“Estamos precisando é de uma Netflix brasileira”

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Lisandro Nogueira 1Tribuna do Planalto – Como está a produção audiovisual em Goiás, hoje? Qual sua leitura?

Lisandro Nogueira – Dos anos 1980 para cá, melhorou vertiginosamente. Na época a produção era mínima. Os equipamentos eram muito caros, a cidade era muito pequena. Goiânia mudou muito e a produção é muito grande. O grande problema é a distribuição. No passado o problema da distribuição era muito sério, mas da produção era mais, porque tudo era muito mais caro. Nesse momento, por exemplo, seria muito importante que tivesse em Goiás, através das entidades culturais ou até da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD Nacional), um portal ou algo como a Netflix, para colocar essas produções. Temos muitas, mas não temos acesso. É um cinema quase que invisível. No passado, era invisível porque não tinha produção. Hoje, tem uma produção, mas continua invisível. O ideal seria que tivéssemos uma plataforma como a da Netflix para o cinema feito aqui.

Por que acontece esse problema de distribuição? É só aqui?

Acontece no cinema brasileiro como um todo. Estive na Cinemateca Brasileira, agora, e lá tem um projeto que tem o objetivo de divulgar o cinema brasileiro em todo o país por meio de DVDs. Mas, o DVD já é uma mídia, de certa forma, ultrapassada. No interior do Brasil, todos ainda usam. Agora, o que nós estamos precisando é de uma Netflix brasileira, e de uma Netflix goiana. É importante ter esse canal, para que esse cinema feito aqui tenha visibilidade.

Podemos falar em nomes que se destacam hoje no Estado?

Nós temos muitos nomes bons. Cada um já fazendo filmes, se destacando em festivais fora e aqui, mas precisam de visibilidade. Esse é o grande desafio que eu, particularmente, pretendo batalhar por isso.

Só a Internet que pode resolver essa questão?

A Internet, mas também uma visibilidade através das emissoras de televisão, escolas. Mas, um projeto, uma política pública para divulgar isso. E, também, que a própria ABD Nacional poderia ir atrás disso, para tornar essa produção visível.

O Netflix é uma plataforma digital. Quando você fala em adotar esse modelo, é a Internet em ação.

Isso. Eu vejo filmes da Netflix. Por que não posso ver um filme brasileiro ou um de Goiás, não é?

Hoje, então, as políticas públicas voltadas para a produção audiovisual, não fomentam a distribuição?

Não, a nível do Ministério da Cultura (MinC), tivemos um projeto muito vitorioso que foi a Programadora Brasil, que eles vão retomar agora para fazer uma Netflix nacional, via Cinemateca Brasileira. Agora, aqui em Goiás, seria muito importante que tivesse também e que a Seduce (Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte) tomasse conta disso.

O Fundo Cultural não tem colaborado para isso?

Tem ajudado a produção, mas faltam projetos do setor público para divulgação e distribuição.

Já viu alguma movimentação nesse sentido?

Ainda não.

E espera?

Muito. Porque isso é fundamental.

Mesmo com os festivais? Hoje, somente em Goiás temos mais de dez eventos voltados para o cinema, seguramente.

São uma das janelas. Mas, é um público restrito. A Internet, nesse caso, ajudaria mais. Se tivesse uma plataforma que reunisse tudo seria melhor. Seria uma política de visibilidade maior.

Essa questão da Netflix regional, já é algo que foi conversado?

Não, é uma ideia minha que eu pretendo, proximamente, tendo a oportunidade de conversar com a secretária Raquel Teixeira, expor a ela.

Sobre o Luiz Cam, que foi uma figura importante no desenvolvimento da produção audiovisual em Goiás, o que ele nos deixa como legado?

O nosso cineclube foi fundado em 1977 – somos dinossauros, né (risos) – por uma geração. Eu entrei em 1979 e o Luiz entrou em 1983. Para você ter uma ideia do quanto isso é forte, hoje todos que fizeram parte do nosso cineclube trabalham com cinema: ou crítica, ou professor, etc. E o Luiz fez arquitetura e fazia os seus documentários. E, engraçado, dos membros que formavam o cineclube, ele era o mais cinéfilo. Ele via tudo. O Luiz Cam é o que não tinha preconceito. Ele via do Mazzaropi ao Jean-Luc Godard. Então, neste sentido, ele era o ponto de equilíbrio para o cineclube, então faz muita falta. Nós fizemos a missa de sétimo dia na última segunda-feira. O nome dele Luiz Cam é por causa de Cineclube Antônio das Mortes. Ele abandonou o Luiz Carlos Santos, para poder ficar Luiz Cam, por causa do cineclube. A identidade dele ficou tão amalgamada com o cineclube, que ficou Luiz Cam. Já imaginou um negócio desses? Lá na missa eu falei isso. Eu tive a oportunidade da palavra e falei que eu não ia ficar triste, porque já chorei muito na semana anterior, e ele era uma pessoa muito alegre. Da última vez que estive com ele, me disse que qualquer coisa que acontecesse, quando eu fosse falar dele não era para fazer algo de chorar, não, mas lembrá-lo com alegria. Aí, eu falei “Você se identificou tanto com o cinema, isso fez tanto sentido para você, que seu nome virou Luiz Cam, de Cineclube Antônio das Mortes”. Foi muito importante para nós, a passagem do Luiz entre nós, sabe. E essa área do cinema é muito intensa. Não é só para fora, mas para você internamente. Cinema dá muito sentido para a vida das pessoas. Ver, discutir, apreciar, produzir… Então, a morte dele é muito ruim, mas ele ficou na memória. E eu falei isso lá na missa para a família dele e todos os presentes. Uma pessoa só morre no dia que a gente deixar de falar dela aqui na Terra, enquanto você a mencionar, ela não morre aonde quer que esteja.

Sobre os cineclubes, acredita que a formação desses grupos é importante para o cinema?

Olha, cineclube é importante para a formação pessoal e individual. A Marina Costa fez uma dissertação sobre o nosso cineclube e lá ela fala da importância de um grupo que atravessa gerações, como é nosso caso.

Hoje, há mais grupos espalhados pelo Estado.

Ah, sempre tem. Tem um muito atuante lá em Anápolis, chamado Chica da Silva, que tem vínculo com o Sesc.

Considera importante essa conversa entre esses grupos?

Muito. A mostra “O amor, a morte e as paixões”, queira ou não, o espírito dela é o do Cineclube Antônio das Mortes, que sempre foi o espírito do debate e da reflexão. O encontro dos cineclubistas promove esse diálogo.

Hoje, a produção audiovisual é um mercado crescente.

Não tenho os números da Ancine (Agência Nacional de Cinema), aqui, mas o Brasil hoje produz mais de 200 filmes por ano. No início dos anos 1990, eram somente 5. E a Ancine criou uma lei que obriga as emissoras de televisão a cabo a transmitir filmes nacionais. Com isso, cresceu demais a produção em todo o Brasil.

Essa é a Lei 12.485 de 2011, conhecida como Lei da TV Paga, certo? Ela trouxe um pouco dessa abertura sobre a qual falamos, no quesito distribuição e divulgação?

Completamente, porque agora as pessoas veem o cinema brasileiro e o feito regionalmente, cada vez mais. As pessoas dizem para deixar o mercado regular. Mas, o mercado regula até certo ponto. A França, por exemplo, é firme. Lá mais de 50% da bilheteria dos cinemas do país é de filmes franceses. Aqui no Brasil, esse percentual é de 11%, atualmente. O que é muito ruim.

Essa lei trouxe mais abertura para as produções independentes?

Abriu demais. Hoje, aqui em Goiás, você tem o Lourival Belém Júnior, por exemplo, está ganhando editais que, antigamente, seria impossível alguém do interior do país ganhar, em função dessas leis.

Sobre a formação profissional no setor. Li algumas críticas que dizem que falta capacitação e mão de obra. Qual sua posição?

Falta. Mas, ao longo dos últimos dez anos, isso mudou bastante. Muitas dessas pessoas não voltam a dez ou vinte anos atrás, quando era inexistente. Hoje, nós já temos várias oportunidades, por meio dos festivais, oficinas, e trabalhos feitos. Hoje, temos um curso de Audiovisual na Universidade Estadual de Goiás (UEG). Isso é muito bom.

Roberto Lima, diretor da Ancine, em recente visita a Goiás, disse perceber uma falta de sinergia entre as produtoras. Na opinião dele, se houvesse uma maior colaboração entre os produtores de audiovisual, o setor teria mais força. Qual a sua leitura?

Isso faz parte de um processo de estruturação, que não é de uma hora para outra, de um setor ainda tímido, mas que já cresceu muito nos últimos anos. É um processo lento e gradativo. Mas, isso virá a acontecer. É bom ele falar isso. No eixo Rio-São Paulo isso aconteceu nos últimos cinco anos e vai acontecer aqui também.

As leis públicas de incentivo ao setor são importantes?

Muito, porque esse setor precisa ter incentivo estatal. A gente tem uma ideia de ver cinema como lazer, mas é muito mais do que isso. Faz parte de uma cadeia produtiva que gera emprego, sabe. Gera renda. Hollywood é um grande exemplo. Nos Estados Unidos, o sexto item de maior exportação é imagem, cinema. Eles ganham muito dinheiro com cinema. Então, nós deveríamos ter, também, uma clara ideia, como as emissoras ganham muito dinheiro produzindo conteúdo para a TV. Gera emprego e renda.

Há um dado da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), que fala que mundialmente o mercado de audiovisual movimenta cerca de US$ 450 bilhões anualmente. O Brasil, hoje, chegou a 1% de participação, após a Lei da TV Paga. Há potencial para crescer mais?

Só vai crescer, se o Brasil tiver uma indústria cinematográfica consolidada. O Brasil é um país grande, como uma indústria da televisão consolidada. Os americanos conseguiram tem um TV consolidada, porque já tinham o cinema antes, que veio dos anos 1930 e 1940. Nós não. Nós temos uma televisão que não tem tanta ligação com o cinema e, se tiver, a gente pode fazer desse setor forte economicamente. Porque, afinal de contas, a gente vive na época da civilização das imagens. E o Brasil não está muito atento a isso.

 

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