“Estamos caminhando para a autossutentabilidade na Iquego”

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ANDREIA VECCI-IQUEGO -24-06-15-FOTO PAULO JOSE 858Como está o cenário atual da Iquego e do setor industrial químico no Estado?

Nós somos uma indústria farmacêutica e, apesar da crise, a indústria farmacêutica não entra em crise, porque é uma questão de saúde. O mercado mundial tem crescido e, no Brasil, ele cresce quase dois dígitos, anualmente. Então, é um mercado que não retração. O mercado de cosméticos, o mercado de produtos para a saúde que não são necessários, sim. Mas, o mercado farmacêutico, não, porque é um mercado de crescimento acelerado. E, no Brasil, ainda mais. Porque, como no país, a assistência farmacêutica é feita pelo SUS (Sistema Único de Saúde), em sua grande maioria – o Brasil é um dos únicos países entre os mais ricos do mundo que tem assistência universal –, o mercado público farmacêutico cresce todo ano.

Hoje, Goiás é o segundo maior polo farmacêutico do Brasil, abrigando 3% da indústria do setor. Na sua opinião, o fato de a indústria farmacêutica não ter seu crescimento afetado pela crise econômica, fornece aporte financeiro para que as consequências do momento não sejam tão severas?

Não. A indústria farmacêutica é um excelente negócio. Mas, para a Iquego, não é um negócio. Nós fazemos parte do SUS. Então, nós temos que melhorar o atendimento do SUS, com medicamento de qualidade e mais barato. Com relação à crise brasileira, não acredito que seja a indústria farmacêutica que esteja ajudando ou não, até porque nós somos dependentes da importação de princípio ativo. E isso é uma fragilidade do nosso sistema de produção de medicamentos no Brasil. 99% dos princípios ativos, dos insumos, são importados. O que ajuda na crise econômica, na verdade, são as nossas exportações de commodities. Que é aí onde Goiás também entra. Nós somos grandes exportadores de commodities: soja, etc. E de minério, não Goiás, mas o Brasil. Então, é esse o fator que ajuda na crise em nossas divisas externas. O farmacêutico, na verdade, é um bom negócio para quem está no Brasil. Nós não somos exportadores de medicamentos, mas importadores de princípio ativo.

Foi esse cenário de bom negócio interno que levou à participação do Seminário de Negócios Brazil Pharma?

Foi. O Governo de Goiás, por sermos o segundo polo de genéricos nacional, foi convidado a falar nesse evento em Nova Iorque para grandes escritórios de advocacia e investidores. Nós fomos o único Estado que falou. O governador Marconi pediu que eu o representasse, porque ele não pode ir, e esse é o cenário que apresentamos: um polo farmacêutico aqui em Goiás – o polo de Anápolis, em que a Iquego se inclui não geograficamente, mas do ponto de vista econômico – em ascensão.

E como foi a participação e qual o sentimento que trouxe, com relação aos possíveis resultados?

Foi um evento para discutir investimentos no setor farmacêutico brasileiro. Nós fomos privilegiados em estar presente, Iquego e Governo de Goiás, em função da nossa característica de ser o segundo polo de genéricos e aquele que mais cresce. Pra nós, não só para a Iquego e o Governo, mas para as indústrias farmacêuticas de Goiás, porque eu representava todo o setor, há sim a possibilidade de novas parceiras. As empresas estrangeiras buscam empresas brasileiras para entrar no mercado nacional, porque o nosso mercado de varejo de medicamentos no Brasil é muito peculiar. Então, eles tem muito interesse. Ao final, tive conversas separadas com investidores de indústrias farmacêuticas americanas, que estão interessados em entrar no Brasil. Não só através da Iquego, porque eu representava lá o Governo. E houve a possibilidade de ser realizado um evento semelhante na Pensilvânia (estado dos EUA), onde há um número de indústrias farmacêuticas ainda maior do que em Nova Iorque.

Qual a perspectiva que isso traz para o setor?

Excelente. Nós estamos buscando investimentos fora do País. E, como vem em parceria, é um custo zero e traz um crescimento exponencial. O mercado de saúde no Brasil é um dos que mais cresce no mundo. Até porque, hoje nós temos mais acesso e o Governo Federal tem aumentado muito a aquisição de medicamentos. Então, isso atrai a indústria estrangeira. E essa é uma boa perspectiva tanto para a Iquego, quanto para as indústrias goianas, em geral. Nós pudemos apresentar um modelo de negócios que é inovador. Iquego tem hoje o modelo de PDP, que é a Parceria para Desenvolvimento de Produto que é o único do Brasil. Isso chamou muito a atenção dos investidores que estavam lá no evento. Principalmente, de grandes escritórios jurídicos do Brasil, que também estavam presentes, mas não conheciam esse modelo. Nós pudemos falar que a Iquego está à frente no modelo de parceria público-privada no setor de medicamentos público.

Recentemente, a Iquego fechou uma parceria com a HMD Biomedical, indústria taiwanesa, para a produção de glicosímetros. Faz parte desse modelo de negócio?

Esse foi o nosso primeiro caso concreto e já é um caso de sucesso de parceria público-privada nesse modelo da Iquego. Nós fizemos uma chamada pública, buscando um produto de saúde específico que é o glicosímetro, que mede seu nível de glicose no sangue, um aparelho necessário para quem faz uso de insulina. Hoje, são 12 milhões de brasileiros diabéticos e esse número, infelizmente, só tende a crescer. Então, era uma necessidade da Iquego atender o SUS nessa peculiaridade, nesse ponto. Então, fizemos a chamada e se apresentou essa empresa, que foi a vencedora, e fizemos o contrato. O negócio já está andando, mas a convite deles nós fomos formalizar essa parceria lá em Taiwan, porque lá também precisa da participação do governo nos negócios. E, como nós também somos uma empresa pública, assinamos aqui com o governador Marconi e fomos até lá assinar o governo taiwanês.

A senhora falou que o mercado farmacêutico de varejo no Brasil é peculiar e, por isso, atrai os investidos. A que se refere?

Ele tem características de varejo muito diferentes de outros países. Porque, como nós temos uma assistência farmacêutica pública, alguns medicamentos são buscados no setor público. Mas, há também aqueles medicamentos mais sofisticados que a população de classes A e B busca dentro da rede privada. Então, toda essa variação e a forma como as nossas distribuidoras e lojas de varejo se colocam, é bem diferente dos outros países. Nós temos grandes distribuidores aqui. Isso traz dificuldade para uma indústria que vem de fora. Então, em geral, elas buscam parcerias aqui dentro. E a Iquego tem se colocado como uma parceira muito atraente e de grande potencial.

Há pouco mais de um ano, a senhora assumiu a presidência da Iquego. E a entidade vinha de um histórico de crise financeira, com uma dívida total de R$ 58 milhões. Em maio deste ano, em entrevista, a senhora afirmou que metade da dívida já havia sido quitada. Como está a situação hoje?

A situação está num processo de melhoria contínua. Com esses novos negócios que a Iquego tem trazido, nós estamos caminhando para a auto sustentabilidade. Nós ainda temos uma parceria estrita com o Estado, mas a nossa dívida já está toda negociada. O que nós estamos trabalhando agora é para aumentar a nossa rentabilidade e melhorar o nosso fluxo de caixa.

Isso faz parte da nova Iquego?

Isso é a nova Iquego. A nova Iquego é oferecer medicamentos mais sofisticados e com mais qualidade, e saúde financeira aqui dentro, também. É participar da saúde externa, atendendo o SUS com mais qualidade, e ter uma sustentabilidade financeira aqui dentro, sendo gerido como uma empresa privada. A Iquego não é, apenas, uma empresa pública qualquer. Ela não faz parte dessa ideologia de se o Estado deve ser mínimo ou máximo. A Iquego é um componente do sistema de saúde brasileiro. Ao todo, somos 19 laboratórios. O plano do SUS, hoje, é que nós possamos ser sustentáveis naqueles medicamentos de alta complexidade, que são os medicamentos de alto custo. Eles são muito caros para o Poder Público. Então, o nosso plano estratégico é que os laboratórios públicos brasileiros possam atender essa faixa de medicamentos de alta complexidade, barateando o SUS. Então, nós fazemos parte de um planejamento estratégico muito maior do que ser ou não uma empresa pública. Somos uma empresa que atende, hoje, 30% do programa nacional de AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). Isso porque houve um planejamento na época do ministro José Serra (à frente do Ministério da Saúde entre 1998 e 2002) de quebrar patente e transformar esse programa em algo nacional. E, hoje, ele é referência e todo calcado, baseado e fornecido pelos laboratórios públicos. Então, os laboratórios públicos não existem só porque tem que ter ou não uma empresa pública. Eles existem para baratear e ser estratégicos para o fornecimento de medicamento, principalmente os de alto custo.

A Iquego tinha 270 funcionários. E, a pedido do governador, deveria haver um enxugamento de 30% do quadro. O que isso representa para a Iquego?

Como toda empresa, nós precisamos enxugar. As empresas caminham para a inovação tecnológica e, infelizmente, para a redução de mão-de-obra. Hoje, na Iquego, nós precisamos de reduzir um pouco nossa força de trabalho, mas dar condições melhores para os funcionários que estão aqui, porque são trabalhadores extremamente técnicos e qualificados. Nós iniciamos o programa de redução em janeiro e já atingimos 5% desse percentual estabelecido, e estamos fazendo paulatinamente, nem para a empresa sofrer com isso, nem para o colaborador. Até porque estamos fazendo de uma maneira consensual com os funcionários.

E como está sendo a escolha de quem sai e quem fica, já que o prazo dado pelo governador era até o início de julho?

Bem, nós fizemos uma repactuação com ele, até porque esse processo de demissão é oneroso, para caminhar até o final deste ano. É muito caro. São funcionários celetistas. A escolha está sendo feita de acordo com o desempenho e o interesse do funcionário de continuar na empresa. Nós temos funcionários aqui na empresa que já são aposentados. E, muitos deles, tem interesse em sair e pedem a saída. Então, tem sido menos traumático, porque estamos conduzindo um processo bem transparente de conversas com eles. Agora, tem também uma questão de desempenho. Nós somos uma empresa que tem que ter um desempenho comercial de alta eficiência. Temos que buscar isso. E aí, nesse ponto, não tem questões políticas envolvidas, é uma questão administrativa de excelência.

Há um investimento em qualificação profissional?

Para poder investir nos funcionários que estão aqui, tanto em treinamentos pontuais, nós precisamos, realmente, saber quem tem potencial para continuar. Agora, recentemente, nós lançamos um programa educacional, que inclui bolsas para Graduação, Mestrado e Doutorado. Isso tem um custo para a empresa, num momento em que ela está se tornando autossuficiente. Mas, isso significa investimento na qualidade do medicamento que a gente produz. Então, estamos investindo muito nos funcionários da Iquego. Implantamos o Plano de Cargos e Salários no ano passado, estamos fazendo treinamentos periódicos, criamos essa bolsa de estudo para os funcionários – houve uma seleção pública para isso –, estamos fazendo programas de capacitação para eles. Tudo isso para aumentar a eficiência da empresa como um todo.

O avanço da tecnologia implica em uma formação mais avançada. Na sua opinião, no setor como um todo, há profissionais suficientes para atender a demanda do mercado?

Há uma rotatividade muito grande dentro das indústrias farmacêuticas, no que tange às atividades de chão de fábrica. É uma atividade desgastante e que exige qualificação. O que tem uma demanda muito grande e que ainda não é suprida – e isso é uma oportunidade para quem está definindo sua escolha profissional, agora – é o farmacêutico extremamente qualificado. O farmacêutico tem um papel, hoje, na indústria que vai além da manipulação e desenvolvimento de medicamentos. Ele tem um papel regulatório, que é extremamente complexo. Tem um papel na administração, que exige logística. O desenvolvimento e a pesquisa.

Qual a senhora classificaria como o maior entrave do setor, atualmente?

Nós conseguirmos criar um ponto de convergência com a regulação, ou seja, com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Ela caminhou muito à frente, tem um marco regulatório extremamente moderno, um dos melhores do mundo, mas ainda não conseguiu ter um corpo que atenda esse marco regulatório. E o setor industrial farmacêutico ainda não conseguiu se adequar a esse marco. E o segundo maior entrave, que alguns até consideram como primeiro, é a questão da importação do princípio ativo. Nós somos dependentes do princípio ativo do mercado do exterior. Nós não conseguimos, às vezes, administrar com a eficiência que é necessária. Porque nós não temos essa produção aqui dentro e isso dificulta demais a nossa eficiência, tanto da Iquego, enquanto pública, quanto das privadas. Todos sofrem.

O aumento do dólar teve impacto nisso?

Muito! Principalmente, nos contratos já assinados. Hoje, a gente tem discutido, e os nossos fornecedores tem buscado nas empresas privadas, que nós dialogamos com eles, porque temos contratos antigos. E o nosso fornecedor está sofrendo prejuízo. E tem um princípio do Direito que fala que você não pode explorar o seu fornecedor. Em um contrato, nenhuma das partes pode ter prejuízo. Então, temos dialogado muito com o Sindifargo (Sindicato das Indústrias Farmacêuticas no Estado de Goiás), com o Alfob (Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Oficiais do Brasil), da qual eu sou vice-presidente, como nós vamos lidar com essa questão do aumento do dólar nos contratos já existentes. Porque os nossos fornecedores estão tendo prejuízo. E, ao mesmo tempo, nós temos que ver qual é a nossa margem legal. Então, houve sim impacto e o que acontece é que os fornecedores estão retraindo e não estão entregando mais aquilo que a gente contratou tanto para nós, quanto para outros. Tem sido uma dificuldade enorme.

Recentemente, houve uma denúncia contra a Iquego, com relação a maus-tratos de animais. O assunto já foi esclarecido pela empresa. Mas, é um assunto que está muito em voga, graças à questão socioambiental. A Iquego tem alguma política nesse sentido?

Bom, em primeiro lugar, foi uma denúncia infundada que a Delegacia de Meio Ambiente de Senador Canedo esteve lá e comprovou isso, bem como a Associação Protetora de Animais, que esteve lá a nosso convite. Houve uma mobilização, mesmo, e nós conseguimos mostrar que não teve nenhuma situação de maus-tratos. Na verdade, nós nem temos mais animais na Iquego. É um setor que foi fechado no ano passado, logo que eu entrei, que era o setor de produção de plasma. Esses cavalos faziam parte de um processo de desgaste de todos eles, mas era um processo comprovado. Nós recebemos laudos de veterinários, que comprovam isso. E todos eles estavam sendo bem alimentados. Mas, eram cavalos antigos, de 19 anos, 20 anos. Bom, essa área da Iquego está fechada. Esses cavalos foram doados e vendidos. A maioria deles está no laboratório público de Minas Gerais. A nossa política hoje, então, o que a gente tem que cuidar são dos nossos colaboradores. E cuidamos muito bem deles, incentivando o estudo, os salários são bons, temos plano de cargos e salários, perspectivas de crescimento, uma administração transparente. E todos esses fatores nós também aplicávamos aos cavalos. Houve uma denúncia equivocada que, foi comprovado, não tinha fundamento algum.

Por que o setor foi fechado e o contrato com Instituto Butantan foi rescindido?

Foi uma decisão estratégica e econômica nossa. Foi uma decisão de negócio. O Butantan, inclusive, ainda precisava do nosso plasma. O que decidimos foi que não era o foco da empresa. O nosso foco são medicamentos farmacêuticos para atender o SUS, nós fazemos de um sistema nacional, e esse sistema precisa de medicamentos. Na questão de vacinas, que era o ponto do plasma, não era o foco da empresa. Nós precisamos aprofundar no nosso foco. Senão, seria muito difícil.

Quais são as perspectivas para a Iquego nos próximos anos?

A Iquego vai se tornar um dos três maiores laboratórios do Brasil, novamente. Isso, no mínimo, nos próximos três ou quatro anos. Porque hoje nós temos um modelo de negócio extremamente inovador, contratos já assinados, e novos editais para parcerias, um que já está publicado e outros. Além disso, o plano do governador Marconi para a Iquego é que ela se torne um grande centro de pesquisa. Então, o governador tem apoiado a empresa, porque ele enxerga o nosso papel no sistema de saúde nacional e para Goiás, mas também, em segundo lugar, porque vai trazer economia para a compra de medicamentos no estado. Hoje, o Estado de Goiás investe R$ 9 bilhões por mês, em medicamentos de alto custo, fora o custo que o Governo transfere para os Municípios para que eles comprem os medicamentos. Isso torna a Iquego extremamente estratégica, pois desses R$ 9 bilhões, ela pode atender 30% com orçamento mais baixo.

Como última pergunta, a senhora citou o fato desse plano para transformar a Iquego num centro de pesquisa. Já há parcerias com universidades?

Sim, sim. Nós estamos fechando uma parceria com a Fapeg (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás), e através dela vamos selecionar pesquisadores pra cá. A Fapeg tem recursos para isso. Nós também estamos estreitando nosso relacionamento com a Faculdade de Farmácia, da UFG (Universidade Federal de Goiás), que é referência no Brasil. E tivemos já uma abertura do Governo de São Paulo, para nós trabalharmos junto com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). O governador Marconi abriu esse caminho junto ao secretário de saúde de São Paulo, doutor David Uip, que vai não só comprar da Iquego – nós estamos em prazo de fechar essa negociação –, como também abriu a Fapesp e a Unesp (Universidade Estadual Paulista) para nós fazermos pesquisa em conjunto.

Qual é o prazo para que esses pesquisadores venham aqui pra dentro?

Ah, é de oito a nove meses. Estamos ainda em fase de conversação. Daí, precisamos assinar o contrato com eles, fazer um roteiro, o termo de cooperação. Agora, para os pesquisadores da UFG é antes disso.

 

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