“Não se pode conceber uma escola que exclui”

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diversidade slidesAutora do livro Inclusão escolar – O que é? Por quê? Como fazer?, publicado pela Summus Editorial, Maria Teresa Eglér Mantoan é considerada uma das maiores especialistas em inclusão escolar no Brasil. Doutora em Educação, a educadora possui inúmeros trabalhos sobre o tema. No seu livro, Mantoan faz uma extensa análise do cenário da inclusão no país, discute a sua implantação, vantagens, e defende que “incluir é não deixar ninguém fora da escola comum, ensinando todas as crianças, indistintamente”.

Sobre inclusão, os avanços no setor e a respeito do papel da escola e do professor no contexto inclusivo, Maria Tereza Montoan falou nesta entrevista ao Escola. Apesar de comemorar muitos avanços, ela argumenta que ainda existem escolas com dificuldades em incluir seus diferentes alunos; “Infelizmente, no entanto, muitas escolas ainda excluem não apenas o deficiente, mas todos aqueles que não se encaixam em um modelo arbitrário que ela mesma definiu. Confira a entrevista.

720 - E4 e E5 - Maria Tereza Egler Mantoan

Fale um pouco sobre o seu livro Inclusão escolar – O que é? Por quê? Como fazer? De que forma o trabalho pode ajudar escolas e professores que trabalham com turmas inclusivas?
Baseando-se na legislação mundial e brasileira, eu analiso em profundidade o caminho percorrido pela inclusão escolar até aqui, sempre me guiando pelo princípio de que incluir é não deixar ninguém de fora da escola comum, ensinando todas as crianças, indistintamente. No livro, proponho um deslocamento da visão educacional que se sente ameaçada pela inclusão para uma perspectiva que se abre para outras formas de ensinar e avaliar a aprendizagem. Conhecendo o potencial teórico da educação inclusiva e sua implicação no campo da mobilização social, mostro a importância da análise do contexto escolar, para entender as dificuldades de atender a estudantes com deficiência e outros e apontar o propósito da inclusão como objetivo primordial dos sistemas de ensino. Com uma visão teórica e jurídica dos marcos educacionais, o livro permite aos professores, pais, diretores e comunidade ter uma visão clara e sucinta sobre a inclusão escolar. As transformações da escola dependem de um compromisso coletivo para superar as dificuldades do dia a dia.

Professora, por que a inclusão escolar é tão importante?
Não se pode conceber uma escola que exclui. O principal objetivo da escola é preparar as novas gerações para a vida pública, como cidadão com direitos e deveres. Nesse papel da escola não cabe a segregação e a discriminação. Infelizmente, no entanto, muitas escolas ainda excluem não apenas o deficiente, mas todos aqueles que não se encaixam em um modelo arbitrário que ela mesma definiu. Nessa concepção, há um aluno “ideal”, que aprende de maneira igual. Pensando dessa forma, essa escola nunca será inclusiva.  

Quais são os benefícios da inclusão para a educação, alunos e professores?
O maior benefício é mostrar a dimensão da escola, que é de preparar todos que pertencem a nova geração para uma vida em coletividade, onde qualquer inclusão, discriminação e segregação deve ser banida. Do ponto de vista pedagógico, o benefício também é muito grande, pois a inclusão tende a aprimorar as práticas. Para ser uma escola de qualidade, o ensino deve chegar a todos, oferecendo condições para que o aluno desenvolva a sua capacidade. Todos nós temos capacidade de aprender dentro dos nossos limites. Uns mais, outros menos, mas todos são capazes. É uma premissa simples, mas infelizmente ignorada por algumas escolas. Mas a inclusão força a mudança. Para mim, esse é um benefício importantíssimo. Para o aluno, que necessita desse espaço, o benefício é inegável. Ele tem o seu direito preservado, de aprender e se desenvolver com os seus pares, sendo respeitado em suas diferenças.

Como se tornar um professor inclusivo?
Primeiro é preciso entender o que é inclusão. E, acima de tudo, entender o que é ser professor. Ser professor não é querer que o aluno seja aquilo que ele (o professor) quer, mas que o aluno seja o que ele é, aprimorando a sua capacidade dentro do que é possível, preservando suas diferenças. O professor tem que entender que cada um é um ser único e aquilo que ele ensina terá repercussões diferentes em cada aluno. O professor que espera que o aluno apenas repita e reproduza o que ele ensina desconhece o seu verdadeiro papel. É preciso ensinar a explorar interesses, desenvolver a criatividade, aguçar o conhecimento. Para chegar a essa conclusão, há diferentes caminhos. Um deles é o da formação profissional. Mas o professor precisa mudar muito a sua postura. Tanto na formação inicial como na escola, ele sofre pressões muito grandes para que o aluno tenha um desempenho excelente para satisfazer as estatísticas do governo. Para se tornar um professor inclusivo, é preciso superar esses entraves e entender a verdadeira função da escola.

Apesar dos avanços legais, que garantem a inclusão, existem muitas queixas por parte de docentes com relação à inclusão. Segundo eles, ainda há falta de professores de apoio, estrutura física para atender de maneira adequada os alunos, materiais pedagógicos; o que acaba dificultando a inclusão. Qual a sua visão sobre esse cenário?
O professor não pode atuar sozinho. Existe realmente muita dificuldade em algumas escolas por falta de condições mais favoráveis. São problemas reais, porém, nenhum professor pode achar que precisa ter todo o material de apoio em mãos para dar início ao ano letivo. Cada aluno tem necessidades de apoio que precisa ser estudada pelo professor e, principalmente, pela escola. A escola também deve ir à luta. É preciso disposição para ir atrás dos recursos.

Sobre o tema, fala-se também na integração da pessoa com deficiência. Qual a diferença entre integração e inclusão?
A integração é uma inserção condicional. A política que prevaleceu até 1994 previa que o aluno com deficiência deveria frequentar uma escola especial antes de ser integrado à escola comum. É um modelo no qual não há inclusão e sim apenas uma inserção condicional, pois o aluno deveria permanecer na escola especial até que estivese apto a ir para a escola comum. Na inclusão, não se pergunta quem pode ou quem não pode frequentar a escola. A escola tem a obrigação de aceitar todo e qualquer aluno. E nenhum pai tem o direito de negar esse direito. O pai, assim como a escola, é o guardião do direito da criança ir à escola.

Qual a vantagem para um aluno que não é portador de necessidades especiais estudar ao lado de uma criança com características inclusivas?
Há todas as vantagens possíveis. Em primeiro lugar, ele cresce aprendendo a não excluir, pois percebe que há diferenças. A convivência desde pequeno com casos de deficiência grave é um aprendizado enorme. E, assim, eles aprendem a incluir a partir da própria experiência de vida. Felizmente isso é algo que as  novas gerações já estão lidando.

A avaliação do aluno inclusivo deve ser diferente do restante da turma?
De forma alguma deve ser diferente. As avaliações deveriam servir para averiguar aquilo que o aluno sabe e o que é positivo para o seu desenvolvimento. Para mim, a avaliação tem duas finalidades: primeiro saber quais são as tendências, os interesses, o talento e a criatividade de cada aluno. E, a partir disso, saber o quanto ele pode avançar. A outra finalidade é de investigação do processo de ensino. O professor precisa saber, por meio do conhecimento do aluno, em que medida o ensino que ele oferece favorece os alunos.

Qual o momento da educação inclusiva no Brasil e onde se encontram as principais resistências no sentido de se conseguir uma efetiva inclusão?
O momento, felizmente, é muito bom. Nós avançamos. O acesso da criança à escola está garantido, assim como a permanência. Com o acesso, os pais de maneira geral entenderam a necessidade de levar seus filhos à escola. Evoluímos também na compreensão e na divulgação do que é inclusão escolar para o público em geral. No entanto, precisamos evoluir na formação de professores comuns dentro das perspectivas inclusivas. E ainda temos que avançar muito para que haja uma demanda cada vez maior das famílias para que o direito da educação seja garantido.  É preciso também contar com dinheiro público direcionado para a escola pública, não para o ensino particular e para as escolas especializadas. Falta quebrar essa visão empresarial do ensino e um bom começo é acabar com o investimento público em escolas particulares. Mas tenho a convicção de que não andaremos para trás. Avançamos.

 

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