“Não tinha respaldo do PSDB aqui em Goiás”

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A7 02Tribuna do Planalto – Com a sua saída do PSDB o caminho é mesmo o PSB? A senhora tem conversado com Vanderlan Cardoso?

Lúcia Vânia – Aqui com o Vanderlan já tive uma série de conversas e agora estou tendo um trabalho com a bancada nacional. Fizemos um jantar com ela em minha casa para conhecê-la melhor, saber como a bancada vai se situar dentro deste quadro político complicado pelo qual passamos no Congresso. Um momento muito agressivo e de questionamento. É uma situação difícil, pois eu já estava muito desconfortável no PSDB, pois o partido resolveu negar tudo que conquistamos no passado, na questão do ajuste, por exemplo. Nós discutíamos dentro do partido dizendo que a nossa bandeira nas eleições devia ser essa, do combate à inflação e o compromisso com o ajuste fiscal. E hoje eu me sinto muito mal e negar isso. Hoje estou muito cuidadosa em relação ao PSB, para saber como ele vai se situar nessas condições que vivemos e, por isso, venho fazendo esses encontros mais próximos e fora da correria do Senado. Quero ainda conversar com os governadores de Brasília (Rodrigo Rollemberg) e de Pernambuco (Paulo Henrique Câmara)HenrH, que são os dois que estão com a mão na massa, sabem do momento das bases e esse trabalho que me toma um pouco mais de tempo e que me tirou da definição aqui.

O partido hoje é oposição, mas a sra. sente que o PSB continuará neste posto de oposição ou não?

Ainda não senti essa clareza. O vice-governador de São Paulo é do PSB, trabalha com o Alckmin, mas eu ainda não consegui sentir a bancada do partido. Acho que sentirei com mais consistência quando conversar com os governadores. Na verdade a bancada é independente, mas alguns votam com o governo. Têm o DNA do PT, foram aliados por diversos momentos.

Principalmente quando o presidente era o Lula…

Sim. Principalmente com o Lula. Com a Dilma não têm tanta ligação. De qualquer forma precisamos saber com clareza para que lado o partido seguirá. Isso se perdeu um pouco com a morte do Eduardo Campos. Com ele já estava bem claro para onde iria o partido.

Então não é 100% certo que a sra. irá para o PSB?

O caminho é seguir para o PSB mesmo. Estou apenas avaliando melhor para não ter surpresas, pois não posso, depois de 20 anos em um partido e sair, ir para outro onde não me sentiria bem. Não quero ser submetida. Quando definir não quero ter que seguir outro caminho, até porque só tenho dois caminhos a seguir na oposição: ou o PSB ou o PPS. Fora destes eu não teria mais alternativa. O PPS inclusive tem uma posição bem mais clara com o PSDB, de oposição.

A sra. vem para assumir o partido? Falou com o Vanderlan sobre isso?

Isso é um pormenor, mas seria uma pessoa ligada a mim e a ele. Mas isso não discutimos, pois é uma questão operacional. Não é tão importante assim. Até porque quero que as coisas se definam de forma colegiada. Não quero ser dona de partido, pois sempre lutei contra isso.

A fusão com o PPS acabou?

Eles encontraram muitas dificuldades. No começo foi fácil, pois havia identificação, mas a bancada de Pernambuco, que é a que detém o maior número de parlamentares, não se definiu. Então as discussões ficarão para depois das eleições.

A saída da sra. teve a ver com a discussão com o senador Aécio Neves (PSDB-MG), mas a sra. também tinha muitos desgastes com o PSDB aqui em Goiás, como nas eleições de 2002 e também nas eleições de 2010. Tudo isso somou para a decisão?

Sim. É óbvio que um único desgaste não seria suficiente para minha saída. Eu vinha acumulando isso ao longo do tempo. No PMDB também passei por isso e tinha totais condições para ser prefeita de Goiânia e não me deram a chance de disputar, indo buscar Sandro Mabel, que nem filiado ao partido estava. Com isso, eu saí do partido e fui apoiar o então candidato Darci Accorsi (PT) e foi uma coisa que marcou muito a minha família, pois foi complicado sair do PMDB e apoiar o adversário.

O PMDB não deixou?

Não. Por isso mudei de partido (pausa). Na verdade, eu sempre trabalhei arrombando a porta, pois ela nunca esteve aberta para mim (risos). Agora no PSDB não foi diferente… Eu sempre gostei do Fernando Henrique, da visão que o partido tinha para o País. Então, sair, foi muito dolorido para mim. Da outra vez não tinha muita preocupação não. Agora doeu muito. Mas senti que se ficasse, ficaria acomodada. Faço um trabalho que dá resultado ao Estado e não tenho oportunidade de mostrar isso. O que me choca é que as pessoas sabem que eu trabalho muito por Goiás, mas ninguém sabe o que eu fiz especificamente. Não tenho espaço no programa do partido. O PSDB não me abre espaço no programa. Modéstia parte, eu não posso deixar de dizer que eu estou sendo uma senadora que trabalha com resultado efetivo. Temos um fundo da ordem de R$ 1,4 bi que foi construído pedacinho por pedacinho por mim em um governo de oposição. Fiz o ressarcimento do investimento de Goiás no Tocantins, recriei a Sudeco, dupliquei o FCO e agora ajudo novamente para o Estado se recuperar neste momento. Me dediquei a vida inteira por Goiás e as pessoas não sabem o que eu fiz. É muito ruim. Agora quero que as pessoas saibam o que fiz, para que todos esses jovens tenham um exemplo. Isso me motiva.

Com a sra. no partido, prefeitos virão para o PSB?

Não me preocupei com isso não. Não consultei nenhum deles. Vou passar minha mensagem e se vierem, que seja naturalmente.

A resistência do PSDB a sra. ocorreu por quê? Por ser mulher, por ter crescido nacionalmente?

O fato de ser mulher pesa, mas hoje nem tanto. Já pesou mais. O que eu acho que foi é que sempre fui muito afirmativa em um colegiado de líderes fortes, não é erado. E a estrutura dos partidos são feitas para obedecer e eu sempre fui muito desobediente (risos). E eu pago um preço por ela.

A sra. sentiu de que lado do partido vinha mais essa resistência? De uma ala antiga do partido, da mais nova?

Eu nunca tive problemas com a direção nacional do partido. Vim ter agora por esse episódio da mesa. Eu não queria um cargo, mas uma posição para Goiás. E eu achava mais que justo representar meu partido e a região, que é vinculada ao PSDB, na mesa, auxiliando, inclusive, o governador. Então não pude aceitar uma situação destas. E o partido aqui (Goiás) teria que me defender lá, mas não o fez. Nunca o PSDB regional lutou por um espaço para mim na direção nacional. O curioso é que nunca lutou por mim, mas lutou pelos outros.

A sra. foi injustiçada?

Não. Esse negócio de injustiça na política não se pode esperar muito. Você trabalha e vai em frente, porque se você ficar chorando o leite derramado você não chega a lugar nenhum. Na atividade política é muito difícil alguém te dar espaço. Você em que conquistar o espaço. Eu acho que não fui competente o suficiente para pegar isso, embora tenha lutado muito, apesar de estar sozinha.

A saída neste momento foi certa ou a sra. sente que devia ter saído antes?

Eu devia ter saído do PSDB há mais tempo. Talvez eu tenha demorado muito para sair. Se eu tivesse saído mais cedo talvez eu não tivesse passado por esse constrangimento.

A sra. sempre fez um trabalho voltado na união de forças do Centro-Oeste e na última semana tivemos a notícia de que o governador Marconi Perillo está tentando fazer um grupo político para defender a região em Brasília. Um projeto político criado pela sra. Houve uma demora na percepção disto?

A região Centro-Oeste sempre foi minha grande preocupação. Em sua apresentação do projeto, o ministro Mangabeira Unger citou meu trabalho como exemplo. A primeira coisa que eu fiz como senadora foi buscar o envolvimento de todos os senadores da região. E fui despertando o sentimento dessa unidade. Mas infelizmente aqui eu falava sozinha. Eu achava que a Sudeco teria que ser o fórum onde os governadores, os senadores, os deputados reuniram para discutir a região e fortalecer a região. Eu fiz um artigo recentemente sobre o ajuste fiscal, falando da importância dele e falando que o nosso modelo de desenvolvimento tinha se esgotado que nós tínhamos que buscar um novo modelo. Você veja que esse modelo de desenvolvimento ele exauriu ai. Nós temos que ter um novo modelo.

Com isso ficava mais latente a necessidade da Reforma Política. Por que ela não aconteceu?

A Reforma Política significa você mexer com tudo isso. E não são todas as pessoas que estão dispostas a isso. É o retrato da sociedade e a sociedade não tem essa visão porque ela não tem informação. Ela não tem a informação que a gente tem em função dessa militância de mais de 30 anos lá dentro. Tanto é que o que mais choca a sociedade na Operação Lava Jato e o desvio de dinheiro, sendo que o gasto administrativo é muito maior. As pessoas não querem perder os privilégios de indicar cargos, em fim, de todas essas questões de contratar cabos eleitorais, de fazer coligações, etc. Lá dentro é muito difícil você encontrar alguém que queira mudar isso.

Falando em vício e trazendo um pouco aqui para dentro de Goiânia, a candidatura do Vanderlan poderá cair na terceira via novamente, o que ele vem tentando evitar. A saída passa pela tentativa de sair desses vícios político-partidários e eleitorais, tentar se desvincular dessa forma?

Eu acho que passa, óbvio. Acho que toda candidatura fora dessas forças convencionais elas ajudam a mudar. Reciclar o discurso, reciclar a prática política. Eu acho que depende muito da pessoa que conduz. O que vai fazer a diferença é o candidato ter a clareza – e pode ser que eu esteja equivocada – é de que obra não ganha eleição. O que ganha eleição é serviço de qualidade. O que a população está querendo é facilitar a sua vida. O candidato que for capaz de passar essa competência de fazer o serviço de qualidade vai ter muito mais chance. Essa é a visão que eu tenho. Eu acho que é uma visão equivocada achar que vai ganhar a eleição em Goiânia com obras.

O Vanderlan, fugindo dessa imagem, poderia ter mais chance?

Eu não sei. Eu não conversei muito com o Vanderlan sobre este assunto. Agora, estou lhe dizendo que se eu fosse candidata à prefeita, meu discurso não seria este. Eu não apelaria para obras.

 

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