmente tentando prestar atenção, outra parte se distrai usando seus celulares. Em meio a conversas, risadas e sons do alarme de alguns celulares, o professor finalmente chama a atenção do grupo em questão. O silêncio permanece por alguns minutos, mas logo é possível ouvir um novo som de alarme, e uma nova leva de risadas se inicia, desconcentrando novamente o professor e interrompendo o grupo que tentava entender a explicação. Assim é o dia a dia de diversos educadores por todo o país.

O celular que, com a possibilidade de conexão com a internet, é tido como uma nova ferramenta de educação dentro e fora das escolas, tambem é um dos grandes responsáveis por desviar a atenção de crianças, jovens e adultos dentro das salas de aula. Desde a popularização dos telefones móveis, as reclamações vindas de professores do ensino básico têm crescido, devido ao aumento do uso destes aparelhos pelos mais jovens. E agora, com a facilidade de acessar as redes sociais até nos smartphones mais simples, o problema apenas aumentou.
A professora especialista em Educação Física Escolar e Coordenação Pedagógica, Elaine Bueno, que leciona em três escolas municipais e em uma escola estadual, em Goiânia, afirma que o uso de celulares pelos alunos é constante nas quatro instituições em que ela leciona. “Em todas as escolas a norma é a mesma, e proíbe o uso de celulares durante as aulas, mas infelizmente diversos alunos, em quase todas as minhas aulas, insistem em utilizar os aparelhos”, conta a professora.
Muitos, depois de obrigarem a professora a realizar uma interrupção na explicação da matéria, obedecem ao pedido de não utilizar o aparelho dentro das salas de aula. Mas outro grande número insiste em continuar utilizando, mesmo após a advertência verbal. “Nesses casos, os professores são obrigados a acionar a coordenação. E dependendo do caso, o aparelho é confiscado e só é devolvido ao aluno na presença dos pais ou responsáveis”, explica Elaine. Ainda segundo a educadora, além das interrupções durante as aulas, a cobrança insistente do professor acaba desgastando ainda mais a relação entre educador e aluno, criando situações de conflito em sala de aula.

Interrupção constante
Mesmo que seja em menor grau se comparado às escolas públicas, o uso de aparelhos eletrônicos nas salas de aula em instituições privadas de educação básica também é um problema. “Quase todos os dias um ou outro aluno me obriga a interromper a aula para pedir que guarde o celular ou o tablet. Felizmente a grande maioria obedece, devido as normas mais rígidas dos colégios particulares”, relata Renato Dering, mestre em Literatura e professor de Redação e Literatura em duas escolas da capital. Mas caso o aluno insista no uso do aparelho, o procedimento é acionar a coordenação da escola.


Possíveis soluções

 

Para tentar diminuir ainda mais o uso dos celulares durante as aulas, um dos colégios particulares em que o professor Renato Dering trabalha se utiliza das redes sociais em parceria com os alunos. “A escola possui uma conta no Instagram, onde publica fotos que os próprios alunos fazem. E temos percebido que isso tem dado certo, porque os alunos realmente gostam disso, e acabam interagindo entre si, participando de uma atividade de lazer dentro da escola”, relata o professor.
No caso da professora Elaine Bueno, para tentar amenizar a situação nas escolas em que trabalha, em que o uso desses aparelhos é muito maior, ela tenta criar acordos com os alunos. “Para evitar o uso excessivo durante as minhas explicações, eu sempre permito que meus alunos utilizem o celular no final das aulas. Eu acabo perdendo alguns minutos que poderiam ser dedicados à aplicação de conteúdo didático, mas agindo dessa forma eu evito conflitos e talvez interrupções que me tomariam ainda mais tempo”, afirma a professora.
Quanto ao uso dos celulares como um recuso para auxiliar nos métodos pedagógicos, os dois professores concordam que, utilizado de forma correta, esses aparelhos podem sim somar positivamente na aplicação dos conteúdos didáticos. “Ao meu ver, falta conhecimento para ambas as partes, aluno e professor, em utilizar os celulares pedagogicamente. Diversos colegas de trabalho não conseguem utilizar o celular por desconhecer as funcionalidades do aparelho. Hoje em dia os alunos conhecem muito mais sobre os usos dessas tecnologias do que nós professores. Acredito que, talvez, com a criação de cursos que ajudem a utilizar essas ferramentas, isso possa melhorar um pouco”, comenta Elaine.
O mesmo afirma o professor Renato, que tem percebido que muitos professores, além dos celulares modernos, têm dificuldades em utilizar diversos recursos tecnológicos em sala de aula. “O que percebo é apenas o uso de equipamentos para projeção sendo utilizado nas salas de aula, o que não inova nem um pouco, e ainda pode entediar o aluno, que vê no celular uma forma muito mais interessante de se obter conhecimento e distração”, relata o educador.


Baixo desempenho

 

Um recente estudo realizado em diversas escolas da Inglaterra revelou que os estudantes que foram proibidos de usar seus celulares em sala de aula conseguiram aumentar suas notas em exames nacionais em cerca de 6%. De acordo com os estudiosos que realizaram a pesquisa, proibir o uso dos celulares durante as aulas pode equivaler a uma hora a mais na escola por semana, equivalente ao aumento de cinco dias no ano letivo.
A pesquisa foi realizada com alunos de escolas de quatro cidades inglesas: Birmingham, Londres, Leicester e Manchester. Os pesquisadores combinaram os dados de rendimento dos alunos antes e depois da adoção da medida. Depois da proibição, o resultado dos testes aplicados aos alunos com faixa etária de 16 anos aumentou 6,4%.
Mas é importante destacar que esse resultado foi percebido apenas em alunos que possuíam notas menores. A aplicação desta medida em estudantes com notas satisfatórias não obteve nenhuma mudança. Adolescentes na faixa etária de 14 anos também não apresentaram notas diferentes das que já obtinham, pois tendem a utilizar o celular em menor grau.


Ensino superior

 

Não é só no ensino básico que os professores estão sofrendo com o uso excessivo dos celulares durante as aulas. Dentro das universidades de todo o país o problema é ainda pior que o enfrentado na educação básica, é o que mostra a pesquisa “Dependência ou Autonomia? Um estudo sobre o comportamento dos universitários no Facebook”, realizada pelo publicitário Douglas Azevedo.
O levantamento da pesquisa foi realizado no início do ano passado com 508 estudantes universitários do Rio de Janeiro, revelando que mais da metade (52,3%) acessa alguma rede social dentro da sala de aula. Além disso, a pesquisa também traçou o perfil comportamental desses estudantes, onde foi detectado que 92% consideram-se heavy users (passam mais de seis horas diárias conectados às redes sociais); 87% deles revelaram que tiveram dificuldades no aprendizado por estarem conectados em redes sociais; e 19% ainda afirmaram sofrer déficit de atenção, dificuldade de concentração, falha na assimilação do conteúdo e esquecimento.
Projeto prevê proibição
Um projeto de lei que está em análise na câmara dos deputados quer proibir o uso de diversos aparelhos eletrônicos portáteis nas salas de aula da educação básica e superior de todo o país. Entram na lista equipamentos como celulares, smartphones e tablets. O projeto, que é de autoria do deputado Alceu Moreira (PMDB-RS), permite o uso desses aparelhos em sala de aula somente se eles integrarem as atividades didático pedagógicas e forem autorizados previamente pelos professores. O novo texto amplia o PL 2246/07, apresentado em 2007, e que pretendia proibir apenas o uso de celulares dentro das salas de aula.

 

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