“A intenção é atrair e motivar as pessoas”

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Estudar ciências naturais e entender sobre astronomia  pode ser uma das melhores escolhas que alguém pode fazer, segundo a professora do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais (IESA) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Juliana Romanzini, 31 anos. Natural de Londrina (PR), a astrônoma é uma das professoras responsáveis pelo Planetário da UFG, que em mais de quatro décadas contou com poucas mulheres em seu quadro de docentes.
Apaixonada pela Astronomia, uma área que ainda conta com poucas mulheres atuando, Juliana Romanzini acredita que o estudo de física, astronomia e demais assuntos relacionados deve ser um hábito cada vez mais comum entre as pessoas. “Esse amor pelas ciências precisa ser gerado desde a infância, a começar pelo incentivo nas escolas”, frisa a docente. Nesta entrevista, a jovem astrônoma também falou um pouco sobre a sua carreira profissional e criticou alguns métodos e materiais utilizados para o ensino de astronomia e física.

Professora, fale um pouco sobre como surgiu o seu interesse pela astronomia?
Olha, vem lá da minha infância. Ainda na 5º série, minha professora pediu para a turma fazer uma maquete do sistema solar, e eu me empolguei e comecei a colecionar um monte de coisas sobre astronomia; papeis de cartas, entrevistas, reportagens, até que um dia eu disse a mim mesma: Quero fazer astronomia, trabalhar com isso! Como eu morava em Londrina, só tinha cursos na área no Rio de Janeiro ou São Paulo, então eu pensei em fazer o curso que chega mais perto da área, que é a Física. Após alguns anos de formada, dando um curso para professores de astronomia, a minha antiga professora de ciências estava fazendo esse curso, e tive a oportunidade de falar que estava ali por causa dela, do trabalho que ela passou para mim na 5º série e que me encantou.

Sua história reflete bem a importância do incentivo dado em sala de aula…
Foi um pequeno trabalho de escola que me motivou. Quando eu fui pesquisar sobre o trabalho, ainda no ensino fundamental, foi uma grande descoberta. A gente sabia o nome dos planetas, mas nunca tinha parado para pensar de forma mais analítica sobre o assunto, aí fui vendo as figuras e aquilo foi me encantando…Depois que eu peguei o jeito, sabia até quando iria ter chuva de meteoro – e quando tinha, era minha família inteira que ficava acordada junto comigo para ver.

Por qual motivo não vemos muitas  mulheres trabalhando nessa área de atuação?
Acho que essas áreas de ciências naturais assustam um pouco, porque as pessoas falam que a física é difícil, química é muito difícil, já começa daí. Geralmente, as pessoas que fazem cursos nessa área tiveram uma motivação lá atrás, como foi no meu caso. Tanto é que nós vemos entrar mulheres nesse tipo de curso, só que muitas não terminam, tanto mulheres quanto muitos homens,que são em maioria nesse tipo de graduação. Quando eu fiz o curso de física, por exemplo, na minha turma eram quarenta alunos, mas havia apenas três mulheres. E são poucas pessoas que se formam, porque o curso é difícil e pessoas que não têm motivação já desistem logo de cara.
E como trabalhar para que essa motivação aconteça?
Acho que falta mais divulgação para que as pessoas possam conhecer o que se estuda em cursos assim. Muitas vezes, as pessoas não têm visão do que um físico faz, do que um químico faz. Então, as pessoas já adquirem um temor lá das disciplinas no ensino médio, que foi difícil de levar, de passar de ano, e não têm uma perspectiva do que vai fazer nessa área. Acho que as universidades deveriam divulgar com maior frequência o que cada curso oferece. Na física tem tantas linhas (de atuação), há até possibilidade de se trabalhar na Medicina, na área da física médica, e tantas outras áreas.
A senhora acha que faltam estratégias para estimular o interesse por essas áreas do saber?
A física tem muita aplicação, mas isso não é visto com clareza. Então, vemos que as pessoas pensam que física é só matemática pura, que isso não vai levar a nada, mas não é assim. Por isso que poucas pessoas vão em busca de trabalhos como este. Há, por exemplo, uma área na física que está crescendo bastante: o ensino da física na astronomia – destas áreas que estão relacionadas- , porque temos estratégias novas que conseguem cativar mais os alunos. E ai nós conseguimos mostrar que a física não é um bicho de sete cabeças, mas que ela é linda.

A respeito do ensino de física, qual a sua avaliação sobre a aplicação da disciplina no ensino básico?
Um dos problemas é que a física estudada na escola é o tempo inteiro no quadro, e não deve ser assim. A física é tão bonita. Até o fato de você caminhar a física explica, porque ao caminhar você está empurrando o chão para trás e o chão fazendo uma força contrária e empurrando você para frente. Tudo tem uma explicação, essa é a beleza da física, que muitas das vezes fica escondida nas contas e acaba assustando. Apesar disso, há uma preocupação em criar novas estratégias, novos métodos que vão dando uma visão mais limpa do que a física é – quem sabe até chamando mais as mulheres para o nosso meio profissional.

Em sua opinião, como está a qualidade das abordagens sobre Astronomia nos ensinos fundamental e médio?
É fraca. E não sou apenas eu que estou afirmando, mas muitas pesquisas que já vem sendo feitas em relação a isso. Os livros didáticos têm muitos erros. Há erro conceitual sobre astronomia, muitas vezes o conteúdo não está bem explicado; figura fora de escala, que é o mais comum, e nesse caso para o professor que não se sente familiarizado com o assunto, o ensino deixa a desejar. Por isso esse tipo de ensino nas escolas está muito precário. Por outro lado, também tem muita pesquisa sendo feita para buscar melhorar esse cenário.
Você pretende aprimorar o ensino da  astronomia para crianças. De que maneira pensa em fazer isso?
Eu tenho um projeto que visa trabalhar a astronomia com atividades lúdicas, jogos divertidos. A intenção é trabalhar com crianças bem pequenas, desde a alfabetização, para elas irem sendo estimuladas a respeito deste assunto. No Planetário(da UFG) mesmo nós podemos incluir espaço com joguinhos, tudo de uma maneira bem gostosa e lúdica, descontraindo as crianças e envolvendo elas no mundo da astronomia. Plantando a sementinha logo cedo, a intenção é atrair o interesse e motivar as crianças – o que terá reflexos na vida escolar delas. Essa é a ideia do projeto, mas ainda quero amadurecer ela mais um pouco.

Atuar logo na infância pode colaborar para o aumento do interesse dos pequenos pelo assunto, o que pode implicar em mais pessoas propensas a seguir carreira na área…
Porque é um incentivo que já começa desde a infância. Eu fui motivada por alguém, também quero motivar outras pessoas. Os professores e a equipe do Planetário têm muito zelo e carinho pelo que fazem, então já vem da nossa própria atitude a motivação. E a intenção desse meu projeto em particular é juntar a astronomia com a brincadeira, com historinhas, com o lúdico. Isso é fantástico! Quem não gosta de brincar e olhar para o céu? Então estamos tentando juntar duas coisas muito boas e fazer com que a astronomia seja algo normal do cotidiano, natural para as crianças, pois dessa maneira sabemos que elas vão aprendendo com mais vontade e gosto.

Fale um pouco sobre o trabalho que a senhora desempenha da UFG…
Eu fui contratada como professora de astronomia, minha função básica é ensinar astronomia. E também trabalho no planetário, onde nós trabalhamos muito com a divulgação da astronomia, buscamos criar eventos, minicursos, para fazer essa divulgação. Para a astronomia ser divulgada para todo tipo de pessoa, desde uma criancinha até uma pessoa de idade mais avançada. Nossa função é mostrar o planetário e o papel da astronomia, mostrar as belezas do céu, o seu encanto, tentar motivar as crianças assim como um dia eu fui motivada. Existem muitas crianças que visitam o Planetário e saem falando que vão ser astronautas, cientistas. E quando isso acontece, é uma resposta ao nosso trabalho. Então, vemos que estamos plantando uma sementinha.726 - E4 e E5 - Juliana Romanzini - Crédito Caroline Almeida

 

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