Uma escola para todos

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722 -E6 e E7 COLEGIO LIDER-FOTO PAULO JOSE-09-06-15Desmistificar os preconceitos, tratar de igual para igual, o processo de inclusão vai muito além do ato de incluir um aluno dentro de uma infraestrutura adequada. Em alguns casos, barreiras de ordem administrativa e pedagógica são empecilhos que prejudicam a inclusão, mas muitas vezes o principal impedimento é o preconceito que ainda existe em relação à pessoa que possui algum tipo de deficiência física.

De acordo com Lorena Resende Carvalho, gerente de Ensino Especial e Superintendente de Inteligência Pedagógica e Formação da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (SEDUCE),  há uma orientação para que as instituições de ensino do estado desenvolvam atividades de maneira compartilhada, com o propósito de promover a integração entre todos os alunos da escola. “A proposta é envolver esse aluno portador de necessidades especiais com os demais”, conta.

Lorena explica que o Programa de Educação Inclusiva no estado de Goiás iniciou em 1999 e prevê basicamente a inclusão dos alunos com deficiência nas escolas comuns. As ações desenvolvidas pelo programa de inclusão, segundo ela, tentam por si só minimizar as atitudes discriminatórias que por ventura venham a acontecer no ambiente escolar. “Uma vez que as escolas abrem suas portas para receber esses alunos com deficiência, ela está viabilizando o acesso” explica a gestora.

Jacira Gomes de Oliveira, que atua como professora formadora na Gerência de Ensino Especial da Seduce, reforça que as escolas regulares vêm sendo preparadas ao longo do tempo para receber a demanda de alunos inclusivos. “Houve  todo um trabalho para conscientização, para formação de profissionais, de adequação das escolas, mas ainda estamos trabalhando”, comenta Jacira.

Obrigatoriedade

Há quase três décadas que a Constituição brasileira prevê a inclusão de alunos com deficiência nas classes regulares de ensino, estabelecendo igualdade de condições para o acesso e a permanência na escola. De acordo com Mara Rúbia Gomes de Moraes, diretora da Escola Municipal Vitor Hugo de Ludwig, em Goiânia, para que a inclusão ocorra de maneira efetiva é fundamental que as escolas tenham estrutura e preparo para lidar com os alunos inclusivos.

Sobre trabalhar com questões ligadas ao preconceito, a diretora conta que o corpo docente da escola tenta conduzir naturalmente o ingresso na instituição dos alunos portadores de deficiência, sem qualquer tipo de alarde, como deve ocorrer com todos os estudantes que buscam a instituição de ensino. Após o ingresso na escola, Mara Rúbia diz que são realizadas ações que buscam trabalhar com os alunos questões relacionadas com a aceitação. Ela explica que as atividades são realizadas no dia a dia dos estudantes por meio de brincadeiras ou histórias didáticas que trabalham temas como a igualdade e o respeito ao próximo.

O Colégio Municipal Vitor Hugo de Ludwig possui atualmente nove alunos inclusivos que fazem parte do quadro escolar da instituição. Professora e coordenadora pedagógica da escola, Claudia de Paula Bylão relata que grandes avanços foram feitos na história do processo de inclusão, mas considera que ainda há muito a ser feito. Ela acredita que falta preparo das próprias famílias de muitos alunos, pois o excesso de zelo de alguns pais muitas vezes atrapalha o desenvolvimento das crianças e pode até contribuir para desencadear algum tipo de preconceito.

Ações práticas

Foi pensando em fazer um trabalho de conscientização sobre a importância de se respeitar a pessoa portadora de deficiência, que um grupo de professores e alunos do Colégio Líder, localizado em Aparecida de Goiânia, desenvolveu um projeto que vai além da formação teórica das salas de aula. O propósito, nesse caso, foi fazer com que os alunos vivenciassem algumas das dificuldades cotidianas enfrentadas por cadeirantes.

O professor de educação física do colégio, Weligton Machado, 40 anos, colocou em prática a ideia de incluir nas aulas de educação física da escola algumas atividades esportivas em que os alunos pudessem utilizar cadeiras de rodas para se locomover. “A sociedade está se perdendo na questão humanidade, então baseado nas experiências que eu tive em outras unidades de ensino, percebi que era preciso alertar as pessoas para que elas possam ser melhores a cada dia”, argumenta o professor.

Com a ajuda da Organização das Vo­lun­tárias de Goiás (OVG), oito cadeiras de rodas foram cedidas à escola para que o pro­jeto fosse realizado. Todas as turmas do ensino fundamental e médio participaram da ação, que aconteceu no mês de junho. Na quadra de esportes da escola, os alunos se reuniram para as atividades, onde cada um teve a oportunidade de sentir pela primeira vez a sensação de estar no lugar de um cadeirante.

Assim que começaram a deslizar as mãos pelas rodas das cadeiras, o olhar de muitos estudantes evidenciou o nível de dificuldade na hora de manobrar o meio de locomoção. Logo em seguida, o professor organizou o ambiente para uma partida de Badminton, esporte que se parece com o tênis, a diferença é que ao invés de usar uma bolinha para bater com a raquete, usa-se uma peteca.

Como os alunos tiveram que jogar uma partida do esporte se locomovendo por meio de uma cadeira de rodas, a tarefa exigiu muito dos jovens, que tiveram dificuldades para usar a raquete e manusear a cadeira. Faltou habilidade no início, mas logo muitos estudantes pegaram o jeito. O resultado da partida, no en­tanto, foi o que menos interessou, já que o verdadeiro ganho aconteceu a partir do momento em que os alunos puderam vi­venciar a experiência de praticar um esporte utilizando uma cadeira de rodas. A partir de então, muitos saíram da própria zona de conforto para se colocar no lugar do outro.

Inspiração

A inspiração para a realização do projeto no Colégio Líder foi o estudante Robson, 11 anos, o único aluno cadeirante da escola. Durante o evento, o garoto auxiliou nas atividades dando instruções sobre o manuseio da cadeira para os colegas. O diretor geral da escola, Blayth Moura, afirmou que após a chegada do aluno cadeirante decidiu reestruturar e adaptar toda instituição para que o jovem se sentisse acolhido e sem nenhum tipo de exclusão. “O Robson participa e brinca com todos os outros alunos. Ele é uma criança totalmente ativa”, relata o diretor.

Thiago Thalles,12 anos, e Larissa Soares, 11, participaram das aulas práticas na quadra da escola e disseram que não foi fácil andar na cadeira. “Todos os cadeirantes têm dificuldades porque muitas vezes não há rampas de acesso suficientes para eles, para que possam se locomover livremente por todos os lugares. Até que andar em uma superfície reta é fácil, mas para fazer curvas com a cadeira é difícil, imagina para os cadeirantes que vivem isso todos os dias”, concluíram as crianças.

Progressos e desafios

De acordo com o educador Ricardo Tei­xei­ra, que integra o Núcleo de Acessi­bilidade da Universidade Federal de Goiás (UFG), as ações inclusivas acontecem de acordo com o que a sociedade vivencia. Ele lembra que a escola regular tem que disponibilizar todas as condições de acesso ao aluno com deficiência. “Na sala de aula os professores precisam de apoio e se o aluno necessita ter um atendimento diferenciado, cabe ao poder público oferecer esse atendimento”, ressalta o professor.

Já a professora Claudia de Paula, do Colégio Vitor Hugo Ludwig, argumenta que os professores precisam buscar mais conhecimento, fazer cursos que possam dar a eles suporte para saber lidar e trabalhar com a inclusão, com a questão do preconceito. “As famílias desses alunos e crianças que possuem deficiência também precisam de apoio do poder público, no sentido de disponibilizar profissionais como psicólogos e assistentes sociais para conscientizá-los e acompanhá-los na maneira de tratar a situação. Isso reduziria de forma significativa a discriminação, que infelizmente em muitos casos, começa dentro da própria casa”, comenta a educadora.

Mais capacitados

Segundo dados do Governo Federal, nos últimos anos houve um aumento de matrículas dos alunos portadores de deficiência em escolas regulares de ensino. De acordo com os números, um crescimento de 93% desde 1998. Dados do Ministério da Educação (MEC) mostram que também cresceu o número de professores com formação em educação especial: em 2003, eram 3.691 educadores capacitados para lidar com a educação inclusiva; em 2014, o número havia subido para 97.459.

Livro de apoio

No livro Inclusão Escolar o Que é? Por quê? Como fazer?, da Summus Editorial, escrito pela pedagoga Maria Teresa Eglér Mantoan, a autora comenta que a ideia de educação inclusiva, nas últimas décadas, impulsionou mudanças consideráveis na política educacional do Brasil. O que não significa dizer que todos os problemas foram resolvidos, segundo ela. Mantoan também comenta que a inclusão implica pedagogicamente na consideração da diferença dos alunos, em processos educacionais iguais para todos. Segundo a autora, não é possível conceber uma escola que exclui.

 

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