Ensino médio como melhorar?

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E4 e E5 01 GERJ

Em meio a resultados negativos com relação ao rendimento escolar no ensino médio brasileiro, entraram em pauta novamente discussões sobre a necessidade de uma reforma na grade curricular desse ciclo de ensino. Segundo muitos especialistas, o referido período estaria com a grade curricular desatualizada, com excesso de teoria e pouca prática, desconectado da realidade de muitos jovens, uma situação que justificaria o baixo desempenho apresentado na fase de escolarização. No entanto, há quem defenda que uma mudança curricular não é o melhor caminho para resolver os gargalos existentes no ensino médio.
Um dos sintomas de que o ensino médio não vai bem pode ser sentido a partir da evasão escolar, que frequentemente tem se mantido em níveis altos. Ciente dos pontos falhos no período de ensino, Renato Janine Ribeiro, ministro da Educação, logo que assumiu o cargo declarou que a educação básica (que vai da creche até o ensino médio) será prioridade de sua gestão à frente do Ministério da Edu­cação (MEC). Mas, enquanto medidas con­cretas e efetivas ainda não acontecem, sobram críticas e propostas de mudanças com o intuito de tentar sanar os gargalos dessa fase tão importante do ensino escolar.  
Medidas que visam aprimorar o ensino médio brasileiro por meio de transformações do modelo atual vem sendo discutidas seguidamente. Entre outras propostas, uma delas diz respeito a um Projeto de Lei (PL de nº 6.840/2013) elaborado pela Comissão Especial destinada a promover Estudos e Proposições para a Reformulação do Ensino Médio (CEENSI) da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), que começou a tramitar no Congresso Nacional propondo mudanças no ensino médio brasileiro.
O PL surgiu a partir da premissa de que o atual currículo escolar não estaria preparando os estudantes nem para o mercado de trabalho e nem para o ingresso na educação superior. Diante disso, as discussões em torno de um novo modelo curricular para o ensino médio não param. Apesar disso, na ótica de muitos estudiosos, a proposta de uma reforma curricular não resolveria de fato alguns dos problemas inerentes ao ensino médio, a exemplo da distorção da idade-série; alto índice de evasão e estagnação nos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), entre outros pontos.

Investimentos amplos
Segundo especialistas, muitos problemas que afetam a fase de ensino estão associados ao baixo investimento na educação, e por esse motivo, uma mudança curricular apenas não seria capaz de transformar a realidade do ensino brasileiro e os reflexos de seus alunos no mercado de trabalho. Essa é a linha de raciocínio do professor e doutor em educação, Frederico Dourado. Na sua avaliação, para que os resultados positivos ocorrram, as discussões sobre a melhora do ensino médio precisam ser pensadas desde a educação infantil (crianças até cinco anos) e ensino fundamental (para alunos de seis a 14 anos).
Segundo Dourado, os resultados negativos apresentados no ensino médio são apenas reflexos de etapas anteriores de ensino. “O ensino médio apenas reflete como foi o princípio da educação e é lá que temos que começar a trabalhar”, avalia. O professor também argumenta que as propostas voltadas para o referido período precisam ter outro foco. “A reforma é mais política do que estrutural, pois para que se tenha uma mudança curricular, primeiramente é necessário voltar os olhos para mudanças mínimas, como as de infraestrutura, por exemplo”, analisa Dourado, e complementa dizendo que “é necessário pensar na educação em toda a sua complexidade. Tem-se que investir mais em infraestrutura, material humano, valorização e formação dos professores, para que possa se pensar em discussões de mudanças curriculares”, aponta o professor.
Segundo Frederico, outras discussões devem entrar em pauta antes de uma reforma curricular, como a discrepância entre os investimentos aplicados em escolas públicas versus privadas. “Começamos daí. A valorização é bem diferente e com isso o rendimento também é outro”, explica.  Além disso, o educador considera que as discussões sobre a fase de ensino devem ser realizadas em toda sua amplitude, inclusive com os professores que estão em sala de aula e com os próprios alunos.


Fortalecimento da fase escolar

 

Ciente dos problemas na fase de ensino e como parte de uma proposta para promover melhorias no ensino médio, o Ministério da Educação criou o Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio.  Instituído pela Portaria nº 1.140, de 22 de novembro de 2013, o Pacto é simplesmente a união entre os governos estaduais e distrital na formulação e implantação de políticas para melhorar a qualidade do ciclo de ensino, em suas diferentes modalidades, orientado pela perspectiva de inclusão de todos os envolvidos.
Através da medida, o MEC e as secretarias estaduais e distrital de educação assumem o compromisso pela valorização da formação continuada dos professores e coordenadores pedagógicos, que atuam no ensino médio público, nas áreas rurais e urbanas.
O Pacto têm por objetivo a melhoria da qualidade da educação e a implantação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. A coordenação do projeto está a cargo  da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que, por meio do Observatório do Ensino Médio, produz os materiais didático-pedagógicos voltados para a formação de professores e realiza Seminários Nacionais que visam acompanhar as ações do Pacto.
Em Goiás um dos engajados na causa é o educador Adriano de Melo Ferreira, coordenador do projeto pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). De acordo com o professor, a ação se expandiu e foi parar também em outras instituições que foram convidadas a participar do projeto, que está refletindo de forma positiva. “É uma formação em cascata. Com o projeto, o Mec leva os professores a refletirem o ensino médio com uma nova concepção, de uma forma geral e histórica, buscando a formação do indivíduo como um todo”, explica o professor e ressalta que projeto é trabalhado em etapas, pautado por amplas discussões.


Números preocupantes

 

De acordo com indicador calculado a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), constatou-se que pouco mais da metade (54,3%) dos jovens que ingressam no ensino médio completam o período escolar na idade certa (19 anos). Os números deveriam estar na casa dos 80%, de acordo com as projeções da Meta 4 do Todos pela Educação.
Com base nos índices da fase de ensino, educadores acreditam que algumas mudanças propostas,  a exemplo das que integram o Projeto de Lei nº 6.840/2013, caracterizam mais um retrocesso do que uma transformação positiva, de acordo com a visão de educadores e entidades de classe ligadas ao magistério. O argumento é de que algumas propostas penalizam de forma muito evidente os estudantes, que estão interessados não só no ingresso ao mercado de trabalho, mas em uma formação sólida e integral que os humanize e ajude na compreensão de mundo.
Diante da discordância com o Projeto de Lei nº 6.840/2013, os estudiosos da causa e contra a proposta do projeto acabaram redigindo uma petição pública contrária ao Projeto de Lei. A petição está disponível no site: www.peticaopublica. com.br/pview.aspx?pi=BR68899 e já conta com mais de duas mil assinaturas.


Empenho para melhorar

 

Em Goiás, o superintendente do ensino médio da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (SEDUCE), Wisley Pereira, considera que é necessário rever itens curriculares da fase de ensino.Mas, segundo o professor, antes de qualquer alteração é necessária uma ampla discussão em torno de todo esse processo e de mudanças que venham a melhorar o período de escolarização.O superintendente também disse que a Seduce trabalha em parceria com os municípios a fim de manter um alinhamento entre os níveis de ensino.
“Trabalhamos sempre em parceria, mas a educação em si vai muito além, pois esbarra no comprometimento dos alunos, dos pais, das instituições, dos professores e, principalmente do acompanhamento sequencial que muitas vezes é interrompido com a transferência dos alunos para outras escolas por vários motivos, o que muitas vezes acaba comprometendo o aprendizado”, diz.
A Seduc, de acordo com o superintendente, desenvolve políticas públicas no sentido de tentar melhorar todo e qualquer entrave que possa existir no ensino médio, criando alternativas e firmando parcerias para que o reflexo seja positivo em um futuro breve na vida dos estudantes. “Não buscamos apenas a escolarização. Queremos a educação de fato, que é muito diferente”, completa Pereira.

 

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